
Então quer dizer que o fato de a cubana Zoe Martínez ter enriquecido acima do previsível, antes de terminar o mandato assusta a ala conservadora?
Oras, isso surpreende por quê? A direita tem o dom de mistificar todo aquele que se lança num discurso antiesquerda. É muita ingenuidade.
Ela nunca escondeu que tinha aspirações políticas enquanto atuava como influenciadora digital. E construiu seu perfil metodicamente, através de seu discurso forte contra o regime de Fidel, de onde é egressa, com esse objetivo.
Zoe começou sua trajetória ao gravar vídeos na internet, compartilhando sua visão e experiências pessoais sobre as realidades socioeconômicas de Cuba, mesmo não tendo vivido por muito tempo as agruras daquele regime, pois migrou para o Brasil aos 12 anos, onde seus pais já viviam há alguns anos, com o propósito de retirar a família daquele país.
O fato é que ela cresceu com esse perfil, criou a persona anticomunista, seguiu firme nesse propósito e caiu no gosto da direita. Preparou-se, cursou a faculdade de Direito e ganhou musculatura anti progressista.
Suas críticas contundentes à esquerda e ao comunismo a alçaram rapidamente ao mundo político, com militância no flanco conservador. Em pouco tempo, ela conquistou a simpatia do público e ultrapassou a marca de um milhão de seguidores em suas redes sociais.
O engajamento digital acelerou sua entrada no mercado de comunicação e nos bastidores do poder legislativo.
Devido aos seus posicionamentos antiesquerda e experiência nas redes sociais, atraiu a atenção da deputada federal Bia Kicis (PL-DF), que abriu caminho para ela na sua assessoria parlamentar, no congresso, em Brasília.
Em 2022, período das campanhas presidenciais, Zoe foi convidada a integrar a bancada de comentaristas de TV, na Jovem Pan, destacando-se como ferrenha debatedora contra a esquerda. Porém, devido à política editorial da emissora, em 2023 ela foi desligada.
No entanto, sua aparição na mídia permitiu que construísse uma carreira meteórica, tornando-a uma pessoa pública e pavimentando seu ingresso na política.
Em 2025, Zoe se lançou como vereadora na Câmara Municipal de São Paulo, pelo PL, com apoio de Valdemar da Costa Neto, o dono do partido, e venceu com 60.272 votos.
Mas toda celeuma criada em torno de sua figura e atuação na mídia, não foi seu crescimento meteórico nas redes, mas sua guinada financeira.
Em um pouco mais de um ano de mandato como vereadora da cidade de São Paulo, seu patrimônio triplicou, saltando de R$ 646 mil para R$ 2,1 milhões (um aumento de 226%).
Essa informação não foi fruto de uma denúncia da esquerda, mas de sua própria informação à Justiça Eleitoral, por conta de sua decisão de concorrer ao cargo de deputada federal no pleito deste ano. Mas os números chocaram a ala direitista e rendeu questionamentos na própria Câmara, de como ela obteve esse crescimento patrimonial tão surpreendente em pouco tempo.
Se isso não for ilícito, Zoe se torna a mais brilhante economista, especializada em crescimento patrimonial, para quem ganha um salário de R$ 26 mil por mês, na Câmara paulista. A menos que consiga justificar a cifra com outros negócios. Mas não o fez até então.
Quem se torna figura pública, através de votos tem o dever de agir com lisura e fornecer informações. Mas está calada até então.
Em um breve levantamento de sua atuação, constam dezenas de proposituras registradas em seu mandato, com destaque para o PL 42/2025 sobre uma Bolsa Atleta surdo olímpico e o PL 393/2025 voltado à assessoria jurídica para policiais municipais.
Não mais que isso se destaca.
Outra questão em desacordo é que Zoe não vai cumprir seu mandato de vereadora. Ela foi eleita e tornou-se a primeira parlamentar nascida em Cuba a assumir uma cadeira na casa legislativa paulistana, para o mandato iniciado em janeiro de 2025. Suas principais bandeiras foram voltadas à segurança pública armada, patriotismo escolar e educação cívica. Mas não vai cumprir essa pauta.
Sequer esquentou o posto. Usou a confiança popular como trampolim e já vai sair para chegar ao congresso nacional, em Brasília.
Segundo consta, esse lançamento de candidatura como deputada federal tem o aval de Valdemar, do PL. Ou seja, ela brinda com o dono do partido mas não com o povo que a elegeu. Oportunista? O eleitor vai julgar.
Na verdade, essa é uma prática comum no meio político brasileiro, que a cubana aprendeu bem rápido – e que se danem os eleitores, que apostaram nela para garantir a propositura de bons projetos e a vigilância de práticas mais justas na Câmara de Vereadores, onde recebe seu salário pago com dinheiro público.
Por fim, Zoe Martínez sequer vai esquentar seu assento na vereança até o fim do período. Vai se licenciar antes, por nove dias em setembro próximo – quase às vésperas das eleições – junto com o também vereador Rubinho Nunes (Podemos), Silvia Ferraro (PSOL) e Gabriel Abreu (Podemos), para realizar uma viagem à Nova Iorque, sem uma justificativa de fato convincente e que beneficie o município.
O requerimento da viagem a quatro foi feito para ir com recursos públicos e colocado para votação na mesa diretora da Câmara, por Zoe, sob o pretexto de “interesse de sua pasta”, a qual é presidente na comissão de relações internacionais da casa.
O fato acendeu uma calorosa discussão com a também vereadora Janaina Paschoal (PP), que se opôs ao fato de os colegas visitarem a Times Square, em Nova Iorque, com despesas pagas pela Câmara Municipal. Foi um quebra-pau vergonhoso, com fogo amigo direto no alvo.
Por fim Zoe e Rubinho alegaram que farão a viagem com recursos próprios. Ou seja, se fosse trabalho de fato ela não se renderia. Não se impôs.
O objetivo alegado seria o de conhecer as “experiências urbanísticas” da Times Square, conhecidas como referências mundiais. O que poderíamos facilmente chamar de pauta chinfrim ou um clássico papo furado. A atenta Janaína venceu. Quanto às outras duas vereadoras, não se sabe.
A vereadora protagonizou outras contendas nesses pouco mais de um ano frente ao seu mandato, que vão além de seu questionado crescimento patrimonial.
Contra ela pesa também um processo, onde responde a um inquérito por injúria e representações por quebra de decoro na Corregedoria da Câmara. Os principais casos envolvem uma crise em seu próprio gabinete, neste mês agosto, cuja controvérsia recente envolve os dados declarados por ela à Justiça Eleitoral.
O fato levou a demissão na equipe, dois dias após a divulgação pública dos valores patrimoniais. O seu chefe de gabinete (Lucas Silveira) e a coordenadora da equipe (Giovanna Najar) deixaram seus cargos. As exonerações foram oficializadas no Diário Oficial do município. Os motivos não foram aclarados.
Há também um inquérito policial, solicitado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), por ofensa a grevistas e prática de crime de injúria, em maio de 2025.
Durante uma manifestação, Zoe gravou um vídeo chamando os trabalhadores em greve de “vagabundos”. A denúncia partiu de entidades e parlamentares ligados à área da educação. Ela alegou publicamente que sua fala não se referia aos servidores públicos municipais e que, no momento em que gravou o vídeo, não era possível identificar qual era a pauta exata da manifestação. Pura falta de experiência política e tato.
Há ainda representações na Corregedoria da Câmara devido à conduta de Zoe Martínez, em relação à embates diretos com outras parlamentares. Como a briga com Amanda Vettorazzo (União Brasil), em setembro de 2025, quando ambas trocaram ofensas pesadas nas redes sociais, envolvendo acusações mútuas de xenofobia e machismo após divergências sobre a PEC da Blindagem. Enfim, ela veio para causar, embora não se discuta aqui as razões, mas os métodos.
Ninguém pode reclamar do fato de que ela ou qualquer um pretenda evoluir politicamente e financeiramente, mas, convenhamos, é questionável do ponto de vista ético e numérico. Nesse aspecto, Zoe Martínez errou.
O eleitor paulistano merece respeito e ela o desdenhou. Usou a votação expressiva como trampolim para suas ambições políticas. Ou seja, mais do mesmo.

