
Este ano, mais precisamente no dia 9 de julho, a Fiat completou “50 anos de Brasil”*. Daí praticamente todos os meus colegas, em sites, perfis e canais automotivos estarem postando ótimas matérias sobre a trajetória da marca em nosso país, seus modelos, marcos etc. Pra não repetir a mesma fórmula, mas não deixar de registrar essa importante efeméride aqui na Rebimboca, resolvi falar, em primeira e egocentrada pessoa, de minha vivência e experiências com carros da Fiat.
(*) As aspas estão aí porque esse cinquentenário se refere à inauguração de sua fábrica, em Betim, MG, mas carros da marca circulam pelos caminhos brasileiros desde, pelo menos, 1906*, quando se instalou por aqui o primeiro representante oficial da marca – que havia sido fundada, em Turim, na Itália, em 1899. Para saber mais sobre isso, sugiro a leitura deste (como sempre) ótimo artigo do colega Jason Vogel, especialista em história(s) automotiva, no site Motor1 – https://motor1.uol.com.br/features/799367/historia-fiat-brasil-120-anos/

Bom, para começo de conversa, sou mais antigo que a Fiat Brasileira. Daí que os primeiros carros da marca de que me recordo, ainda criança (e sempre fui doido por carros, desde bem pequeno), eram importados. E entre eles o que mais me cativava era o 124 Spider (acima), um conversível desenhado pelo mestre Pininfarina, de linhas clássicas perfeitas e que via estacionado na rua em que morava.

Me lembro também de meu pai contando que, certo dia, na escola em que estudava, de brincadeira, um grupo de alunos carregara o Fiat 500 Topolino (conhecido como “Fiat Pulga”, na época, acima) de uma professora, levando o carrinho de sua vaga para cima de um canteiro.
Primeiro Fiat nacional, o 147 gerou encanto e desconfiança

Corta para 1977, época em que eu estava no antigo primeiro grau. Um de meus professores preferidos, o saudoso Afonso Pimentel, de Educação Física, comprou um dos primeiros 147 que vi de perto. Ele e um outro professor, acho que de química, falavam maravilhas do carro, elogiando seu espaço, economia e desempenho. Mas tenho clara na memória uma discussão entre eles e outros colegas seus, que tinham outras marcas na garagem e que demonstravam um certo desdém pelos Fiat.
A fonte dessa quase hostilidade vinha muitas vezes das oficinas mecânicas. Com motor e câmbio transversais, praticamente encrustados sob o capô, onde também ficava guardado um pneu sobressalente de medida igual aos das rodas, o 147 amedrontava os profissionais independentes, que se sentiam inseguros para trabalhar neles. Há até quem diga que houve campanhas de difamação clandestinas, bancadas por concorrentes ameaçados – mas isso está mais para teoria conspiratória.
Me lembro também – e até já escrevi sobre isso aqui na Rebimboca <https://www.rebimboca.com.br/single-post/fiat-147-branco-sobe-escada> – das primeiras campanhas publicitárias da Fiat, que para demonstrar a robustez de seu modelo e conquistar a simpatia do público, colocou um deles para subir e descer as escadarias da Igreja da Penha, aqui no Rio (na foto da abertura). O fato é que, aos poucos, aquelas caixinhas de fósforos sobre rodas (apelido da época) foram conquistando seu espaço.
Caixotinho, caixa de fósforos, companheiro de aventuras
Anos depois, mais ou menos na época em que estudava Engenharia Química na Ilha do Fundão (é, passei por isso), um dos meus melhores amigos tinha um valente 147 de cor marrom metálica, com o qual saíamos para nossas aventuras, na cidade e também pelas estradas afora, com a mala carregada de equipamentos de camping, violão e coisas do gênero. Em uma dessas viagens, numa atribuladíssima ida a Cabo Frio, tive de dormir dentro do carrinho, dobrando os bancos traseiros e colocando roupas como colchão no porta-malas. Sobrevivi.
Outra história da época é de um amigo que tinha um 147 branco, cor mais comum do carro que, àquela altura (comecinho dos 1980), já era muito popular. Consta que, saindo de uma festa, ele deu carona para alguns colegas em seu carro, que havia estacionado na rua. Mas, uma ou duas quadras depois de partirem, um deles percebeu que o carro estava “diferente”, com um daqueles porta-retratos com fotos 3×4 de crianças e a célebre frase “Papai não corra” fixado no painel. Meu amigo não tinha filhos…
Por sorte, conseguiram fazer a volta, estacionar o carro na mesma vaga em que estava antes e, uns 20 metros adiante dali, entrar finalmente no carro correto. Sim, as chaves não só abriram a porta, como deram partida no motor de ambos os carros…
Já cursando jornalismo, na Urca, um amigo tinha um 147, verde-garrafa, usado para farras e acampamentos. E outro, mais abastado, usava um reluzente Spazio, a versão aprimorada e mais caprichada do carrinho, na qual peguei carona uma boa dúzia de vezes.
A título de informação: nessa época eu já tinha carteira, mas meu carro era o Fuscão da Família.
Outro querido amigo, feito nos semestres da Química e presente ainda hoje, tinha na família uma espaçosa Panorama, que, luxo total, tinha teto solar e um mais possante motor 1.3, capaz de nos levar a Angra dos Reis, sãos e salvos, até em madrugadas de tempestade.

Os Fiat e a minha carreira profissional
Foi também a bordo de uma Panorama (parecida com a acima), com a logomarca da revista pintada nas portas, que fiz algumas de minhas primeiras reportagens profissionais, pela Revista Manchete. Além delas, umas três ou quatro, a garagem da Bloch Editores também guardava uma Fiorino azul, em versão para passageiros, com enormes janelas nas laterais do compartimento traseiro.
Pela mesma revista, mais adiante, cobrindo um campeonato de paraquedismo em Foz do Iguaçu, eu e o fotógrafo Nilton Ricardo alugamos um Uno (ainda uma novidade) azul, com o qual rodamos pelos três países da tríplice fronteira.
Foi para a revista Manchete, e depois para a Ele Ela, do mesmo grupo, que comecei a escrever mais constantemente sobre automóveis. Como titular da seção na revista, fiz ali meus primeiros test-drives assinados – e, na prática, comecei a aprender meu ofício, criando os primeiros parâmetros de comparação entre modelos e marcas.

Paralelamente, namorava uma garota que tinha um 147 Europa prateado (semelhante ao da foto, de outra cor), com o qual, de vez em quando, subíamos lenta e comportadamente a Serra de Petrópolis, para depois descê-la muito mais rápido e passando todo mundo pelo caminho. Carrinho bom de curva!
Foi nesse período inicial que cobri, na fábrica da Fiat em Betim, o lançamento do Uno Mille Electronic, com direito a uma prova comparativa de arrancada na pista de testes de lá. A ideia era colocar, lado a lado, o novo Fiat com outros modelos 1.0 da época – como o Chevette Júnior, o VW Gol 1000 e Ford Escort Hobby 1.0. Salvo pelo desempenho atrapalhado de um ou outro piloto (todos jornalistas), o Mille levava a melhor em todas.

Test-drives dos modelos mais variados
A partir daí, comecei a ter acesso aos carros para avaliações mais longas, em média por uma semana, que é o padrão oferecido pelas montadoras até hoje.
Naqueles tempos fiz test-drives com diversos modelos Fiat, como a versão CSL da Elba, os Tipo 1.6 de duas e quatro portas, o 2.0 e o divertido Sedicivalvole (16v); o empolgante Uno Turbo (abaixo) e umas tantas versões do Tempra, das mais comportadas à apimentada-chic Stille e a nada discreta coupé Turbo – primeiro carro no qual devo ter chegado aos 200 km/h, pelo menos no velocímetro.

Em 1994 fui convidado a participar da criação de uma revista mensal de automóveis, para a qual criei até o nome: Automania, do grupo O Dia. E a matéria de capa da primeira edição, que fiz ao lado do fotógrafo Mariano Coelho, mostrava o nascimento do Fiat Palio, do desenho à pista de testes.

Durante os pouco mais de dois anos de vida da Automania, a lista de carros Fiat testados foi também extensa, com todas as versões do Palio e seus derivados (Weekend e Siena), picapes Fiorino, Tempra, Tipo nacional (o breve) e até um estiloso Coupé, importado da Itália (abaixo).

Com mecânica do Tipo 16v, o carro não oferecia um desempenho à altura das expectativas que seu desenho feito por Pininfarina poderia sugerir (havia versões turbo, que não chegaram a ser vendidas por aqui). E, para piorar, mesmo com o banco regulado na posição mais baixa, eu só consegui dirigi-lo com conforto se abrisse o teto solar… Quem manda ser comprido?

O tempo passou, tive coluna fixa no suplemento de automóveis do Jornal O Dia, que depois levei para o portal on-line do jornal O Globo. E, ao longo desse tempo, embora com menor frequência – e quando as minhas outras demandas profissionais permitiam – pude guiar os modelos seguintes da marca. Bravo, Marea, Punto…
Veio o programa Oficinal Motor, e nele os Fiat eram convidados constantes.
O primeiro deles, inclusive, rodou pela pista do ECPA, em Piracicaba, onde gravávamos, antes mesmo do início das gravações. Foi um desanimado Novo Uno 1.0, que havíamos alugado para conhecer o cenário. E lá fui eu “pilotá-lo”, tendo com instrutora a muito mais experiente (e corajosa) Michelle de Jesus, que, com o Lipe Paíga, formou comigo o trio de apresentadores do divertido (pelo menos para nós) programa da Globosat.

De memória: Punto, Novo Palio, Gran Siena, Strada, Linea (de pista), 500 (importado)… e acho que um Bravo, também. E, em viagem pela Itália, usamos um ótimo 500L cor de café-com-leite, com motor Multiair de 2 cilindros (!), além de um Freemont diesel 4×4.

Foi em uma dessas viagens, aliás, que conheci o primeiro carro produzido pela Fiat, em 1999. Ele estava estacionado no museu da marca, em Turim, que não é muito grande, mas que guarda modelos icônicos. Recomendo a visita. Na mesma cidade, visitamos o Museu Internacional do Automóvel, obviamente recheado de Fiats, e tive o privilégio de ir até a pista de testes no teto do edifício da histórica fábrica de Lingoto, que até então só conhecia de fotos e dos meus sonhos de menino. <link?>
De lá pra cá, hoje – e, espero, por muitos anos
Ao longo dos últimos dez anos segui produzindo minhas matérias e vídeos, e da pauta deles a quantidade de carros da Fiat é considerável e inclui praticamente todos os modelos que ela nos ofereceu. Vou aproveitar para colocar os links para alguns deles mais abaixo. (como o comparativo entre versões do Cronos, abaixo).
Se fosse resumir em um só comentário o que percebo de todos esses carros (e, pelas minhas contas, devo ter guiado pelo menos uns 40 deles), mencionaria sua personalidade. Vá lá que eles nem sempre sejam tão emocionantes quanto o temperamento passional que costumamos associar aos carros italianos pode sugerir (confira o test-drive do Mobi 2020, abaixo). Mas dificilmente você vai confundir um Fiat com um carro de qualquer outra marca. Seja em aparência, sensações (incluindo sons, cheiros, texturas) e em seu modo de andar.
É claro que, entre todos os carros que guiei, são provavelmente os mais esportivos os que virão sempre à lembrança. E a lista aí inclui os turbinados Uno, Tempra, Punto, Marea… Mas não é só isso. Pensando um pouco mais, acho que, entre todos eles, o que mais me impressionou – e marcou – foi aquele já surradinho 147 Europa 1982, descendo animadíssimo a Serra de Petrópolis lá pelos fins de 1987, gritando alto na última de suas quatro marchas e deixando para trás tudo e todos, inclusive os muito maiores e mais possantes, sem o menor constrangimento.
Feliz jubileu de ouro, Dona Fiat.
Alguns vídeos com Fiats na TV Rebimboca:
Fiat Argo 2018 – https://youtu.be/PDeuGkbO3Jk?si=9JQL_skjiInLpXCn
Fiat Cronos 2019, 18 ou 1.3? – https://youtu.be/TdYzM4NTc-U?si=1QxW8z7Ea-x6avvx
Fiat Argo Trekking 2020 – https://youtu.be/xHXpYunpir0?si=uaBzPLLJDPQX-bNy
Fiat Mobi Trekking 2020 – https://youtu.be/v-qv9g8AGMA?si=WRc8_Oc3yBDVND8I
Fiat Strada Volcano CD – https://youtu.be/RTCQUVpFch4?si=rJC659rqKY9wCL-e
Fiat 500 e – https://youtu.be/LzQUjkF5ctU?si=EHPVXifyDJgBuKlQ
Fiat Fastback Impetus – https://youtu.be/KHiJ4xn-JC8?si=4uPnto6o7y7QYaMG
Alguns posts aqui no blog:
Fiat Titano 2026 – https://www.rebimboca.com.br/single-post/ser%C3%A1-que-a-fiat-titano-ranch-2026-vale-a-pena
Fiat Toro Ranch 2026 – https://www.rebimboca.com.br/single-post/test-drive-com-a-fiat-toro-ranch-2026
Fiat Fastback Impetus 2026 – https://www.rebimboca.com.br/single-post/test-drive-do-fiat-fatsback-impetus-hybrid-2026-na-tv-rebimboca
Fiat Cronos 2026 – https://www.rebimboca.com.br/single-post/ser%C3%A1-que-o-tempo-n%C3%A3o-passou-para-o-fiat-cronos
Fiat Fastback Audace 2025 – https://www.rebimboca.com.br/single-post/fiat-fastback-audace-hybrid-test-drive-com-pegadinha
Algumas antiguidades no blog Rebimboca no Globo
Fiat Idea Adventure – https://blogs.oglobo.globo.com/rebimboca/post/sem-medo-de-poeira-520955.html
Fiat CInquecento – https://blogs.oglobo.globo.com/rebimboca/post/pequenino-premiado-81613.html
Design da Fiat – https://blogs.oglobo.globo.com/rebimboca/post/da-reta-curva-da-curva-reta-346237.html
Fotos: divulgação, reproduções e arquivo pessoal
Fonte: Rebimboca Comunicação

