23 de maio de 2022
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S’il vous plaît, um tradutor

O idioma é a mesmo nos dois lados do oceano. Mas, às vezes, esbarramos em incompreensões. É natural, as línguas têm as suas próprias gírias e modismos, além da diferença de sotaque. O que é comum no Porto, Portugal, no Brasil causaria espanto. E vice-versa. Nem vou contar como se chama bunda por aqui, não quero que a Anna Ramalho dispense os meus serviços por ofensa à moral e aos bons costumes.
Há dias, o meu falar brasileiro confundiu os ouvidos de um português motorista de táxi. Queria ir à loja Leroy Merlin que, no Brasil, chamamos de Leroi Merlim. Assim, com o R não gutural, o primeiro I aberto e o segundo com cheiro e gosto de I verdadeiro.

Quando anunciei o destino, o motorista pediu-me para repeti-lo. Inocentemente, mandei um segundo “Leroy Merlin”.
– A senhora sabe onde fica?
– Vou ver no Google Maps.
Endereço encontrado, foto mostrada, ele me olhou como se olha a mais rastaquera das criaturas e, no mais puro sotaque francês, bombardeou-me:
– A senhora quer ir ao Le Roi Merlin?
Subitamente, fui acometida da falha técnica que, através da vida, tem me causado grandes embaraços: perdi o contato com o planeta Terra e a lógica que o norteia. Teoricamente, deveria concordar e ficar calada. Mas, não. Um curto-circuito cerebral obrigou-me a alegar que não era Roi, pois se escrevia com Y. O cidadão não deu o braço a torcer, explicou-me que o rei Merlin era inglês, do tempo do rei Arthur. Minhas sinapses continuaram em estado de coma:
– Merlin não era rei, era um conselheiro.
– A senhora está errada, se fosse assim, a loja se chamaria Le Conseiller Merlin. Acredite, passei a adolescência na França.
Abro um parênteses para esclarecer que, no Porto, é muito comum as pessoas falarem francês. A colônia portuguesa é enorme em Paris e muitos voltam aposentados ou os filhos decidem retornar à terra dos pais. Esse aviso, “estudei na França”, seria suficiente para um cérebro normal despertar. Mas o meu permaneceu no modo off:
– Merlin também era um druida.
– Oh, bien sur, un druide. Vivendo e aprendendo, o dono da empresa nem soube batizá-la, mas ficou milionário.
A taxa de Simancol começou a voltar à normalidade na circulação sanguínea, caí em mim, calei a boca. O motorista bilíngue, porém, não me perdoou.
Coitado, não tinha mesmo a obrigação de saber que, às vezes, vou orbitar em Plutão e desando a falar asneiras. Que o diga a senhora que, há anos, dividiu um elevador comigo e tentou me agredir por pensar que eu levava uma coruja na bolsa de palha. Mas essa é outra história.
Mal saltei à porta de Le Conseiller Merlin, como ele anunciou a nossa chegada, o rapaz deu um sorrisinho irônico e me detonou:
– A senhora fala que língua?

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