
No exercício da profissão de jornalista passei por muitos desafios. Escolhi a área técnica porque sempre me vi simplificando o que era difícil para os outros. E fui para o segmento de transportes, onde dominavam as cuecas.
Agarrei uma oportunidade que eu conquistei, não me foi dada. E logo vi que poderia me aprofundar para além do que imaginava, um elenco de modais. Um universo magnífico que fazia a economia girar e tudo acontecer. Movimento.
A revista tinha redação praticamente masculina, mas eu conquistei meu espaço. Com o tempo fui agregando conhecimentos, no transporte rodoviário de cargas e de passageiros, ferroviário, marítimo e hidroviário, autopeças. A logística e a política setorial estavam no cerne de tudo sempre. Aprendi muito no segmento de revistas especializadas.
Migrei para outros veículos, cobri eventos da indústria, visitei e acompanhei processos de fabricação em montadoras aqui e no exterior. Participei de feiras nacionais e internacionais.
Nem sei dizer quantas transportadoras, fábricas e indústrias visitei. Conheci donos de negócios, presidentes, Ceos e técnicos de todas as especialidades. Tive até uma passagem rápida pelo setor náutico.
Nas frestas de um trabalho intenso e dedicado eu fazia freelancer sempre que aparecia, até mesmo para outros setores da economia. Escrevi sobre café, leite, coelho, cana, cavalo e celebridades. Fiz tradução de enciclopédia e até dei palestras.
A experiência mais enriquecedora e fascinante de minha jornada profissional foi na aviação. Entrei na extinta VASP, já na gestão privada, para cumprir meia jornada na assessoria de imprensa.
Após anos e muitos desdobramentos internos acabei assumindo o departamento, em parceria com mais dois colegas, a maioria com perfil mais político, sendo eu a única técnica e responsável pela maioria dos textos e informação para a imprensa. Eu dominava a informação, era minha responsabilidade.
Devido ao meu perfil investigador conheci os departamentos da empresa por dentro, a operação, a manutenção das aeronaves, os aeroportos, as bases regionais e as mídias locais. A aviação é um mundo à parte.
Cheguei na empresa em um momento de expansão nacional e internacional. Vivi o seu apogeu e anos depois o seu declínio.
Na fase mais crítica, quando as aeronaves ficavam no chão por falta de combustível ou eram arrestadas por atraso de pagamento de taxas aeroportuárias e outras condicionantes, eu trabalhava de 12 a 14 horas por dia, atendendo os colegas das redações sempre com muito respeito.
A necessidade fez de mim uma especialista autodidata de administração de crise. Paralelamente eu respondia às reclamações de passageiros na mídia e os defendia dentro de um comitê multisetorial de atendimento ao cliente. Bem como era também a representante da imprensa no comitê de crise da empresa. Meu foco era ter a informação com precisão para divulgar o que fosse mais adequado, para minimizar desgastes de imagem da companhia na imprensa. Eu evitava muitas vezes que os clientes descontentes fossem para os jornais reclamar. Nem sempre eu conseguia, mas lutei bravamente nesse campo.
Em dado momento percebi que tinha me apaixonado pela empresa e sua história, tinha ficado por tempo demais.
Era em minha sala que ficava todo o acervo de imagens e muitos documentos históricos da empresa. Eu administrava e zelava por eles. Ninguém se importava, por isso assumi. Não era minha responsabilidade mas o fiz. Sempre fui apaixonada por história.
Depois que saí da empresa, minha ex-sala foi invadida e tudo foi roubado. Hoje está nas mãos de colecionadores e – pasmem – até de posse de advogados de ex-funcionários.
Eu sabia que seria das últimas a pular do barco porque minha lealdade sempre esteve acima de tudo até mesmo do dono, que levou a empresa à bancarrota por má gestão. Ficamos eu e o Mário Galvão, egresso da Embraer e meu professor da universidade, já falecido. Até o fim.
Eu poderia falar de tantas coisas: das noites sem dormir, da insônia crônica que adquiri, da tristeza infinita de participar do ocaso de uma empresa que interiorizou a economia do país por mais de 70 anos. Que participou do crescimento do estado de São Paulo, que aproximou o interior do agronegócio à capital e ao porto de Santos.
Eu me entristecia profundamente, enquanto recordava de todas as experiências magníficas que vivi, das feiras de turismo, das viagens na cabine com os pilotos, dos amigos que fiz, relações que mantenho até hoje com muito carinho.
Ninguém entende o amor azul vaspiano – só quem viveu. É o sorriso e o abraço que trocamos quando nos encontramos. É uma irmandade que se mantém unida até hoje.
Depois de nove anos na VASP veio um cansaço extremo e a depressão. Sou uma das “viúvas” da empresa, que não recebeu um tostão sequer, apesar de ter um processo trabalhista ganho há 25 anos. Valor que faria a diferença na minha qualidade de vida.
Quem nos vê nas redes imagina uma vida fácil, de alguém que nasceu para escrever sobre todas as coisas, como quem sorri. Mas não é assim.
O jornalismo não é uma profissão para quem não tem tutano, firmeza, imparcialidade e respeito pela notícia. É para pessoas de fibra. Não falo dos que se tornam um produto à venda, mas dos independentes, profissionais de fato.
O retorno às revistas especializadas era o caminho mais próximo. A logística e o transporte de cargas voltaram à minha realidade. Mas eu estava cansada, principalmente da política das redações.
Assessorei empresas, fiz campanha política, por tempo suficiente para saber que se o candidato não ganha não te paga.
Hoje, depois de tanta experiência me vejo como um grande potencial desperdiçado pelo etarismo e o preconceito imbecil do mercado.
O que tem me causado decepção é ver um mar infinito de despreparados, gente que não sabe se comunicar. E que não contrata quem sabe. Principalmente na política. Ninguém contrata administradores de crises, mediadores de conflitos e bons gestores de notícias.
Tudo o que está acontecendo no país começa com uma comunicação incompetente e rasa e termina em quebra-pau, com conflitos expostos, fofocas, falta de educação primária e respeito.
À essa altura da vida, uma pessoa pragmática e cartesiana como eu tem pouco espaço onde domina a ode ao puxa-saquismo, a beligerância e a destruição da imagem pública das pessoas – coisa que aprendi à duras penas não confundir. A VASP era uma coisa, Wagner Canhedo outra. O êxito e o perdulário corrupto.
Nunca expressei isso publicamente e nem nos bastidores enquanto estava no meu posto de assessora de imprensa, porque sempre há ouvidos fortuitos por perto.
Identifiquei com observação que boa parte das crises de comunicação da empresa ocorria nos balcões de café e atendimento, onde comissários e atendentes comentavam as mazelas da companhia, inadvertidamente, sem se importar com terceiros. E, obviamente, quem ouvia geralmente eram funcionários de congêneres que levavam as informações para suas gerências e logo estavam na mídia. Foi muito fogo amigo. Mas não é a censura que muda isso, é a educação.
Enquanto os 50 tons de cinza da direita se batem nas mídias por razões semelhantes, a esquerda ri, sem esforço para mover a boca.
É uma pena que o Brasil só dê oportunidades para medíocres e quem não tem envergadura moral. Até tudo mudar vai levar muito tempo. Tem que desatar essa sangria toda até acabar.

