
Sem ufanismo e sem caça às bruxas, a leitura do jogo passa por um ponto essencial: o Brasil encontrou um adversário que não tinha a menor intenção de disputar posse de bola.
O Japão entrou em campo com uma proposta muito clara: uma linha de cinco defensores, outra de quatro meio campistas praticamente colada à defesa e apenas um atacante para incomodar a saída brasileira. Era um bloco baixíssimo, compacto, que reduzia drasticamente os espaços entre as linhas. Quando recuperava a bola, acelerava imediatamente em lançamentos longos e transições verticais, explorando a velocidade dos seus atacantes. Essa estratégia já era esperada antes da partida.
Nessas circunstâncias, é ilusório esperar que o Brasil crie dez ou quinze chances claras. Contra um 5-4-1 tão fechado, qualquer seleção do mundo encontra dificuldades. Espanha, Inglaterra, França e Argentina também sofrem quando enfrentam equipes que aceitam defender durante 90 minutos.
O mérito brasileiro foi não cair na armadilha da ansiedade. A equipe procurou circular a bola, manteve presença ofensiva e tentou abrir o campo. Faltou velocidade na troca de passes em alguns momentos e houve excesso de cruzamentos previsíveis no primeiro tempo, mas isso decorreu justamente da ausência de espaço pelo centro.
O Japão, por sua vez, executou quase perfeitamente seu plano. Defendeu com enorme disciplina e, quando escapou, levou perigo. O gol nasceu exatamente daquilo que pretendia fazer: recuperação, transição rápida e aproveitamento de um erro brasileiro. Não criou volume ofensivo; criou oportunidades cirúrgicas.
Na segunda etapa, porém, o jogo mudou. O Brasil aumentou a pressão, empurrou o adversário ainda mais para trás, colocou mais gente na área e passou a atacar pelos lados com maior intensidade. O empate veio em bola aérea, e o gol da vitória foi consequência de uma pressão contínua, já nos acréscimos.
Há, naturalmente, aspectos a corrigir. A recomposição defensiva ainda pode ser mais rápida quando perde a bola. A circulação precisa ser mais dinâmica para desmontar defesas tão fechadas. Também será necessário encontrar alternativas quando o adversário bloquear completamente o corredor central.
Mas seria injusto concluir que o Brasil jogou mal apenas porque encontrou dificuldades. O Japão talvez tenha sido uma das seleções mais organizadas taticamente desta Copa. Seu sistema defensivo exigiu paciência e maturidade emocional.
A vitória por 2 a 1 não foi brilhante, mas foi consistente. Em mata-mata, existe uma diferença importante entre jogar bonito e saber resolver problemas. O Brasil encontrou um problema complexo e, mesmo demorando mais do que gostaria, conseguiu resolvê-lo. Isso também é sinal de uma equipe competitiva.

