22 de julho de 2026
Ligia Cruz

O brasileiro deposita no outro a sua fé

O brasileiro reza, ouve milagreiros, faz mandingas, ajoelha no milho e espera pela dádiva divina. Acredita piamente que Deus é brasileiro.

Quando o resultado tarda ou não vem, blasfema, culpa aquele que ele acha que deveria trazer a solução e fazer o seu trabalho, enquanto mergulha em seu próprio fracasso.

É o quadro de hoje. De herói comemorado em páginas e mais páginas, Trump virou desafeto. Os que não são da esquerda, estão chorando porque a Magnitsky naufragou.

Essa decisão pragmática de Donald Trump pôs fim ao que seria o caminho para a justiça que o brasileiro esperava. Uma pressão estrangeira para animar aqueles que não têm esperança nenhuma e não conseguem se mobilizar. Trump é o traidor da vez.

Só que a mídia está noticiando só um lado da história. Há uma negociação em curso e ela tem dois lados. Mas o que impera em tudo é a questão geopolítica.

Trump quer a diminuição da influência da China sobre o Brasil (que não vai acontecer), a prioridade na exploração das terras raras, também interesse chinês, a implantação da Starlink, a questão da regulamentação das big techs, plataformas digitais e outras medidas que estavam no bojo das negociações iniciais.

Qual é o lado da queda de braço do Brasil? Muito provavelmente, Jair Bolsonaro vai para prisão domiciliar com direito a tratamento digno, confirmação de eleições no próximo ano, uma possível anistia presidencial de fim de ano pelo presidente e outras quireras mais. E Lula vai para o Olimpo para ser eleito novamente porque não há oponente efetivamente forte, entre os pré-candidatos, para destruir todo o aparelhamento do estado e todas as isenções aos desfavorecidos. Esse é o jogo do PT.

E o resto? O que foi colocado na mesa de negociação? A implantação de um regime de exceção, a escalada contra os direitos humanos, a censura, a presença do narcotráfico no poder estão em qual parte da conversa? Ainda não se sabe.

O anúncio da primeira parte foi só para deixar a esquerda feliz. Agora virá o resto, o grosso, a parte em que Lula cede.

Trump deixou claro que não aceita as ditaduras comunistas na América Latina. Todo seu empenho em destituir Nicolás Maduro não é à toa. E se ainda não invadiu a Venezuela é porque está tomando cuidado com a reação política em seu país. Tudo tem o tempo certo.

Trump acredita que enquadrando Maduro e Petro o foro de São Paulo perde força e Lula também. E o escândalo do Banco Master como braço financeiro desse sistema também está no foco americano. A ver nos próximos capítulos. Portanto, possivelmente, a negociação não acabou. Foi o primeiro round.

Não se pode condenar o presidente americano pelas decisões que toma em relação ao Brasil ou qualquer outro país e da expectativa de seus povos. Ele sempre foi claro em relação às suas intenções: “America first!”.

Portanto, o acordo deve ter sido muito vantajoso para Trump ao ceder à exigência de Lula para retirar as sanções à Alexandre de Moraes e família. São negócios, interesses comerciais e geopolíticos.

Mas, há um retrocesso evidente no processo. A entidade Magnitsky perde a credibilidade e abre um precedente para interesses que podem se sobrepor ao objetivo da lei que é punir quem viola os direitos humanos. Infelizmente.

Óbvio que o tirano venceu temporariamente e pode se sentir mais grandioso do que é. Fato. Mas esse é um assunto que o brasileiro tem que resolver internamente.

Se Moraes amargou cinco meses de fel e agora está em festa, é uma prova de que Lula se articulou e pode, se quiser, exercer poder sobre ele. Todos têm seus demônios e o petista é um bem encarniçado.

A grita momentânea nas mídias é a de que “Trump traiu os brasileiros”. Errado! Quem trai, sistematicamente, são os nossos políticos e as Forças armadas que fizeram parte do teatro do golpe.

Assim ocorreu quando muitos ficaram por dias acampados em frente aos quartéis, rezando e cantando, à espera que as fardas verde-oliva trouxessem uma resposta afirmativa para começar um levante contra o arbítrio que se instalava no país. Deu no que deu.

Agora, a esperança foi depositada em um presidente de outro país, que faria a justiça, puniria os algozes e deporia o governo corrupto. Coisa do Superman dos quadrinhos. Um milagre que não virá.

O mundo da geopolítica não funciona desse jeito. Não são as simpatias ou antipatias que definem os acordos. São só interesses, os resultados e o poder.

Donald Trump sabe que Lula é um embusteiro e está envolvido com governos antidemocráticos, que usam o terrorismo como arma. Até mesmo que é um perdulário do dinheiro alheio, populista e vaidoso, que não tem obras porque simplesmente não governa, só faz política e passeia. Por isso se apropria dos feitos dos outros como se fossem seus.

Trump abe a verdade porque sua embaixada no Brasil o informa, mas ele não se incomoda o suficiente para perder o foco e arruinar seu fígado.

Esse choque de realidade talvez sirva de lição para o amadurecimento político do povo brasileiro. Isso pode levar anos, se prevalecer esse estado de mornidão e o imponderável não acontecer. Temos que parar de acreditar em milagres e fazer a própria história.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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