28 de julho de 2026
Adriano de Aquino

Não é normal

Não é saudável para a vida social, para o pensamento sobre o país e para cultura geral o que constato em conversas presenciais com pessoas que conheço de longa data. Quando a conversa se desenvolve sobre o ‘caminho percorrido’ pelo Brasil e as consequências impostas após os escândalos bilionários do mensalão (2005) e Petrolão (2014) surgem em meio ao papo, me impressiono com a displicência com que alguns indivíduos tratam o assunto. A tendência majoritária é dizer que a ‘corrupção sistêmica’ não é um sintoma exclusivo do PT, ela é unanimidade nacional. Parece mensagem de conduta natural onde assume-se a impotência geral e irrestrita de reverter-se o destino.

Não é incomum, tornou-se uma banalidade ver que esse assunto torna a conversa desagradável, algo que muitas pessoas não querem tocar.

Por quê? Será porque essa alienação sugere um tipo de irresponsabilidade social que se prefere não assumir, ou porque, ao deletar esses fatos, permite-se votar “de novo” no mesmo fenômeno político que desencadeou a crise institucional que se estende até os dias de hoje?

Esses fatores confirmam a validade da citação de que a ”democracia relativa” não é apenas ideia de um aloprado. No partido e seus seguidores ela é pratica usual.

Alguém lembra de um membro do PT ou dos partidos satélites que contrariou as diretrizes do ‘dono/caudilho’ do partido e depois ser mantido na legenda?

Só lembro daqueles que criticaram o centralismo partidário e foram não apenas defenestrados, foram enxovalhados publicamente.

A pergunta que esses fatos levantam é porque em sociedades onde a democracia é uma realidade, a diversidade cultural é um dado concreto e a polifonia de ideias uma garantia consolidada, os debates públicos são mais abertos e as divergências internas uma razão de ser da política?

Hoje, no Brasil , não há resposta possível a essa pergunta. Censura seletiva e patrulhamento ideológico estão por todo lado. Na conversa de botequim, jornais e TVs.

Em outros países, como a sociedade se manifesta diante de algo imponderável?

Não muito longe, em 2024, um pronunciamento de Bill Clinton, em apoio à campanha de Kamala Harris é um bom exemplo.
Sua fala causou uma forte divisão e reações negativas internas no Partido Democrata.

O discurso de Clinton aconteceu numa região crucial para a eleição de Harris, devido à sua grande população de norte americanos árabes/muçulmanos. As declarações do ex-presidente geraram atritos significativos entre diferentes alas do partido e grupos de eleitores da base local.

Líderes locais consideraram as falas de Clinton “insultuosas” e “contraproducentes”.

O que provocou tremenda reação?

Ao longo da sua fala, Clinton aplicou uma frase que teve efeito mais explosivo do que mísseis terroristas : O Hamas “força Israel a matar civis” para se defender.

O prefeito de Dearborn (Michigan), Abdullah Hammoud, entrou em modo crítico ao partido. Pediu formalmente aos democratas que parassem de enviar representantes à sua região que não respeitassem a comunidade.

A declaração de Clinton acabou por ampliar o desgaste partidário porque levou milhares de eleitores a refletir sobre um assunto que a campanha eleitoral escamoteava: A comunidade norte-americana árabe muçulmana se identifica com o Hamas?

Aturdidos com a perspectiva da fala Clinton expandir reflexões para além da região sobre um assunto critico, os democratas tentaram apagar o incêndio. Tentativa inútil.

Clinton não parou aí. Criticou os jovens eleitores de esquerda que simpatizam com a causa palestina. Ele argumentou que essa geração relativiza o histórico de propostas de paz rejeitadas pelas lideranças palestinas no passado, como as elaboradas em Camp David no ano 2000.

A ala progressista do partido entrou em pânico. Tentou cancelar o discurso com uma justificativa insossa de que Clinton se enganou e que sua fala poderia justificar as mortes de civis em Gaza.

Isso colidiu diretamente com os esforços da campanha de Kamala Harris para adotar um tom humanitário em relação à crise na região. Também não deu certo. O eleitor democrata já estava em processo reversivo.

O episódio expôs a fragilidade da coalizão democrata diante da política externa para o Oriente Médio, evidenciando o abismo entre a posição adotada por parte do partido sobre a legitimidade de Israel defender-se contra ataques terroristas.

As bases mais jovens e progressistas, abduzidas pelo ativismo fundamentalista anti semita nos meios universitários e culturais, direcionando a mentalidade estudantil progressista a adotar o ‘terror’ do Hamas patrocinado pelo Irã, como uma frente em benefício dos direitos dos palestinos, ignorando que as questões expostas por Clinton apontavam para um ponto nevrálgico sobre a legitima representatividade do Hamas.

A fala de Clinton acabou se consolidando como a expressão da verdade e não subserviência à pauta partidária.

No plano eleitoral, seu discurso foi apontado como um torpedo no casco da campanha de Harris. Todavia, outros democratas, como Obama, demonstravam publicamente que a candidata era um engodo.

Do ponto de vista pessoal, as consequências das declarações de Bill Clinton arranharam sua imagem de “Unificador” e “Cabo Eleitoral de Elite”. A militância jovem da sigla, recrutada pelos protestos estudantis pró-Palestina em 2024, interpretou os comentários de Clinton como frios e desconectados dos valores ‘humanitários’.

Mais uma vez a reação do eleitor americano foi avessa a propaganda progressista: Valores humanitários unilaterais que excluem ‘humanidade’ ao povo de Israel, não são justos.

Organizações ligadas aos direitos civis e membros progressistas dentro da coalizão partidária criticaram o tom da fala de Clinton, forçando o partido a lidar com desgastes internos adicionais de relações públicas às vésperas de um pleito acirrado.

Porém, de concreto, Clinton não foi defenestrado do partido.

Sua figura pública permaneceu como referência para setores mais moderados do partido desejosos que a legenda retorne ao bom senso em defesa dos interesses da América.

Ele continua sendo convidado por associações empresariais/culturais nacionais e internacionais para falar sobre os desafios e perspectivas politicas sobre os grandes temas da atualidade.

Moral da historia: Partidos sem ‘dono/ caudilho’ se sujeitam e superam divergências internas e dissidências pontuais sobre assuntos de grande importância nacional.

Adriano de Aquino

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

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