
A classificação do CV e do PCC como organizações terroristas pelos Estados Unidos abriu um debate que vai muito além da segurança pública. Entrou no terreno da soberania, da diplomacia, da política eleitoral e, principalmente, da narrativa. Em uma decisão de forte impacto para a política externa e para a segurança internacional, o governo dos Estados Unidos oficializou a classificação de duas das maiores facções criminosas do Brasil como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs). A medida, que redefine a abordagem americana no combate a esses grupos, foi formalizada em Washington através de um documento assinado pelo Secretário de Estado, Marco Rubio.
O senador Flávio Bolsonaro foi a Washington pedir formalmente essa classificação. Do outro lado, o governo Lula tentou conter o avanço da ideia junto às autoridades americanas. E aí surge a pergunta inevitável: quem está politicamente certo nessa disputa?
A direita brasileira sustenta que PCC e CV ultrapassaram há muito tempo a condição de meras organizações criminosas. São grupos armados, com controle territorial, conexões internacionais, lavagem bilionária de dinheiro e capacidade de desafiar o Estado em diversos pontos do país. Para esse setor político, tratar as facções apenas como crime organizado seria minimizar um problema que já assumiu contornos de guerra urbana.
A esquerda e setores da diplomacia brasileira argumentam justamente o contrário. Dizem que a classificação como terrorismo abre precedentes perigosos para interferência externa, amplia a influência americana sobre assuntos internos do Brasil e pode criar conflitos jurídicos delicados. Há também o temor de que a definição permita ações internacionais mais agressivas, inclusive no campo da inteligência.
O debate, no entanto, revela algo ainda mais desconfortável: o fracasso histórico do Estado brasileiro no combate ao crime organizado. O PCC deixou de ser uma facção prisional há muito tempo. O Comando Vermelho igualmente expandiu suas operações para além das comunidades dominadas pelo tráfico. Ambos operam redes interestaduais, internacionais e financeiras sofisticadas. Em muitos lugares, substituem o próprio Estado — impõem regras, cobram taxas, controlam circulação e exercem poder armado.
Ao mesmo tempo, transformar essas organizações em terroristas também não resolve, automaticamente, o problema. A palavra terrorismo carrega peso jurídico, diplomático e militar. Não é apenas um rótulo simbólico. Uma vez aplicada, altera a forma como governos estrangeiros passam a agir.
E é justamente aí que o governo Lula demonstra preocupação. Brasília teme perder protagonismo no enfrentamento das facções dentro do próprio território nacional. Existe receio de internacionalização do tema, de pressão econômica e até de desgaste na imagem do país no exterior. Afinal, admitir que grupos brasileiros sejam tratados como terroristas equivaleria, para muitos, a reconhecer o colapso da segurança pública nacional.
Mas há também um componente político impossível de ignorar. Para a direita, endurecer o discurso contra o crime sempre produziu dividendos eleitorais. Vincular o governo Lula a uma postura resistente à classificação terrorista ajuda a reforçar a narrativa de leniência com o crime organizado — ainda que a realidade seja juridicamente mais complexa do que os slogans de campanha. Já para o governo, aceitar a pressão americana poderia soar como submissão diplomática e munição para adversários internos.
Na realidade, a discussão talvez nem seja sobre nomenclaturas. O brasileiro comum pouco se importa se PCC e CV serão chamados de facção, cartel, organização criminosa ou grupo terrorista. O cidadão quer segurança. Quer poder sair de casa sem medo. Quer ver o Estado ocupando espaços que hoje pertencem ao crime. E nisso, sejamos honestos, todos os governos falharam.
Enfim, transformar facções em organizações terroristas pode render discursos duros e manchetes de efeito. O difícil continua sendo enfrentar as raízes do problema: corrupção, fronteiras frágeis, impunidade e um Estado que frequentemente chega tarde — quando chega.
Enquanto autoridades discutem definições em gabinetes climatizados, comunidades inteiras seguem aprendendo a sobreviver entre tiros, ameaças e silêncio. Para boa parte da população, a sensação de guerra já deixou de ser metáfora há anos.
Talvez a pergunta nunca tenha sido se estamos diante de terrorismo ou crime organizado. A pergunta correta é outra: quanto tempo uma sociedade suporta conviver diariamente com o medo antes de admitir que perdeu o controle?

