8 de julho de 2026
Paulo Polzonoff Jr

PF: Empresa sancionada pelos EUA por elo com PCC operava esquema para chineses

Lula: praticamente um lorde. (Foto: Reprodução)

PF identificou remessas de 152 milhões de USDT em 198 dias, o equivalente a mais de R$ 872,9 milhões

A Polícia Federal (PF) identificou que a Victory Trading, uma das empresas sancionadas pelos EUA por ligação com o PCC, era usada para operar um esquema industrial de “cripto-cabo” voltado a lojistas chineses que enviavam grandes quantias ao exterior sem utilizar o sistema financeiro tradicional. As informações constam em documentos obtidos pelo site Metrópoles.

De acordo com a investigação da PF, a empresa funcionava como uma espécie de “casa de câmbio invisível”, viabilizando o chamado “dólar China”, mercado voltado a comerciantes chineses que atuam no Brasil, principalmente na venda de eletrônicos e acessórios, como iPhones e capinhas de celular.

Documentos obtidos pelo jornal mostram que o esquema utilizava o “cripto-cabo”, mecanismo que permite transferir recursos ao exterior sem recorrer ao sistema bancário tradicional ou a operações oficiais de câmbio.

Fontes ouvidas pelo Metrópoles afirmaram que os comerciantes entregavam grandes quantias em reais à organização e recebiam o valor equivalente em USDT, criptomoeda pareada ao dólar.

A PF constatou que Hong Kong e Taiwan eram usados como bases estratégicas da operação, permitindo que os ativos fossem disponibilizados em carteiras digitais no exterior em cerca de dez minutos.

A perícia técnica da corporação revelou que o esquema operava em larga escala. Ao analisar o histórico público da principal carteira digital utilizada pela rede, os investigadores identificaram remessas de 152 milhões de USDT ao exterior em apenas 198 dias, o equivalente a mais de R$ 872,9 milhões.

Apesar disso, a PF afirma que ainda não conseguiu identificar quanto desse total corresponde a recursos enviados por comerciantes chineses.

Do montante movimentado, a corporação conseguiu rastrear aproximadamente R$ 120 milhões por meio de 148 operações identificadas em grupos de mensagens. Segundo a investigação, cabia à Victory Trading captar os recursos no Brasil, inseri-los no sistema financeiro, convertê-los em criptoativos e enviá-los ao exterior.

Mensagens interceptadas pela PF mostram que os investigados utilizavam um escritório em Hong Kong, que funcionava até as duas da manhã no horário local, para garantir liquidez às operações. O destino final dos recursos, segundo a PF, eram contas de fornecedores localizados na China Continental, em polos industriais como Hangzhou.

“O ritmo do dol china é diferente. É direto com os lojistas. Os caras é outro time. Outro time. Lojista não sabe o que é câmbio, pra ele não existe trava, não existe nada disso. Ele só fechou lá 10 botos [lotes] e já era. Vai pagando, vai pagando, vai entrando na loja e vai mandando”, escreveu Kevin Fortunato, apontado como um dos operadores do grupo.

A investigação também encontrou conversas que revelam preocupação dos envolvidos com os riscos do esquema. Em um diálogo com um integrante identificado como “Zanatta”, Fortunato tentava convencê-lo de que a operação era segura e lucrativa, afirmando que poderia movimentar até US$ 10 milhões.

Zanatta demonstrava receio com as consequências jurídicas para clientes e operadores e alertava que, quando os envolvidos estivessem “na cadeira com os bens bloqueados”, perceberiam o erro. Fortunato respondeu: “Chines nem tem bens aqui kkk”.

Na sequência, Zanatta insistiu: “mas a cadeira existe hahahahah muitos já passaram por lá eu não e vc sabe que os caras se fodem, vc sabe [sic] nao vou ficar aqui arriscando para ganhar nada”.

Fortunato rebateu: “Chinês [não] liga pra isso brother kkkkkk os caras fica 6 meses presos e volta pra China com 10m de dol [dólares] em USDT. Se toca zaza kkkkk chinês tá ligando pra isso não. Ele n quer saber se vamos ganhar 0 ou 10 centavos, o preço é esse aqui ó”, escreveu, ao enviar um link de um site sobre Bitcoin.

Segundo a PF, Fortunato também orientou outros operadores a reduzirem temporariamente os valores recebidos dos comerciantes chineses devido a instabilidades na estrutura utilizada para liquidar as operações no exterior. As mensagens interceptadas também mostram que Fortunato ironizou a expedição de um mandado de prisão contra ele.

Embora seja proprietário da Victory Trading, Victor Henrique de Oliveira Shimada, sancionado pelos EUA e atualmente foragido, não participava diretamente das operações com os comerciantes chineses. A PF afirma que outros núcleos da organização também eram utilizados para lavagem de dinheiro e envio de recursos ao exterior.

A investigação localizou ainda um áudio de agosto de 2022 em que Giovanni, irmão de Shimada, auxilia o grupo a superar exigências de compliance bancário para colocar contas da Victory Trading em operação em plataformas como a fintech global Mamoru e o Banco Topázio.

Dois meses depois, segundo o Metrópoles, mensagens obtidas pela PF indicam que o grupo rompeu relações com Shimada. A investigação aponta que integrantes da organização passaram a falsificar a assinatura do empresário para continuar abrindo contas e movimentando recursos.

Investigadores relataram ao jornal que encontraram mensagens de Fortunato orientando Eric Claudino dos Santos, apontado como um dos operadores, a imitar a assinatura de Shimada para superar exigências de compliance, formulários de “Conheça seu Cliente” e procedimentos de prevenção à lavagem de dinheiro.

Crédito Claudio Dantas

Fonte: Paulo Figueiredo

Paulo Polzonoff Jr

Jornalista, tradutor e escritor.

Jornalista, tradutor e escritor.

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