
Terremotos não escolhem governos, ideologias ou fronteiras. Quando a natureza decide mostrar sua força, expõe igualmente as virtudes e as fragilidades de uma sociedade. A tragédia que atingiu a Venezuela, deixando milhares de mortos, feridos e desaparecidos, não pode ser reduzida a uma estatística macabra. Ela também lança luz sobre uma realidade muitas vezes negligenciada: a vulnerabilidade da infraestrutura urbana e a necessidade permanente de preparação para eventos extremos.
Os números impressionam. Centenas de edifícios desabaram, hospitais foram danificados, pontes e rodovias sofreram avarias e milhares de construções precisarão passar por avaliações técnicas antes de voltarem a ser ocupadas. É um retrato que revela como, em poucos minutos, décadas de investimentos — ou de falta deles — podem ruir junto com concreto, aço e vidas humanas.
A decisão do governo venezuelano de criar uma comissão técnica para classificar os imóveis conforme o grau de risco demonstra uma preocupação correta. Em situações dessa natureza, improvisação custa caro. É preciso identificar rapidamente o que pode ser recuperado, o que deve ser interditado e o que representa perigo iminente para a população. O sistema de classificação por cores, adotado em diversos países, oferece um critério objetivo para orientar autoridades e moradores.
Naturalmente, haverá questionamentos sobre a capacidade do Estado venezuelano de conduzir esse processo. O país enfrenta, há anos, dificuldades econômicas e limitações estruturais que não desapareceram com o terremoto. Ao contrário, foram agravadas por ele. Ainda assim, seria injusto ignorar o esforço de mobilização de milhares de socorristas, servidores públicos, militares e voluntários empenhados em salvar vidas e organizar a resposta emergencial.
Em tragédias dessa dimensão, nenhum governo consegue agir sozinho. É justamente nesses momentos que a solidariedade internacional deixa de ser um gesto diplomático para se transformar em obrigação humanitária. O envio de equipes especializadas, medicamentos, alimentos, equipamentos de resgate e hospitais de campanha representa muito mais do que auxílio material. Representa o reconhecimento de que o sofrimento humano não respeita fronteiras políticas.
O Brasil faz bem ao participar desse esforço. Divergências ideológicas entre governos – que no nosso caso não há – jamais podem servir de pretexto para negar socorro a uma população atingida por uma catástrofe natural. A ajuda humanitária deve permanecer acima de ideologias, porque quem está soterrado não pergunta a nacionalidade de quem estende a mão.
Há outra lição igualmente importante. Países da América Latina convivem com diferentes ameaças naturais — terremotos, enchentes, secas prolongadas, deslizamentos e tempestades cada vez mais intensas. A prevenção continua sendo muito mais barata do que a reconstrução. Códigos modernos de engenharia, fiscalização rigorosa, planejamento urbano responsável e sistemas eficientes de defesa civil não eliminam tragédias, mas reduzem drasticamente seus efeitos.
Quando os holofotes da imprensa se apagarem e as equipes internacionais retornarem para casa, a Venezuela continuará enfrentando o desafio mais difícil: reconstruir cidades, recuperar serviços essenciais e devolver alguma normalidade a milhares de famílias que perderam tudo. Reconstruir paredes é relativamente rápido. Reconstruir vidas exige tempo, recursos e perseverança.
A tragédia venezuelana deve servir de alerta para todo o continente. A força da natureza não pode ser controlada. A qualidade da preparação, da resposta do poder público e da solidariedade entre as nações, sim. E é justamente aí que se mede o verdadeiro grau de civilização de um povo.
Mas nada como mostrar a realidade. Imagem do Brasil de Fato do dia de hoje.


