
Quando a governança deixa de proteger o mercado e passa a proteger seus controladores.
O sistema financeiro existe sobre um ativo invisível, porém indispensável: a confiança. Diferentemente de outros setores da economia, bancos operam essencialmente com recursos de terceiros, alavancagem e percepção de solvência. Quando essa confiança é artificialmente construída por meio da manipulação de números, estruturas contábeis questionáveis ou operações destinadas a mascarar a realidade econômica da instituição, deixa-se o campo da má gestão para ingressar no território da desgovernança.
Ao observar casos como o do Banco Santos, do Banco Master e do Banco Digimais, percebe-se um padrão recorrente que transcende as particularidades de cada instituição: a utilização da estrutura bancária não como instrumento de intermediação financeira saudável, mas como mecanismo de sustentação de interesses privados de seus controladores.
Embora os contextos sejam distintos, os três episódios suscitam uma reflexão relevante sobre a efetividade dos mecanismos de governança corporativa, supervisão regulatória e responsabilização dos administradores.
O Banco Santos: o caso clássico da fraude financeira sofisticada
O colapso do Banco Santos, em 2004, tornou-se um dos maiores escândalos bancários da história brasileira. Sob o comando de Edemar Cid Ferreira, a instituição apresentou ao mercado uma imagem de solidez que posteriormente revelou-se sustentada por operações fictícias, ativos superavaliados e manipulações contábeis.
A fraude não se limitava a esconder prejuízos. O objetivo era criar uma percepção artificial de solvência, permitindo a continuidade da captação de recursos junto a investidores e instituições financeiras. O caso evidenciou um problema estrutural: os mecanismos de governança existiam formalmente, mas estavam subordinados à vontade do controlador.
Conselhos, auditorias e controles internos mostraram-se incapazes de impedir que a instituição operasse durante anos em desconformidade com sua real situação patrimonial.
O resultado foi uma intervenção do Banco Central, perdas bilionárias e um forte abalo na credibilidade do mercado.
Banco Master: o risco da engenharia financeira permanente.
Décadas após o caso Banco Santos, o mercado passou a observar com preocupação o crescimento acelerado do Banco Master.
Embora as investigações e discussões ainda estejam em desenvolvimento, os questionamentos que surgiram vão além da mera análise prudencial.
O debate gira em torno da utilização intensiva de estruturas financeiras destinadas a sustentar crescimento, rentabilidade e liquidez em níveis que diversos analistas consideraram incompatíveis com o perfil de risco assumido. O ponto central não está apenas em saber se determinada operação era formalmente permitida pela regulamentação, mas se ela refletia substância econômica real.
Governança não é cumprir apenas o texto da norma. Governança é assegurar que os números apresentados representem fielmente a realidade da instituição.
Quando estruturas complexas passam a ser utilizadas para transferir riscos, ocultar fragilidades ou produzir indicadores artificialmente favoráveis, a governança deixa de ser um mecanismo de proteção e passa a funcionar como instrumento de legitimação.
Nesse contexto, surge uma questão inevitável: quantas operações eram destinadas a gerar valor sustentável e quantas existiam apenas para preservar uma narrativa de crescimento?
Digimais: quando a deterioração financeira encontra fragilidades de controle
O caso do Banco Digimais também levantou discussões relevantes sobre sustentabilidade de modelos de negócio, qualidade dos ativos e efetividade dos controles internos.
Embora possua características distintas dos demais casos, o episódio reforça uma percepção recorrente no mercado: muitas vezes os sinais de deterioração são conhecidos internamente muito antes de se tornarem públicos.
A questão central passa a ser compreender por que mecanismos de governança não conseguem produzir as correções necessárias antes que o problema atinja dimensões críticas.
Em diversas situações observadas no mercado financeiro brasileiro e internacional, o problema raramente surge da noite para o dia.
O que ocorre é um processo gradual de flexibilização dos controles, racionalização de riscos e construção de justificativas para decisões que jamais seriam aceitas em um ambiente de governança efetivamente independente.
O elo comum: a captura da governança
Apesar das diferenças entre os casos, existe um denominador comum.
Em todos eles surge a suspeita ou evidência de um fenômeno conhecido internacionalmente como “captura da governança”.
Nesse modelo:
Os controles permanecem formalmente ativos;
Os comitês continuam existindo;
Os relatórios são produzidos;
As auditorias são realizadas;
Mas a capacidade de contrariar os interesses do controlador desaparece.
A governança deixa de atuar como mecanismo de fiscalização e passa a funcionar como instrumento de validação.
O problema não é a ausência de regras.
O problema é quando as regras passam a ser interpretadas de forma conveniente para justificar práticas que beneficiam grupos específicos em detrimento da instituição, dos investidores, dos depositantes e do próprio sistema financeiro.
O impacto sobre o mercado financeiro
Toda vez que uma instituição bancária manipula sua percepção de risco, os efeitos ultrapassam seus próprios limites.
Os impactos atingem: investidores; depositantes; credores; acionistas minoritários; o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e o
sistema financeiro como um todo.
Cria-se um problema clássico de risco moral.
Enquanto os ganhos permanecem privatizados entre controladores e administradores, as perdas acabam socializadas por meio de intervenções, mecanismos de garantia ou deterioração da confiança sistêmica.
Em outras palavras, os incentivos ficam desalinhados.
Quem assume o risco nem sempre é quem suporta suas consequências.
O verdadeiro desafio regulatório
Após cada escândalo financeiro, surge a tendência de defender mais regulamentação.
Entretanto, a história demonstra que a simples criação de novas normas raramente resolve o problema.
O Banco Santos operava em ambiente regulado. O Master operava em ambiente regulado. O Digimais operava em ambiente regulado.
O desafio não está necessariamente na ausência de regras, mas na capacidade de identificar rapidamente quando a governança está sendo utilizada para ocultar, e não para revelar.
Isso exige:
Supervisão baseada em substância econômica;
Maior responsabilização de administradores;
Independência efetiva de conselhos;
Auditorias mais robustas;
Monitoramento contínuo de conflitos de interesse;
Aplicação tempestiva de medidas corretivas.
Conclusão
Os casos Banco Santos, Master e Digimais demonstram que a maior ameaça ao sistema financeiro não é necessariamente a fraude isolada ou a operação irregular específica.
A verdadeira ameaça surge quando a governança deixa de servir à instituição e passa a servir aos interesses daqueles que a controlam.
Quando números são maquiados, riscos são ocultados e controles tornam-se meramente decorativos, cria-se uma ilusão de solidez que inevitavelmente colide com a realidade.
Um mercado financeiro forte não depende apenas de capital, liquidez ou tecnologia.
Depende, sobretudo, da integridade de suas instituições.
E integridade não se mede pela existência de comitês, políticas ou relatórios. Mede-se pela capacidade de dizer “não” ao controlador quando o interesse particular ameaça o interesse coletivo.
A história demonstra que toda vez que essa capacidade desaparece, a governança deixa de existir — e o colapso passa a ser apenas uma questão de tempo.

