31 de agosto de 2026
Ligia Cruz

Guerra híbrida na Espanha

***Reportagem realizada a partir de um mês de acompanhamento dos eventos locais,  entrevistas e depoimentos de populares e especialistas

Depois de um mês da invasão de 72 mil indivíduos em Ceuta, como está o território autônomo da Espanha, na costa africana? A situação é grave.  É uma clara tentativa de ocupação, sem precedentes na história do país, com todos os indícios da conivência do primeiro-ministro Pedro Sánchez.

O premiê espanhol esquerdista, que tem a pretensão de chegar ao comando da União europeia, no dia seguinte da invasão fez um vídeo sobre suas preferências musicais no Spotify para curtir suas férias de verão. Se foi e até agora não voltou. Ninguém sabe dele, desapareceu.

Não é o que se espera de um líder que recebeu votos dos cidadãos, em num evento como esse, um flagrante ataque à soberania do país. Deveria cancelar as férias e assumir o comando para debelar a crise.

As evidências levam a crer que há relações promíscuas  do premiê com o rei do Marrocos Mohammed VI. Supostamente ele estaria sendo chantageado para não responder à invasão, com a guarda nacional ocupando o território em um confronto de guerra.

Para o povo espanhol o Marrocos é um inimigo e o desdém de Sánchez é uma traição. E o  rei da Espanha, Filipe VI, não pode intervir politicamente ou militarmente no caso de Ceuta,  nem mesmo derrubar o primeiro-ministro. Ele é impedido  pela constituição de 1978.  É uma mera figura ilustrativa.

E o evento poderia ser muito pior se muitos dos invasores não tivessem se afogado na travessia por mar para chegar à costa de Ceuta e se milhares não tivessem sido deportados. O contingente de ilegais seria muito maior do que a população local que é de 80 mil habitantes.

A multidão, segundo consta, foi “convocada” pelas redes sociais e deveria penetrar em Ceuta a nado porque há uma ressalva legal de que recebe asilo aquele que chega nessas condições.  Tudo orquestrado.

Ao longo de sua longa história milenar, Ceuta foi alvo de ocupações e trocas de soberania, cercos e conquistas militares importantes por pelo menos oito vezes, passando pelas mãos de fenícios, cartagineses, romanos, vândalos, bizantinos, árabes, portugueses e  por fim, espanhóis.

E porque Ceuta é tão importante? Porque é um enclave de grande importância geopolítica, um posto avançado no Mediterrâneo. É um canal de escoamento de cargas de navios que passam pelo Golfo Pérsico,  Canal de Suez e depois rumo ao Atlântico.

Os críticos que desconhecem a história dizem: “entreguem Ceuta para o Marrocos porque está em seu território”. Não é e nunca foi. Ceuta pertenceu à Portugal, foi conquistada em 1415 por D. João I,  na época da expansão ultramarina e depois,  em 1580,  passou ao comando espanhol, com a formalização da União Ibérica – quando os dois países tiveram um reino unificado. E assim permanece,  pertencendo à Espanha desde então  – o país africano nem existia como nação.

Mas o rei marroquino, Mohammed VI, que nega ter  conhecimento prévio dessa invasão em massa, também não moveu uma palha para debelar a crise migratória. Há gravações interceptadas de invasores  com recados ao rei, dizendo que “parte da obra foi concretizada”.

Não se trata portanto de uma mera crise de fronteira, mas de uma  ocupação territorial, feita por maioria masculina, ou seja “soldados marroquinos”. As poucas mulheres presentes no grupo, não se sabe se vieram com os invasores ou se são moradoras de Ceuta. Para despistar.

Muitos estão armados de facões e machetes e  também foram encontrados produtos químicos para fabricar artefatos explosivos. Eles ameaçam a população local  o tempo todo e as autoridades locais dizem que não podem fazer nada “ilegal”. Já está lá a Cruz Vermelha para dar assistência aos “refugiados”.

A Espanha não aprendeu nada com os islâmicos. Eles invadiram o país no ano 711 D.C e permaneceram por 800 anos. Foram expulsos pelos reis católicos em 1492 em sua maioria e definitivamente em 1609. Foi uma invasão dramática que culminou com a Batalha de Guadalete e a morte do rei visigodo Rodrigo. E agora a história se repete de outra forma.

Os invasores perambulam pela cidade gritando “Allahu Akbar” (Deus é o maior). Alguém duvida de que o rei marroquino está por trás da invasão?

A população ceutense ou ceutani está acuada. A grande maioria dos invasores foi deportada, mas restaram em torno de quatro mil indivíduos.

Os comércios estão fechados, devido à invasões e roubos, tudo isso em meio às férias de verão,  quando Ceuta recebe turistas. Os espaços públicos e praias estão ocupados, servindo como dormitórios e banheiros – os marroquinos  defecam por toda parte provocando um problema sanitário  grave.

Na última semana foram reportados casos de abusos e estupros. Um repórter foi questionar um desses marroquinos e ouviu dele o seguinte: “é culpa da família que deixou uma adolescente de 16 anos sair sozinha na rua”. Ou seja, eles já estão adotando suas práticas sociais e religiosas, onde a mulher só sai na companhia de um homem. Não há mais liberdade. É uma flagrante ocupação cultural também, o islamismo na prática.

A guarda civil local está sendo açodada e ao mesmo tempo abandonada pelo poder governamental. Uma policial (nome omitido por questão de segurança), deu um depoimento angustiante e corajoso a um repórter: “Estamos sozinhos. O presidente local sequer fez a contagem de quantos invasores ainda restam de fato em Ceuta. Parece até que foi aconselhado a não agir”. Mas há um pronunciamento contundente da ministra da Defesa da Espanha, Margarita Robles, de que os serviços de inteligência e o Ministério do Interior sabiam da invasão. “É terrorismo jihadista. Há agentes internacionais agindo”, disse ela. Mas o ministro acusado nega. Quem está mentindo? Pergunta uma deputada em sessão da Câmara.  Supostamente, esses agentes  invasores denunciados por Robles são do Hezbollah.

Além da falta de reação institucional,  já há vários espaços públicos, como terrenos da Defesa, estacionamento de hospital, agremiações desportivas e até praças, sendo preparados com residências improvisadas para acomodar os marroquinos remanescentes. Eles estão construindo barracos de bambu em toda praia.

A população  está revoltada e se manifestando nas ruas, confrontando o governo, porque paga impostos e está tendo seus direitos subtraídos em prol de ilegais. O grito de guerra é dirigido ao primeiro-ministro: “ Pedro Sánchez filho da p**”. É a política progressista de Pedro Sánchez,  que abraça imigrantes e despreza o próprio povo.

A população reclama a presença do rei Filipe VI, que é o comandante do exército, mas até agora ele permanece em silêncio. O rei sequer pode emitir ordens diretas para as tropas em Ceuta e nem assinar decretos de forma unilateral. Ele deve se manter estritamente neutro em disputas partidárias e crises de governo. Uma intervenção direta do rei atropelando as decisões de Sánchez sobre o Marrocos seria considerada um ato inconstitucional grave e uma quebra da ordem democrática.

Nesta semana, uma deputada do PSOE, o partido do premiê, (similar ao PT),  fez uma recomendação para que a polícia de Ceuta proteja as mulheres marroquinas de tentativas de estupro, sem citar as cidadãs ceutanis. Isso causou revolta na população.

A possibilidade de haver alguma relação promíscua do primeiro-ministro espanhol com o reino marroquino  se confirma  nos repasses de dinheiro e a promessa de centenas de milhões de euros ao país, a título de investimentos estratégicos em infraestrutura, cooperação internacional ao desenvolvimento e reforço do controle migratório.

Essas transferências ocorrem em meio a duras críticas da oposição e de entidades locais na Espanha, que acusam o governo de “financiar o vizinho” enquanto o próprio território sofre pressões fronteiriças severas.

As principais justificativas oficiais e os projetos  incluem: ajuda no desenvolvimento,  apoio ao setor hídrico e agrícola. Foram destinados 250 milhões de euros para custear a construção de uma grande usina de dessalinização no país, um projeto considerado crucial para impulsionar a agricultura local.  Além de fundos de cooperação, através da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), o governo repassou mais de 205 milhões de euros a título de assistência oficial ao desenvolvimento.

Para a infraestrutura ferroviária e modernização dos transportes foram destinados mais 755 milhões de euros. Dinheiro a perder de vista, igualzinho o PT fez em Cuba, Argentina,  Bolívia, Colômbia,  Venezuela e países africanos, em mandatos anteriores e que nunca foram pagos. Tanto lá, como cá quem paga a conta é o contribuinte.

Em suma, a Espanha pretende movimentar cerca de 45 bilhões de euros até o ano de 2050, para posicionar empresas espanholas na modernização econômica do Marrocos. Uma parcela significativa dos fundos, somada a subvenções da própria União Europeia, é entregue  ao país como “ajuda a fundo perdido” para que Rabat envie forças de segurança e contenha as redes de tráfico humano na costa norte e controle fronteiriço. Então porque não agiu até agora?

O envio dos fundos está em curso e ocorre em paralelo a crises agudas na fronteira, como essa invasão gigantesca de marroquinos – na verdade uma operação de ocupação engendrada por Marrocos.

A população espanhola questiona  o uso do dinheiro público para financiar outro país, bem como a eficácia dessas ações.  O Marrocos utiliza a guarda de fronteira de forma oportunista para pressionar Madri politicamente.

Outro fato confirma as relações promíscuas de Sánchez com o Marrocos. Begoña Gómez, sua mulher, enfrenta um processo na justiça espanhola por supostos crimes de tráfico de influência e peculato, decorrentes principalmente de suas atividades de captação de recursos em universidades e instituições em Madri, com extensão ao Marrocos. Ela e marido negam  qualquer irregularidade e apontam motivação política nas denúncias. O envolvimento  dela com redes africanas e marroquinas continua sob forte escrutínio público.

Além disso, há o crítico problema de fronteira com relação ao narcotráfico no sul da Espanha. Uma grupo de elite da Guarda Civil altamente eficaz, que vinha asfixiando financeiramente as máfias do estreito – que traficavam haxixe , cocaína e derivados para o continente – foi propositalmente desarticulada pelo governo espanhol.

Sindicatos de policiais alegam que a medida foi uma “rendição de território” de Sánchez, deixando o litoral vulnerável para a reativação massiva das rotas do narcotráfico. Tudo indica que a “generosidade” do premiê para com Mohammed VI vai além dos milhões de euros e tapinhas nas costas de um bom vizinho. Parece que há o interesse também em salvar os “amigos receptores” das drogas em território espanhol.

Os partidos de direita (como o Vox)  afirmam que Sánchez se colocou “às ordens do rei de Marrocos” e atua de maneira condescendente, permitindo que a Espanha se consolide como uma “via livre” para as drogas oriundas de cartéis da América do Sul e de máfias africanas, com destino à toda Europa. Isso torna a Espanha também em um narcoestado. E todo mundo sabe que as drogas que partem para a África, saem através do porto de Santos.

No sistema parlamentarista espanhol, quem detém o poder executivo, define a política externa, administra as fronteiras e comanda as ações da polícia e do exército é primeiro-ministro.  Pedro Sánchez manda e desmanda  especialmente com apoio dos separatistas catalães e da esquerda.

Mas há um outro imbróglio nessa crise. Quando Sánchez apoiou o Marrocos, a Argélia cortou tratados de amizade e elevou o preço do gás para os espanhóis. Os países vizinhos do Magreb são inimigos e divergem sobre a ocupação territorial, norte as África. A Argélia reclama inclusive sobre  as atrocidades que o rei marroquino comete contra o povo bérbere saaraui, na antiga possessão espanhola,  no Saara Ocidental, cujo controle é reivindicado pelo grupo independentista Frente Polisário, que representa a República Árabe Saaraui Democrática.

Para apaziguar  Sánchez foi recentemente à Argélia negociar e fazer promessas e inversões. Mas Mohammed VI não gostou. Há quem defenda a tese de que a invasão à Ceuta foi uma retaliação.

O interesse da Espanha sempre foi manter uma neutralidade morna para continuar comprando gás argelino e navegando em águas marroquinas. Mas com Sánchez no poder, as coisas se complicaram.

A grande preocupação da OTAN em relação a Ceuta não é uma invasão militar clássica com tanques marroquinos, mas sim a chamada guerra híbrida (táticas assimétricas e ocultas na  chamada zona cinzenta).

A OTAN reconhece que os fluxos migratórios massivos, como o que está ocorrendo em Ceuta,  estimulados pelas redes sociais ou pela inação de Rabat, representam uma tática de desestabilização política. Mas cabe à Espanha agir, não aos membros do tratado.

A preocupação dos outros países integrantes do bloco europeu diz respeito ao espaço Schengen. A Itália já se manifestou com críticas severas à falta de pulso da Espanha na contenção da crise, com ameaça de bloqueio em seu país, de qualquer imigrante vindo do país. Outros países podem fechar as fronteiras também.

A União Europeia, que envia recursos emergenciais de contenção e apoio por meio do Espaço Schengen, está atenta. E a OTAN só pode atuar em segundo plano, fornecendo inteligência estratégica.

Enquanto Sánchez termina suas férias em algum paraíso,  torrando euros, a OTAN envia uma mensagem clara ao Marrocos: o custo político e internacional de tentar tomar os enclaves pela força é alto demais. Com isso,  o reino alauíta  é forçado a manter o conflito no campo diplomático, com controle migratório. Mas não cumpre.

Na base de tudo,  esse é um conflito ambíguo de dupla função.  A ocupação geopolítica de Ceuta e a expansão islâmica na Espanha. A expulsão dos árabes nunca foi aceita. É claramente  uma revanche de 1492 e o sistemático intento de converter a Europa numa extensão do islã, a partir da Espanha.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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