
O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas (William George Ward)
Alguns preferem vender falsas ilusões, com previsões irreais e “tic-tac” ou 72 horas para um milagre ocorrer e nos salvar. Eu prefiro sempre o realismo, ainda que sem perder a esperança. “Prepare-se para o pior, espere o melhor e receba o que vier”, diz um provérbio chinês de que gosto muito. Meu novo livro sobre meu enfrentamento de um câncer agressivo se chama Não tema a tempestade, e o subtítulo já resume bem o mindset: “Uma história de fé, resiliência e esperança”.
A palavra-chave aqui é resiliência. Eu jamais caí no autoengano. Ao contrário: preparei minha mente para a pedreira que seria o tratamento, o transplante de medula, os efeitos colaterais e os riscos envolvidos. Nunca abandonei a esperança na cura, mas estava pronto para o pior, inclusive com decisões práticas pensando no caso de não sobreviver ao tratamento. “It is what it is”, dizem os americanos realistas.
Trago essas reflexões pois tenho visto uma turma delirando diante de um vulcão em erupção. Tem gente que fala numa vitória do Flávio Bolsonaro no primeiro turno! O quão fora da realidade tem que estar o sujeito para acreditar nisso? Fingir que nada aconteceu, que as pesquisas são todas falsas e manipuladoras, que Lula não tem a menor chance, mesmo com a máquina na mão, é simplesmente se enganar. Depois a queda é ainda pior.
Alguns levantam a tese de que o clã Bolsonaro sabe que vai perder, mas insiste nessa toada para manter o controle da direita, ainda que na oposição. Confesso que cada vez mais essa tese parece verdadeira. Mas isso é patriotismo?
No Polymarket, com quase cem milhões de dólares de apostas, Lula voltou a subir e passou de 50% de chance de vitória, contra apenas 26% do Flávio. Isso é probabilidade de mercado, não pesquisa eleitoral. Para apostar nesse resultado é preciso coçar o bolso, a parte mais sensível do corpo humano. Pode haver alguma manipulação? Sempre pode, claro. Mas o eleitor vai ignorar todos os sinais, todas as pesquisas, as bolsas de apostas, e repetir por aí que “o ladrão não sobe a rampa”? O PT está no poder há 17 anos desde 2003, e tem gente que ainda subestima a esquerda!
O caso Banco Master machucou bastante a candidatura do Flávio, e negar isso é fazer como um avestruz. Sua campanha vem errando muito também, em especial na postura dos seus irmãos mais radicais, que são mestres em implodir pontes e afastar moderados. Apontar para isso não é “torcer contra”, mas ser realista e fazer análise independente. A incapacidade de muita gente da bolha bolsonarista de compreender isso em nada ajuda. Chamam de “traidores” aqueles que tentam “tocar a real”. Querem torcida militante sem qualquer respaldo nos fatos.
Eduardo Bolsonaro resolveu sugerir o nome da deputada Júlia Zanatta para vice na chapa do seu irmão. Pergunto: quantos votos ela atrai? Todos que conhecem e gostam da Júlia já votam no Flávio. No mais, o argumento para indicar a deputada é que ela seria leal ao bolsonarismo, conservadora de verdade, direita raiz sem pragmatismo. Pergunto: foi esse o critério usado pelo mesmo Eduardo na hora de indicar André do Prado, do centrão, ao Senado?
Essa incoerência tem cobrado elevado preço político. Segundo a revista Veja, Davi Alcolumbre teria recebido US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro no exterior! O PL bolsonarista defendeu o voto em Alcolumbre de olho nas comissões e na prometida anistia, que não veio. Valeu a pena? Quem não votasse em Alcolumbre era intergaláctico, lembra?
Se o bolsonarismo virou o centrão, então o discurso conservador antissistema se esvai completamente. Se o objetivo é apenas oferecer uma melhor gestão, sem qualquer enfrentamento ao sistema, então o nome de Tarcísio de Freitas seria melhor, pela menor rejeição e por não ter telhado de vidro, ao que tudo indica. Essa alternativa não está mais na mesa, porém. E Flávio segue adiante, como um pato manco, com a apreensão de todos em relação a possíveis novos escândalos.
Alguns levantam a tese de que o clã Bolsonaro sabe que vai perder, mas insiste nessa toada para manter o controle da direita, ainda que na oposição. Confesso que cada vez mais essa tese parece verdadeira. Mas isso é patriotismo? Há muito em jogo e o Brasil vai se arrebentar todo com mais quatro anos de petismo. É um cenário assustador, eu sei. Mas, infelizmente, cada vez mais provável. Apertem os cintos, cidadãos!
Fonte: Gazeta do Povo

