
Na primeira terça-feira de setembro ocorreu uma verdadeira hecatombe na suprema corte. Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça quase chegaram às vias de fato. O clima entre os dois é de animosidade há tempos e agora ganhou temperatura. Dos corredores ouviram-se os berros.
O primeiro é lutador de muay thai e professor, que banca o papel de ditador. O segundo é um sujeito pacato corredor de rua, que pratica musculação e é pastor de igreja evangélica. Juízes diferentes no perfil, no propósito e no caráter: o corrupto e o moralizador.
No meio deles, está Paulo Gonet, um procurador geral de índole escorregadia, corrupta e devassa – o exemplo mais deprimente da história da República, de todos que já ocuparam o cargo.
O procurador geral deveria ser o ponto de equilíbrio da cúpula jurídica, o sujeito que deveria agir com o apuro da lei, defendendo os princípios da Constituição e os reais interesses dos cidadãos. Mas não.
Gonet lembra os piores exemplos de traidores e borra-botas da história, como o inglês Thomas Cromwell (1485–1540), para citar um exemplo estrangeiro, e o brasileiro Gregório Fortunato (1900–1962).
Thomas era o típico exemplo de puxa-saco, escalou o poder bajulando o cardeal Wolsey e, depois, o rei Henrique VIII, alimentando o ego do monarca até virar seu braço direito. E o fez tão bem, com sua péssima índole, que influenciou o monarca na sua decisão de assassinar sua esposa, por ser “livre demais” e não ter lhe dado um varão. Ele arquitetou a execução de Ana Bolena e de antigos aliados políticos, sem qualquer remorso. Sujeito frio que enriqueceu ilegalmente através da corrupção, confiscando bens de igrejas e monastérios católicos durante a reforma inglesa.
Aqui no Brasil, em termos de puxa-saquismo, ninguém superou até agora Gregório Fortunato, que ganhou a confiança cega e reforçou o superego do presidente Getúlio Vargas. Atuando como chefe da sua guarda pessoal, ele impôs sua presença, cercando o governante com cuidados, para controlar quem tinha acesso a ele. Era um sujeito de péssima índole, que ficou conhecido na história brasileira como “Anjo Negro”. Foi ele quem arquitetou o atentado da Rua Tonelero contra o jornalista Carlos Lacerda, opositor do regime, gerando uma crise política que culminou no suicídio de Vargas em 1954.
Fortunato, nada diferente dos puxa-sacos corruptos, acumulou uma fortuna inexplicável para o cargo, cobrando propinas para facilitar negócios no Palácio do Catete, além de praticar agiotagem e extorsão.
Então, dá para constatar que históricos de corrupção e jogos escusos vêm de longe. Associar o que está acontecendo no cenário de hoje com os perfis do inglês e do “anjo negro” é factível pela semelhança dos tipos que circundam o poder republicano atual.
É possível preencher uma lista de nomes afeitos aos convescotes, puxa-saquismo, se rebaixando a reles servidores públicos que têm preço e não valem o que os gatos enterram. Paulo Gonet é um típico exemplo.
No dia seguinte à bomba que André Mendonça jogou no colo de Edson Fachin, presidente do STF, (todo o relatório do vínculo entre Vorcaro e Moraes), o que se viu foi um ensaio para minimizar os crimes apontados na apuração, com as evidências cabais contra Alexandre de Moraes.
O juiz gaúcho suavizou com sua fala mansa, dizendo que vai apurar e agir com cautela, diante das provas. Que ninguém se engane, é mais um comunista, defensor do MST e do PT no poder. Chegou ao STF nomeado por Dilma Rousseff.
O papo de que ele vai elaborar um código de conduta na suprema corte, é só para desviar o foco, em um momento em que o pior escândalo da República explode no salão onde a Constituição deveria ser o único propósito.
A discussão ríspida entre Moraes e Mendonça só aconteceu porque o juiz relator do caso do Banco Master abriu o metadados do celular de Daniel Vorcaro, contendo todas as conversas e relações promíscuas entre o banqueiro e o juiz implacável, contra os inocentes do 8 de janeiro.
Toda podridão veio à tona. E Mendonça, após avaliar todo o conteúdo das gravações, decidiu torná-lo público, com as mensagens trocadas e concluiu que todo o regramento da casa foi quebrado, com o envolvimento de um juiz da suprema corte implicado com crimes de enriquecimento ilícito, corrupção passiva e prática de advocacia, proibida para qualquer juiz, em especial a quem atua na suprema corte.
Moraes passava informações privilegiadas para Vorcaro e liderava triangulações com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o comandante da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o Procurador Geral da República, Paulo Gonet. O capo di tutti capi – bem ao estilo máfia.
Andrei Rodrigues mandou um recado direto à Mendonça: “o troco não vai tardar”. Isso é uma evidente ameaça de morte.
Talvez por isso, até mesmo nos corredores do STF, o juiz relator da operação “Compliance zero”, está usando colete à prova de balas. Ele sabe que meteu a mão num grande vespeiro, que pode custar sua vida.
Daniel Vorcaro, mafioso, responsável pelo maior esquema de fraude do país, tem conexões com milicianos, matador de aluguel e com líderes do jogo do bicho. É um risco em potencial, por isso está preso. E é com esse tipo de gente que Moraes, Andrei e Gonet estão metidos.
O intuito de Mendonça de entregar os relatórios a Fachin é para que ele leve o conteúdo ao plenário e abra um inquérito de investigação contra Moraes. O presidente do STF não pode agir com complacência, em tese. Trata-se de funcionários públicos envolvidos em crimes sem precedentes no país. Amarelar para salvar os coleguinhas será seu fracasso moral.
Os desdobramentos trazem uma grave crise institucional para o país. O imbróglio é uma ópera com personagens dissonantes, para lá de suspeitos, porque são aliados de Moraes. E devem estar nos bastidores ensaiando uma cortina de fumaça para defender o indefensável. As provas são inequívocas. Luiz Fux foi visionário, pulou do barco no momento certo.
Em um país sério o juiz corrupto já seria réu, pelos crimes praticados e poderia até receber voz de prisão, junto com os demais envolvidos. Mas aqui é Brasil.
Dias Toffoli está metido do chulé às caspas com Vorcaro e Moraes. O Resort Tayayá tem o DNA e o dinheiro sujo do banqueiro no meio. Resta saber se vai cair fora, declarando seu impedimento. E deveria enfrentar igual caminho. Dino é mais um estafeta do sistema podre, que vota contra qualquer iniciativa de investigação anticorrupção. Ele vai votar contra para livrar o colega de um possível impeachment. Bem como Zanin, o novato advogado de Lula.
Gilmar Mendes, o decano, é uma figura funesta, involucrada até o poros com o que há de pior em termos de tráfico de influência e enriquecimento ilícito, ao longo de anos. Até agora ninguém o pegou com provas, embora esteja metido em todas as frentes de negociatas.
Carmem Lúcia é a“ maria vai com os outros”, que já se provou influenciável e nada mais se pode dizer a seu favor. “O cala boca já morreu”, ficou plasmado na sua biografia. Restam Nunes Marques e Luiz Fux que, em tese, não se oporão à abertura de um inquérito contra Moraes.
O aprofundamento das apurações sigilosas, sobre a trama de tráfico de influência e enriquecimento ilícito de figuras públicas e palacianas pode ampliar ainda mais o rol de nomes e extrapolar para a esfera civil. Viviane Barci, esposa de Moraes é a mão que assina os contratos e negociatas do marido.
De acordo com os registros de metadados recuperados no celular do banqueiro, o fluxo de mensagens seguiu um cronograma.
Daniel Vorcaro redigiu a primeira nota em seu aparelho e gerou o print contendo as preocupações sobre a fiscalização do Banco Central. O arquivo em visualização única foi enviado ao contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Ocorre que o envio da imagem continha uma pergunta explícita sobre a tentativa de “bloquear” o avanço das medidas cautelares da PF.
Os relatórios técnicos indicam que o arquivo temporário foi aberto no destino, em agosto de 2026 . Ou seja, foi detectada a última modificação no arquivo digital do contrato de prestação de serviços advocatícios.
Os metadados registraram ainda o usuário “Ministro Alexandre de Moraes”, salvando a versão final do documento exatamente no mesmo horário, poucas horas antes do início da operação policial na manhã seguinte.
Os advogados do ex-banqueiro emitiram uma nota oficial logo após o levantamento do sigilo determinado por André Mendonça. A estratégia jurídica deles baseia-se na nulidade das provas.
A defesa alega ainda que a extração de dados temporários e metadados de mensagens de visualização única violou as garantias de privacidade do cliente. Eles pretendem questionar a legalidade da perícia técnica da PF no STF. Os advogados sustentam também que o nome salvo na agenda do celular (“Alexandre de Moraes BRASILIA”) não prova que o número pertencia ao ministro ou que as mensagens foram de fato lidas por ele.
Quanto aos documentos editados, a assessoria jurídica do Banco Master afirmou que o contrato com o escritório de Viviane Barci de Moraes reflete uma prestação de serviços legítima, com honorários declarados e compatíveis com os valores de mercado. Só que nenhum escritório de advocacia do país tem um contrato de R$ 129 milhões com qualquer cliente.
O passo seguinte aponta para o senado, na continuidade dos eventos, pois é o único órgão brasileiro com poder de processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade (abuso de poder, descumprimento da lei ou conduta incompatível com o cargo). Caberia portanto a David Alcolumbre acatar um possível pedido de impeachment de Moraes.
Porém, o presidente do Senado está totalmente entranhado no caso, mantendo relações próximas, encontros e festejos com o juiz. Tudo indica que Moraes tenha um dossiê de seu envolvimento com ilícitos em seu estado. Prática usual dele. Mas isso é especulação.
Contudo, sua resposta à uma provocação da imprensa nesta semana diz tudo sobre seu ânimo: “absurdo mais 100 pedidos de impeachment contra uma pessoa”.
Tudo indica que uma grande pizza está pronta para ir ao forno. Não estranharia se a maioria do STF decidir arquivar o processo de forma monocrática, com base nas nulidades apresentadas por Paulo Gonet (que deveria se considerar impedido dado o seu envolvimento com Vorcaro).
Então, resta saber como fica André Mendonça, que se debruçou com tecnicidade sobre as investigações e conhece as implicações e envolvimento de Moraes com Vorcaro. É uma situação de risco.
Ministros alinhados a Alexandre de Moraes manifestaram forte contrariedade com a postura de André Mendonça. Eles reservadamente criticaram o colega por ter conduzido e aprofundado as apurações sigilosas da Polícia Federal, sem compartilhar as informações previamente com a presidência da corte, classificando a decisão de levantar o sigilo como uma “linha vermelha” .
Já a ala pró-Mendonça defende a conduta do relator, argumentando que, diante da gravidade dos metadados e relatórios técnicos apresentados pela PF, Mendonça não tinha outra alternativa legal a não ser dar andamento oficial ao caso e enviá-lo à PGR, sob o risco de prevaricação.
O fato é que nada será como antes. A confiança na corte foi rompida e a imagem perante a opinião pública maculada, tal como estão as presidências da Câmara e do Senado.
Não importa o desfecho porque sabe-se que todo o sistema está aparelhado. A verdade é que essa bomba atômica vai estourar nas eleições do mês que vem. Cabe ao eleitor dar a resposta nas urnas à toda essa podridão e começar a faxina na base política do país, que vai definir os rumos para preservar a democracia.

