
E o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo 2026. Para a Noruega. Em tempos normais, aqui eu perguntaria ao leitor se ele está triste e ele diria que sim. Mais do que isso, decepcionado. Ou que foi injusto. “O Brasil jogou tão bem…” Hoje não. Se eu fizer essa pergunta simples, de ombro amigo, é bem capaz de receber respostas cínicas e agressivas, que tendem a um desespero que é mais profundo do que a mera melancolia esportiva diante da derrota. Respostas que apontam para um futuro tenebroso, do qual não há ninguém para nos salvar.
O brasileiro desistiu de alguma coisa muito grande. Não sei exatamente do quê. Sinal disso estava na não-vontade dos jogadores na partida contra a Noruega. Na passividade com que o Brasil que já foi de Pelé e Garrincha e Romário e Ronaldo aceitou o jogo do adversário. Não sei se a Seleção achava que a vitória era natural, uma questão de camisa e tradição. Ou se simplesmente a vitória, essa e outras, não interessa mais a jogadores acostumados e satisfeitos com outro tipo de glória. O brasileiro desistiu de ser ele mesmo, talvez.
O que realmente importa
Sei lá. Só sei que faz tempo que noto no brasileiro (e aqui a Seleção funciona como catalisador do espírito nacional reinante) essa tendência a substituir as coisas mais nobres do espírito humano e nacional por algo mesquinho. Tudo aquilo que é intangível e transcendente por algo que é mais palpável, ostentável, instagramável. No futebol, mas não só. Na cultura é a mesmíssima coisa. No direito. Nas profissões em geral, inclusive no jornalismo. E também na política, se bem que tendo a achar que na política sempre foi assim.
Agora é lidar com isso. Com essa falta de ímpeto heroico. Essa ausência de ambição santa. Com essa sujeição ao dinheiro. Essa mediocridade egoísta de quem poderia usar os dons de Deus para se doar verdadeiramente e, assim, fazer mais pelo outro. Mas se contenta com o que tem ou com o que pode conquistar apenas para si. E mais uma vez me sinto obrigado a esclarecer que estou falando dos jogadores da Seleção, mas também de mim e de você, mesmo que você esteja agora aí comemorando cinicamente a derrota do Brasil e enchendo a boca para dizer que agora é hora de discutir o que realmente importa.
fonte: Gazeta do Povo

