25 de maio de 2026
Editorial

A polarização é o escudo de Flávio Bolsonaro

Na política, há fatos que produzem dano imediato. Outros, mais perigosos, produzem desgaste silencioso. O episódio envolvendo a gravação de Flávio Bolsonaro conversando com Vorcaro — somado à visita ao mesmo Vorcaro — talvez se encaixe justamente na segunda categoria: não destrói uma candidatura, mas oferece munição preciosa para adversários construírem narrativas. E a política moderna vive menos de fatos concretos do que de percepções repetidas.

Para um eleitorado de direita que passou anos denunciando relações nebulosas entre poder político, empresários influentes, bastidores institucionais e favorecimentos seletivos, qualquer gesto que pareça “proximidade excessiva” inevitavelmente gera ruído. Não importa, muitas vezes, se houve ilegalidade. O problema está no simbolismo.

A esquerda compreendeu isso há muito tempo. Por décadas explorou imagens, encontros, fotografias, gravações e insinuações para produzir desgaste moral em adversários. Agora tenta aplicar a mesma lógica contra um dos nomes mais fortes do campo conservador.

E é justamente aí que entra o principal fator favorável a Flávio Bolsonaro: a memória curta do eleitorado brasileiro.

O brasileiro médio reage fortemente ao impacto inicial de uma notícia, mas raramente acompanha seus desdobramentos. Escândalos gigantescos já desapareceram do debate público em questão de meses. Declarações consideradas “gravíssimas” numa semana viram assunto morto na seguinte. A velocidade das redes sociais enterra crises antes mesmo de elas amadurecerem.

Além disso, há outro elemento relevante: boa parte do eleitor de direita aprendeu a desconfiar do timing de certos vazamentos.

Sempre que surge uma gravação, uma conversa privada ou uma informação “convenientemente” exposta em momentos politicamente sensíveis, aparece também a suspeita de uso seletivo do aparato investigativo ou institucional. Ainda mais num ambiente político marcado por disputas abertas entre setores do Judiciário, da Polícia Federal, do governo e da oposição.

Esse contexto reduz parte do potencial destrutivo do episódio.

Para muitos apoiadores conservadores, a questão deixa de ser “o que foi dito” e passa a ser “por que isso apareceu agora?”. Em campanhas polarizadas, a origem do ataque muitas vezes importa mais que o conteúdo do ataque.

Claro que há risco.

Toda campanha competitiva depende de disciplina narrativa. E episódios paralelos desviam o foco de temas mais favoráveis à direita, como economia, segurança pública, liberdade de expressão e críticas ao governo Lula. Quando o noticiário passa dias discutindo encontros, áudios e bastidores, a campanha perde controle da pauta.

Ainda assim, apostar que isso seria suficiente para inviabilizar eleitoralmente um Bolsonaro parece desconhecer o funcionamento da política brasileira contemporânea.

A família Bolsonaro já atravessou CPIs, vazamentos, operações, quebras de sigilo, denúncias, investigações, campanhas internacionais negativas e um bombardeio midiático praticamente permanente. E, mesmo assim, manteve uma base eleitoral sólida e altamente mobilizada.

Isso ocorre porque o eleitor bolsonarista típico não vota apenas em um candidato. Ele vota numa reação ao sistema político tradicional, à velha imprensa e ao establishment institucional que acredita persegui-lo politicamente.

Nesse ambiente, ataques excessivos, frequentemente, produzem o efeito contrário: fortalecem a sensação de cerco e aumentam a fidelização da base.

A oposição aposta no desgaste moral. Mas pode acabar apenas reforçando o discurso de perseguição política que há anos alimenta o campo conservador.

No fim, a pergunta central talvez não seja se o episódio prejudica Flávio Bolsonaro. Prejudica sim, ao menos momentaneamente. A questão real é: prejudica o suficiente para alterar convicções já cristalizadas?

A história recente sugere que não.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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