
Nunca consegui introjetar duas lições fundamentais que recebi quando pequena e que, até hoje, são muito úteis e importantes; na verdade, fundamentais, como acreditavam os pais de então – só posso falar de cátedra desses, que foram os meus. A tendência dos pais de hoje não me parece exatamente essa; mas, os parâmetros continuam sendo total e absolutamente os mesmos…
E lá vou eu, para as confissões terríveis:
1º SABER PERDER – “O importante é competir” – sem que jamais tenha tido qualquer valor pecuniário…
Essa é uma confissão e tanto, dado que se ensina em todos os lugares, que é da vida saber perder – faz parte de qualquer situação e de qualquer jogo; que vencedor só tem um e o que se espera de você, caso não tenha sido ele, e sabendo perfeitamente que não houve “maracutaia” alguma, simplesmente o outro era de fato melhor e que você, como perdedor, deve cumprimenta-lo e reconhecer esse fato, evitando assim de ser o que se rotula, em inglês, de “sour loser” ou seja, em tradução livre, “perdedor azedo”.
Tá certo, entendi tudo e não devo fazer caras; devo estender a mão e parabenizar o outro com toda sinceridade…Eu acredito nisso, tanto que ensinei isso a meu filho, mas… não significa que consigo fazer isso de “cara boa”, “honestamente”, com uma atitude interna compatível com o que se espera…
Vou ilustrar essa minha crônica com uma foto de um boton que eu tenho, e que é a mais eloquente tradução de minha disposição interna quando perco: o Snoopy, um cãozinho de cartoon, saindo com uma expressão furibunda, evidentemente de uma quadra de tênis, com cara de poucos amigos – exatamente como eu fico se tiver perdido, de mau humor – dizendo de si para si mesmo: “Não importa vencer ou perder – até você perder…”
Mais uma lição mal aprendida que recebi e não internalizei como deveria e é “fonte de sofrimento” até hoje:
2º SABER DIVIDIR – eu detesto estar comendo alguma coisa, saboreando como, por exemplo, um sorvete – algo que eu adoro– e alguém vem para mim, seja quem for, e me pede: “me dá uma mordida?” ou “me dá uma lambida?”! A vontade que eu tenho é de dizer que “NÃO!! Cai fora, vai comprar um pra você!”
Claro está que, tanto uma quanto outra, ambas as atitudes, ainda mais vindas de uma senhora de cabelos brancos, são, para dizer o mínimo, execráveis… Com o tempo, aprendi a me controlar. Mas, todos na família sabem que, tanto uma quanto outra atitude me custam sacrifício e, evidentemente, ADORAM pegar no meu pé e, se for num joguinho de cartas em família, se meu time estiver disputando uma partida na TV, ou ainda, se eu estiver comendo alguma coisa, chupando um sorvete, e lá vem a provocação…
Tenho cá para mim que a maioria das pessoas deve se sentir como eu; mas, aprenderam a disfarçar, enquanto eu, infelizmente não…
De modo que morro de dó das crianças quando alguém vem com o bocão aberto pedindo “uma mordida” daquele sorvete delicioso e tenho que me armar da minha “cara de pau” e fazer “cara de paisagem” se alguém começar com a ladainha que o “importante é competir!”

