14 de agosto de 2026
Ligia Cruz

Vaso trincado

A família ficou de bem. E agora, para onde vai o ódio visceral e a claque detratora da moral alheia, que disse que Michelle foi corrimão na câmara dos deputados, a divorciou do capitão por machismo e imbecilidade e terá, enfim, que engolir sua presença?

O Jair deve ter dito aos marmanjos que a mulher é dele. E sua posição de líder, mesmo amordaçado, ainda conta.

Na política não há espaço para extremistas e ingênuos. E é justamente esse o ponto que deve ter sido o alvo da discussão entre Waldemar da Costa Neto e Flávio Bolsonaro nesta semana.

Ignorar que ela fala para um público importante na batalha das eleições é desinteligência. Ela cresceu politicamente durante a gestão do marido justamente por seu posicionamento religioso, sua especialidade na linguagem de sinais (libras) e sua defesa em prol de portadores de doenças raras. Tornou-se um ícone inquestionável e com um séquito fiel.

Quando se apresentava em eventos oficiais durante o governo de Jair Bolsonaro, sua marca sempre foi a da elegância e discrição. Nunca cometeu gafes e nem fez comentários inapropriados.

Jair Bolsonaro sempre se identificou como católico e pelo que parece isso nunca foi problema entre eles. Um casal não precisa mudar sua trajetória e anular escolhas pessoais por causa do outro.

Enquanto ela percorria o caminho de casa para o presídio levando marmitas, acompanhando a dolorosa peregrinação ao hospital, bancando a enfermeira e cuidando da saúde e necessidades básicas do marido, ela era santa.

Michelle foi uma das vozes fundamentais na negociação com Alexandre de Moraes para a condução do marido à prisão domiciliar. E certamente foi o que a aproximou do verdugo do STF. Uma condição necessária para manter um diálogo aberto diante da constante ameaça do retorno do ex-presidente à prisão.

Quando se tornou presidente do PL Mulher, a convite do presidente do partido, Jair a apoiou. E ela se destacou, tornando-se voz ativa das mulheres da direita e do universo evangélico.

O ponto de quebra de sua imagem pública ocorreu no evento de posse de Nunes Marques no TSE. Sua falta de experiência e malandragem política fez dela alvo da esquerda, que transformou um cumprimento malicioso de Moraes em uma saia justa.

Mamão com mel para a mídia esquerdista explorar e a direita extremista cair na cilada. A história do beijo no inimigo foi um ângulo de foto proposital, que a mídia explorou.

Do dia para a noite ela foi transformada em traidora, sócia oculta do togado, puta e outras invenções mais.

O fato mexeu com os brios e a testosterona do clã bolsonarista, inclusive dos filhos do capitão. Até chegar ao ponto de uma ruptura pública. Isso a quatro meses das eleições.

Enquanto o fato acendeu o debate público, Lula continuou roubando, entregando o país a Xi Jinping, aumentando os impostos e defendendo terroristas e amigos ditadores.

De repente, todo mundo virou juiz e especialista em conduta moral. O país está mais perto da bancarrota do que nunca, mas o que incomoda é a Michelle Bolsonaro.

O mais inacreditável é que foi sua opinião contrária ao apoio de Ciro Gomes na campanha presidencial, no Ceará, fosse levada às turras. E o motivo é pessoal. O ex-governador, esquerdista e boquirroto clássico chamou Jair Bolsonaro de assassino.
Michelle se doeu e tomou uma posição contrária radical, batendo de frente com a campanha de Flávio Bolsonaro.

A situação deveria ter sido contornada pelo senador, mais experiente. Mas não foi assim. A contenda ocorreu nos bastidores e certamente houve aspereza pelo grau de mágoa que ela manifestou quando foi às redes divulgar o fato. Erro fatal de ambos.
Político tem que ter musculatura moral para divergir, sem escalar para o plano pessoal.

Mas é a tal história, quando há mágoa é porque existe sentimento. Michelle se sentiu admoestada no seu direito de se posicionar contra e a casa caiu.

Com Jair fora do debate público para administrar o conflito, a esposa e política em ascensão ficou só para receber o apedrejamento público da direita aficionada, que interpretou tudo como traição.

Ela foi cancelada, ganhou a tarja de traidora e o clã dos filhos não a poupou e recrudesceu o debate na mídia. Em pouco tempo ela foi transformada em montrasta, cruela e piranha.

Os bolsonaristas mais radicais fizeram seu divórcio público, retirando seu sobrenome de casada e em coro com a esquerda que viu uma enorme possibilidade de plantar factoides, vingar e aliviar a péssima imagem da mulher de Lula: a Janja gastadora e perdulária da república petista.

A campanha de Flávio, no sentido de manter a imagem do macho sem respingos, inflou a discórdia ao invés de combater o incêndio. Erro estratégico brutal.

Queiram ou não, é a Michelle quem cuida de Jair, o motiva no dia a dia e é mãe da irmã deles. Um monte de motivos para Flávio contemporizar, mas deixou a história escalar. E não se trata de escolher quem é mais ou menos culpado. Mas de sensatez.

Com a debandada da ala feminina evangélica da campanha, foi preciso um malandro velho entrar em cena e apaziguar. Waldemar deveria ter intervindo bem antes, mas se atrasou. Jair teria feito o mesmo por ele.

A imagem de Michelle foi arranhada e para se abster da porradaria pública ela abriu mão da presidência do PL Mulher e de sua pré-candidatura ao senado. Refluiu para sua posição de esposa porque o clã é detrator e o machismo impera na ala direitista.

Diante disso, Flávio Bolsonaro se viu na obrigação tardia de apaziguar e pedir desculpas. Por conveniência e porque errou duas vezes: na esfera familiar e na política.

Gostem ou não da Michelle, considerem-na meretriz e traidora, nada disso é relevante. O que está acima dos brios pessoais é tirar o PT do cenário político, extirpar esse cancro da vida política e pública.

Isso é infinitamente mais importante do que a Michelle pensa de Ciro Gomes, de suas rezas fervorosas, de seu clamor religioso e até de sua chatice, para muitos.

A ficha de Flávio caiu. Entre os filhos, de fato, ele é o mais sensato, não deveria ter deixado o fato escalar. Uma mediação de conflitos teria caído bem.

Com as desculpas aceitas e a campanha em curso, o que se espera é que haja inteligência das partes para separar o público do privado e tocar a campanha sem olhar para trás. Lição aprendida, mas o vaso foi trincado.

Daqui a pouco Michelle será perdoada também pelos bolsonaristas e alas mais radicais da direita porque não se faz política com o fígado. Logo ela voltará a ser a lady gostosa que todo macho quer, porque é assim que o Brasil funciona.

Portanto, enfie a viola no saco quem não gostou da bandeira branca e cresça, porque política não é para ingênuos radicais e o Brasil precisa de comida e paz.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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