20 de julho de 2026
Silvia Gabas

Me desculpem, mas eu vou falar

Porque, amigos, diante de certas absurdidades não há como se calar.

E o Prêmio Jabuti 2025 , o maior prêmio literário brasileiro, me leva a essa fala obrigatória diante do fato de que é impossível manter uma certa mudez necessária.

27 de Outubro, foi anunciado o nome do ganhador do melhor romance literário de 2025 e Tony Belotto, o conhecido músico da banda Titãs foi o premiado.

Deixou para trás, comendo poeira, nomes como Chico Buarque, Jefferson Tenório, Marcelino Freire e Alberto Mussa, ou seja, os mesmos de sempre pertencentes à bolha cultural brasileira.

Como leitora que sou, amante da literatura de qualidade, fui atrás de um aperitivo do livro premiado, “Vento em Setembro”, com a curiosidade natural de quem pretende saber o que, afinal, é digno de reverência nos dias de hoje na seleta área literária.
E, Deus, o que li me deixou perplexa, confesso.

Se Belotto foi o premiado, posso muito bem imaginar o nível da escrita dos demais concorrentes.
É ruim demais, é vergonhoso, é escrita primária.

Senti certo constrangimento.

Imediatamente, fui remetida ao livro “Crônica da Casa Assassinada”, escrito por Lucio Cardoso em 1959, considerado um dos melhores romances já escritos em terras brasileiras.

É escrita refinada, complexa, profunda, que o aproxima de um Dostoiévski dos trópicos.

Lucio Cardoso foi o grande amor da escritora Clarice Lispector, mas o relacionamento não se concretizou diante da homossexualidade de Lúcio, um mineiro nascido em Curvelo no ano de 1912.

Foi escritor, poeta, dramaturgo, tradutor, e principalmente, um desconhecido pela imensa maioria dos brasileiros, apesar de ter ganhado até mesmo prêmio internacional pela sua obra-prima.

Ver a que ponto chegou a literatura brasileira é algo que me entristece, mas não me espanta, para ser franca.

Afinal, em terra de semianalfabetos funcionais, dominada por um bolha cultural que se retroalimenta e se deleita entre os seus, ainda que sem os necessários leitores que deem o respaldo real para o que foi premiado como o melhor que o escritor brasileiro tenha a oferecer para o distinto público, o que mais podemos esperar, a não ser concluir que esperanças há muitas, mas não para nós?

Silvia Gabas

Com formação em Direito e Serviço Social, leitora compulsiva, com olhar atento para as grandes questões do mundo, dando sua contribuição através de textos publicados nas suas redes e sociais e na revista Stampa, entre outros veículos de comunicação.

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Com formação em Direito e Serviço Social, leitora compulsiva, com olhar atento para as grandes questões do mundo, dando sua contribuição através de textos publicados nas suas redes e sociais e na revista Stampa, entre outros veículos de comunicação.

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