18 de setembro de 2026
Sylvia Belinky

Notícias do condomínio

Hoje, vi, no aplicativo de notícias do condomínio onde moro, a mãe de um menino pedindo figurinhas que faltavam no álbum que, assumo, deveria ser do filho dela: ali, ela colocou número e código do que faltava.

Para dizer o mínimo, achei completamente fora de propósito essa atitude que explica, do meu ponto de vista, como “influencers” atingem um bando de gente com pouca coisa dado que ela fez escola, uma vez que muitas outras mães também publicaram ali, com números e códigos, as que faltavam nos álbuns de seus respectivos rebentos…

Terá essa mãe, com o final da Copa do Mundo, avaliado seu “investimento” e chegado à conclusão de que gostaria que esse álbum estivesse completo, que só assim a dinheirama que gastou se justificaria?

Não sei até que ponto seria razoável comparar épocas tão distintas como aquela em que eu, quando criança, também colecionava figurinhas. Supondo que não seja, é certo que elas não eram, proporcionalmente, tão caras quanto nos dias de hoje – e nem eram da Copa do Mundo, diga-se de passagem – ainda assim, tenho certeza absoluta de que meu pai, se meu álbum estivesse incompleto, não se disporia a colocar um anúncio para trocar as figurinhas que eu tivesse repetidas…

Leituras no WhatsApp garantem que estaríamos bem mais seguros se mantivéssemos laços com nossos vizinhos, que isso seria conveniente por sua proximidade física conosco. Não obstante eu achar que isso vai na contramão do que se chama “convivência”, tornando-se tão somente “interesse” de atitude, tenho a certeza de que não tenho muito em comum com esses vizinhos que poderão chamar uma ambulância um dia, em caso de necessidade…

Sigo Leandro Karnal – aliás a ideia de seguir alguém já não me descreve porque, por princípio, essa ideia de seguir alguém ou de ser seguida, me causa engulhos – como se eu ou quem eu seguisse não tivesse direito a errar ou fazer coisas que pudessem ser tidas como “condenáveis”, o que me soa ridículo…

A ideia de ter que publicar tudo o que faço, de selecionar quem pode ou não pode ver o que faço ou deixo de fazer é completamente o avesso daquilo em que acredito, de que não sou a palmatória do mundo, de que não necessariamente tudo o que digo ou faço é inteligente ou sensato…

Assim, dizer que “sigo” alguém ou saber que me seguem não é motivo de orgulho mas, muito mais, de preocupação… E se, de repente, a criatura que sigo passar a defender o indefensável ou pior, e se emburrecer? E se, do nada, passar a gostar e tecer loas (caramba, que expressão de A.C. …) a alguém que eu detesto e me acho “coberta de razões” para tanto? Vou ter que me explicar duplamente: porque, gosto de um é desgosto do outro…

Eu?! Ter que explicar o porquê de eu gostar ou não de alguém?! E tudo porque escolhi mal e a criatura “desandou”?! Ora, essa é, claramente, uma situação sobre a qual eu não teria o menor controle…

E se os meus “seguidores” começassem a me cobrar coerência no meu gostar, ”mas você disse que gostava dele porque era inteligente”, como vou explicar que o cara ficou maluco e não eu?

Pois é, surrealistas essas minhas dúvidas porque gosto de ser, (ou ao menos parecer) coerente e inteligente numa época em que ninguém se preocupa com coisas tão…chinfrins!!

Sylvia Marcia Belinky

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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