26 de maio de 2022
Sylvia Belinky

Novidades cibernéticas


As novidades são ruins, em especial para nós que, hoje, estamos na faixa dos 50 ou mais e ainda não estamos com a vida ganha…
Há cerca de 20 anos, todas as inovações digitais estavam em seu auge e tudo parecia se desenvolver para o melhor dos mundos: mais tempo para não fazer nada, robôs para ocupar os espaços de ofícios repetitivos, etc.
Nos anos noventa, as pessoas ficaram eufóricas com o surgimento da Internet, com cara de salvação do mundo sem mais fronteiras, as distâncias desaparecendo, tempo de sobra para procurar e encontrar a felicidade…
Passados todos esses anos, vemos hoje a absoluta imaturidade, a pegada narcísica das selfies que todos fazem incansavelmente, mudando de roupa, de layout, para se mostrarem atraentes, ativos e presentes.
Só que ninguém está presente; todos são virtuais. A proximidade desapareceu e a solidão dos indivíduos é tal que precisam se mostrar alegres, lindos e disponíveis, nem que seja para uma aventura fugaz.
Ser pasteurizado passa a ser a forma de viver que pode nos levar ao nirvana. Nosso medo de ser insuficiente diante do outro, nos impede de nos mostrarmos por inteiro. E, é claro que esse medo procede: todos somos, de alguma forma, insuficientes o que, longe de ser um defeito, nos confere humanidade! O ser insuficiente nos leva a procurar no outro aquilo que não temos!
Tememos que o excesso de proximidade nos desvende, criando, portanto, mais possibilidades de atrito. Quanto maior a proximidade, maiores os problemas. Ninguém suporta estar próximo por longo tempo sem discutir, sem criar problemas para si  e para os outros…
O lado sombrio da Internet se revela, demonstrando que não temos mais como controlar o que criamos; leia-se, a criação se volta contra a criatura. Milenarmente, isso é verdade mas, até que se revele diretamente sobre nós e aqueles por quem nos interessamos, nossa tendência é negar sua existência.
Não nos aceitamos como somos – se é que algum dia isso aconteceu. Mudar a todo momento de layout com o auxílio do Facebook nos assegura da fatuidade da mudança: mudamos a casca, nada do conteúdo.
Mas, quando formos dominados pelos robôs, podemos nos consolar: seremos como a esponja de limpeza, com 1001 utilidades e seremos bem aceitos em todos os lugares! O segredo é simples: viremos com instruções para uso!

Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.