27 de junho de 2026
Ligia Cruz

Fogo amigo

Esquerda para quê? Logo que acontece alguma divergência ou fato dissonante entre nomes de seus quadros a direita corre para fazer suas vítimas.

É como se todo conservador tivesse um carimbo de reserva moral, que não admite qualquer discordância e tem o direito de defenestrar quem diverge. É o que temos visto nas redes.

Não é de hoje que figuras desse flanco são atacadas por lideranças e adeptos de direita por pura implicância,  cegueira estratégica e até desrespeito.

Aconteceu com Nikolas Ferreira, Marcos Pontes  Bia Kicis e qualquer um que não reze a cartilha do clã bolsonarista.  Diga-se, os filhos. Só eles e mais ninguém têm direito a figurar na constelação de prepostos governantes do país.  E não se trata de detratar  este ou aquele, mas de respeitar qualquer brasileiro que pretenda se postular a um cargo político de relevância.

Mas na globosfera da direita não é assim que a banda toca. Há divisões internas radicais e moderadas  e muita infantilidade.

Não há no Brasil regime monárquico, dinastia, império ou qualquer coisa que o valha. Se assim fosse, D. Bertrand de Orléans e Bragança ou mesmo seu sobrinho Luis Phillipe de Orléans e Bragança (PL) seriam os herdeiros naturais. Portanto, não existe isso de que só o clã bolsonarista pode postular-se à presidência e de que as opiniões de seus integrantes não podem ser contestadas.

O fato é que o radicalismo incomoda e faz vítimas em momento impróprio. E lá vai toda a esquerda para a arquibancada com seus saquinhos de pipoca para assistir ao espetáculo que eles não fazem com os seus. E vamos falar a verdade: brasileiro não gosta dessa  postura barraqueira por parte de seus representantes. Isso é desnecessário.

As críticas e os ataques de setores da direita à Michelle Bolsonaro nesta semana tratam justamente disso. E ocorrem principalmente devido à disputa interna pelo protagonismo e controle do espólio político do bolsonarismo nas eleições de 2026.

O conflito ganhou força nos últimos meses e a origem das estocadas em sua maioria vêm da própria família e de seus prepostos e é o que azeita a máquina das discórdias.

Pelo que parece a madrasta não parece ser tão bem aceita pelos marmanjos do clã, em que pese ela ter apoiado Eduardo Bolsonaro no seu exílio, tanto quanto a Flávio, na sua pré-candidatura à presidência.

Mas a recíproca não é verdadeira e isso está claríssimo e saindo da esfera privada para a pública, como não deveria.

Na posse do ministro  Nunes Marques, Alexandre de Moraes abordou Michelle e desferiu-lhe um beijo na face, o que foi correspondido a contragosto conforme se viu nas imagens divulgadas. A torcida de direita veio abaixo e a lady, em questão de segundos, perdeu o reinado. A direita extremada não raciocina, põe a bílis à frente.

Nenhum dos filhos se posicionou diretamente diante do fato, mas a constelação do entorno fez o serviço. O fogo amigo e a claque bolsonarista país afora a julgou e executou. Houve até mesmo ofensas grotescas à sua moral e o uso do termo “prostituta”, repetido agora novamente nessa contenda com Flávio Bolsonaro.

Assédio,  machismo tudo isso compõe o caldo denso que a ex-primeira-dama enfrenta por parte da direita e até dos filhos de Jair. Isso é bastante comum de ocorrer sempre que mulheres se destacam neste país, em qualquer posto de comando e organização. Está embutido na estrutura social como normal.  E não adianta dizer que isso não existe. O que vem primeiro é a ofensa à sua honra e não parte somente de homens,  mas de mulheres também.

Neste caso em específico o objetivo, pelo que parece, é o de domar o ímpeto e a independência de Michelle com relação às suas opiniões políticas e apenas absorver seu capital político.  Assim deram-lhe um cargo na presidência do PL Mulheres e que se contente com isso.

O fato é que Michelle está aprendendo à duras penas o que é levar Bolsonaro no nome. E ela, apesar de iniciante na matéria ainda, não é tão mansa quanto parece. Tem posições firmes e as defende ainda que lhe rendam embates com a ala mais extremista da direita e com os enteados. Foi o que aconteceu agora com o seu entrevero com o número 1, Flávio Bolsonaro.

Ela surgiu na mídia tornando público seu conflito, dizendo ter sido humilhada e constrangida por ele, no episódio em que ela se colocou contra eventual apoio político de Ciro Gomes. Ela já disse com todas as letras que não tem como apoiar alguém que chamou seu marido de assassino. Não é retórica, mas fato.

Não dá para duvidar de que houve “apenas” uma desinteligência entre ela e Flávio.  O tom e as palavras usadas no diálogo, conforme ele disse em sua versão,  parecem ter sido “amenos”, mas ela reagiu com os hormônios –  como dizem os homens quando mulheres elevam a voz.  Mas certamente não foi isso.

Pelo que se supõe, deve ter havido algo parecido como “você não entende nada de política é inexperiente”. Isso já basta para qualquer mulher que esteja despontando num mundo ao qual não pertence, desmotivador, ainda mais quando há uma razão imperativa. Um banho de água fria.

Ocorre que o falastrão do Ceará ofendeu  Jair Bolsonaro e isso por si só já é motivo para inviabilizar uma possível aliança regional, segundo ela.

Ela está errada? Não, para qualquer purista de alma. Mas no grande jogo do poder um indivíduo que tenha um capital político e o agregue, pode fazer a diferença nas urnas e é bem-vindo. É engolir o sapo e digerí-lo sem reclamar.

Todo mundo conhece a fama de pistoleiro de Ciro Gomes. Mas Michelle não quer saber e usou sua voz no partido para rechaçar a ideia.

As divergências estratégicas, tensões familiares só estão acontecendo porque Jair Bolsonaro não está  em condições de administrar as contendas. Tiraram sua voz. Uma óbvia falta de liderança e uma sanha vingativa de membros da própria família, vinda especialmente dos EUA.  Dá para aliar-se ao inimigo, mas não para ouvir o que a madrasta e líder partidária tem a dizer? Incongruente.

O racha familiar também possui raízes e divergências sobre as estratégias do PL nos estados. Mas não dá para negar o crescimento de Michelle no eleitorado feminino e evangélico, o que a coloca como candidata natural, seja para o senado ou até mesmo como opção competitiva para compor uma chapa presidencial, como apontam analistas políticos que gostam que ver o parquinho queimar.

Como era de se esperar, a militância digital e influenciadores conservadores passaram a criticar publicamente a postura e o timing político da ex-primeira-dama.

O cenário de ataques internos ficou tão evidente e agressivo que o próprio Jair Bolsonaro, se pudesse se manifestar,  como o fez Lula enquanto esteve preso na PF de Curitiba,  colocaria um fim na confusão com dois palitos.

Óbvio que seria mais conveniente um quebra-pau nos bastidores, sem essa exposição pública  dos desgastes familiares. Mas pelo jeito a ex-primeira-dama se cansou, jogou as pérolas e rasgou o verbo. Surtou. Ela mostrou que não é só apenas esposa e enfermeira, mas uma combatente na trincheira com direito de se indignar. Faltou a ela uma superfície cascuda que só os velhacos da política tem, para administrar a crise com picardia.

Não é de hoje que deveria ser contratada uma equipe de administração de crise para trabalhar com os envolvidos todos os aspectos e amansar os ímpetos, antes que impactem as campanhas.

Michelle Bolsonaro, se sair para concorrer vaga no senado, terá como concorrentes  Ibaneis Rocha (MDB), ex-governador do Distrito Federal; Bia Kicis (PL), deputada federal; Érika Kokay (PT), deputada federal; Leila Barros (PDT), senadora em exercício, buscando a reeleição; José Antônio Reguffe (Solidariedade), ex-senador; e Sebastião Coelho (Novo), ex-desembargador. Ou seja, são muitos nomes para apenas duas vagas.

Se a direita não amadurecer e entender que o inimigo é um só, fatalmente, estará munindo o real inimigo, que não tem quadros e sequer propostas para tirar o país da crise. Briguem nos bastidores, mas sorriam em público, por favor.

Ligia Maria Cruz

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

Jornalista, editora e assessora de imprensa. Especializada em transporte, logística e administração de crises na comunicação.

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