
Esses dias ensolarados são ótimos para limpar e higienizar armários. É o que faço todos os anos e assim vou diminuindo meu fardo acumulado na vida.
Tiro tudo de dentro, lavo todas as roupas. Abro as malas, jogo um bocado de apegos fora. E ainda assim acho que poderia ir além.
Nos álbuns de fotografias, aquelas de papel, revisito o passado e rasgo aquelas que não têm mais significado para mim. Até as de casamento de parentes. Muitos se separaram e estão eternizados no meu álbum como uma promessa de felicidade tão efêmera quanto o picolé que derreteu enquanto eu atendia o telefone.
Para que a gente guarda essas coisas? De que nos serve? Muitas dessas pessoas morreram ou nos abandonaram pela vida e se tornaram desconhecidas. Vale para amigos de um certo tempo que deixaram de interagir por diversas razões.
Creio que, quando envelhecemos, os álbuns vão ficando cada vez mais vazios. Mas não é triste, é só uma constatação realista de que a vida segue seu curso com outros personagens. Mas hoje os álbuns são digitais e as fotografias podem ser descartadas num clique, muito mais fácil do que ter em mãos algo que foi.
Vestidos lindos que antes caíam bem com saltos, usados em festas e ocasiões especiais, poderiam ainda sê-los se os anos não tivessem modificado a silhueta e o viço da pele.
O glamour acabou junto com a certeza de que podíamos sonhar com coisas simples que custavam pouco e podíamos comprar. Como um pão de mel para o café da tarde. Não mais. Custam os olhos da cara se feitos com mel de verdade. A doçura ocupa o espaço que damos a ela em nossas necessidades.
As bolsas de couro, conservadas há décadas, continuo limpando na esperança de um dia poder voltar às ruas com elas, sem o medo de morrer por seu conteúdo.
Aprendi que não preciso cansar os ombros carregando meu pequeno mundo de vaidades nelas. Até porque as vaidades cabem hoje num batom e um lápis. Foram anos de aperfeiçoamento e temeridade para aprender a sair só com documentos e um cartão entre as roupas.
O último que tentou me assaltar quase teve os tímpanos estourados e correu. Era um rapazote viciado e assustado querendo o que era meu para vender. Não deu para ele. Ganhei no grito. Fiquei três dias cuidando das cordas vocais.
Da coleção de casacos de lã e couro e os conjuntos ainda não me deu coragem de desapegar, embora precisaria de muitos invernos gélidos para usá-los.
Antes eu não repetia roupas em uma mesma semana. Era um prazer combiná-las. Hoje sou capaz de usar uma única calça jeans por dias, trocando apenas as camisas. Quem se importa? Não sou nenhuma celebridade no foco de paparazzis. Que paz isso dá! Detestaria ter que dar bom dia a cavalo, sem que de fato o fosse porque amo os verdadeiros equinos.
Os sapatos, minha paixão, talvez fruto de tempos de dureza da infância que não me permitia ter nada além do sapato da escola, o de sair e o par de chinelos, sempre foram minha maior dificuldade de desapego. Assim mesmo venci a minha mesquinhez e enchi duas sacolas.
Difícil é eliminar os inúmeros blocos e cadernos e publicações com centenas de entrevistas realizadas, que somam meus mais de quarenta anos de jornalismo.
Mesmo tendo excelente memória, era um rito importante anotar para garantir que nenhuma informação me escapasse. Nesses achados estão os pensamentos e memórias de grandes empresários, especialistas e personagens do mundo dos negócios e da economia. Alguns que já partiram. Esse material todo ainda vai continuar amarelecido em caixas, talvez para a minha eternidade.
Ainda resisto a abandonar de vez alguns cartões, cartas e bilhetes de ex-amores. Por mais que algo tenha desandado, sou uma espécie romântica atemporal. Me delicio ao ler aquilo que outrora foi um fio de esperança de um par ideal. A pena eu deixo para a realidade me avisar que não era para ser e me conformo.
Gosto das canetas que ganhei, alguns bonés, miniaturas de caminhões, carretas, ônibus, tratores, coisas da aviação e crachás de eventos. Guardo-os como verdadeiras relíquias das minhas relações profissionais com as indústrias e os eventos. Os transportes moldaram minha vida. Uma verdadeira paixão.
Ao cabo de dois dias estou cansada desse mergulho profundo nas minhas memórias em tecidos, papéis e objetos. Algumas sacolas repletas de itens para doar a quem não tem e outros para vender.
Espero que os mesmos cuidados que eu tive ao longo de anos sejam transferidos para as novas donas. Eles vão com algumas lágrimas que escaparam e um toque do jazz que eu ouvi durante essa viagem ao meu passado.

