2 de julho de 2022
Sylvia Belinky

Todos passam


Hoje, por mero capricho da sorte, acabei nas instalações de um estúdio de TV e ali passei 4 horas, vendo tudo o que teve representatividade para uma pessoa que viveu 94 anos de uma vida plena de realizações, de amor, de prestígio e de importância: Tatiana Belinky que, dia 18 de março teria feito 100 anos.
Ali, remexendo em seus guardados, antes privados e agora públicos, tendo estado em homenagens pelo que seria seu centenário caso viva estivesse, ouvindo as mais variadas impressões que ela deixou em todos os que privaram com ela – e não deixa de ser surpreendente descobrir que ela deixou a marca de sua presença em todas elas – mas, cada uma dessas pessoas internalizou alguém totalmente diferente daquela que nós, que com ela convivemos tantos anos, tínhamos a certeza de conhecer…
Existe, por parte das “autoridades”, nem sempre muito brilhantes, colocadas em postos de comando, a intenção de fazer um memorial para ela – material tem – de montão. E todas as fotos, escritos, manuscritos, sempre interessantes, estão ali, se desmanchando diante de nossos olhos e de nossa impotência…
Lembrei que, há um ou dois anos, ouvi que todo o acervo de Adoniran Barbosa andava de mão em mão, sua viúva e sua filha tentando “cavar” um local para colocá-lo, e tudo que era dele, por diligência de um seu admirador anônimo, foi colocado numa loja vaga, na Galeria do Rock, a salvo, pelo menos, de alguma enchente, ratos, cupins…
Passou-se um tempo e um ex- jogador de futebol – que me impressionou enormemente já que tudo que li na imprensa sobre ele não foram loas – tendo ouvido essa mesma notícia e sendo grande admirador do compositor – tratou de espalhar o fato para pessoas que tinham alguma sensibilidade e que, na mesma hora, foram atrás da mulher e da filha do Adoniran, oferecendo-se para cuidar do acervo e torná-lo público.
No caso em questão, o mandachuva da referida TV era grande admirador e amigo dela, oferecendo-se para ficar com todo o acervo e montar um “canto” de visitação pública.
Não conseguiu, mas o acervo encontra-se conservado e nós, da família, resolvemos dar uma destinação ao que realmente deve ser público e ao que pertence à família, como fotos dos filhos, dos pais, dos netos…
Ela era uma pessoa eclética que, quando se interessava por alguma coisa, ia a fundo: assim foi com a grafologia, com a interpretação do famoso Teste de Rorscharch, dos borrões de tinta – manchas duplicadas porque são dobradas – até hoje, uma das melhores ferramentas para se avaliar uma personalidade. Seu marido, Júlio Gouveia, era médico psiquiatra e era ela quem interpretava a letra e o teste dos clientes dele…
Hoje, também o estudo da grafia foi reabilitado, em especial para testes vocacionais ou como análise de candidatos a empregos de confiança, por revelar preciosidades que, de outra forma, poderiam levar muito tempo para serem “descobertas”…
Herdei seus livros de grafologia e fiquei com seus estudos e anotações preciosas…

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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