4 de outubro de 2026
Adriano de Aquino

Diário de uma eleição

Apesar de ter mudado muitas vezes até de país, nunca mudei meu endereço postal no TRE. Desde sempre mantive o endereço do Leblon, onde vivi toda infância e adolescência. O TRE é que mudou minha zona eleitoral.

Há tempos, minha zona eleitoral é situada no Ciep Nação Rubro Negra, ao lado da sede esportiva do Flamengo. Em tempos de eleição aproveito o dia para flanar pelo bairro.

Hoje, percebi um fenômeno interessante.

Entre pessoas e grupos que circulavam pelas ruas do bairro pude notar que a maior parte dos transeuntes passeavam em trajes comuns de um domingão parcialmente nublado. Contudo, alguns poucos lulopetistas portavam nas camisetas os ‘santinhos’ autocolantes do seu amado líder.

Observei que esses estandartes humanos sentem-se entidades ungidas pela particularidade psíquica de superioridade moral.

Ainda que ninguém se interesse em perguntar-lhes ou pedir sugestão sobre política, a postura que exibem publicamente é de orgulho, uma espécie de soberba moral que precisa ser desfraldada em público de forma desafiadora.

Ao atravessar a Rua Carlos Góis, cruzei com um jovem trajando uma camiseta com uma grande estrela vermelha, escoltando duas senhoras que supus serem mãe e avó do militante convicto. Logo atrás deles e à minha frente, dois jovens esbravejaram: “ladrão…pega ladrão” .

O jovem militante embandeirado entrou em modo guerreiro. Contido pelas duas senhoras, xingou os dois rapazes no modo comum aos petistas : ‘fascistas!’. 

Os dois provocadores caíram na gargalhada.

Segundos depois, a paz voltou, transeuntes riram e o orgulhoso petista seguiu seu trajeto em direção ao Shopping Leblon.

Adriano de Aquino

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

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