20 de julho de 2026
Veículos

O melhor no WSL de Saquarema sai das ondas para o off-road

Por Alexandre Kacelnik

Fotos de divulgação e internet: Diego Fernandes, COO da GWM, e Yago Dora – Divulgação

Yago Dora foi à praia de carona e voltou dirigindo um SUV novinho em folha. Isso porque a montadora chinesa GWM (Great Wall Motor) havia anunciado na semana passada que daria um Tank 300 ao vencedor (entre homens e mulheres, quem tivesse a melhor nota nas baterias finais) da etapa brasileira do circuito mundial de surfe (WSL), realizada em Saquarema (RJ), entre19 e 26 (hoje) de junho. Superando o italiano Leonardo Fioravanti, Yago, atual campeão mundial, faturou a etapa e o carro(acima) .


O Tank 300 (acima) é um jipão de 394 cv de potência e 75,5 kgfm de torque, e se anuncia como o primeiro veículo híbrido plug-in (PHEV) flex do mundo. Se não for a melhor, etanol e eletricidade é uma das combinações mais ambientalmente corretas do mercado, muito afinada com a mensagem do surfe profissional de respeitar e preservar a natureza como um todo e os oceanos em particular (veja informações completas sobre o modelo abaixo).

Tank 300 Flex-1

Somando o valor do prêmio ao campeão ao valor do carro (R$ 342 mil), o (a) surfista vencedor (a) vai levar para casa cerca de R$ 750 mil.


Os carros e o surf

Associar modelos e versões de automóveis ao esporte, aventura (e, indiretamente, à juventude) é quase um clichê no marketing do segmento, e não é de hoje. Daí que montadoras patrocinarem provas e atletas de surf, como faz hoje a GWM, é relativamente comum – e isso inclui, claro, oferecer a vencedores um veículo como parte da premiação.

De memória, cito aqui versões “surfeiras” históricas, como o VW Passat Surf (1978, no anúncio) e as algo longevas Parati Surf e a Saveiro Surf (abaixo). Lá fora, coisa semelhante costuma acontecer. Com uma rápida pesquisa (via IA), listo abaixo algumas dessas séries e versões, lançadas aqui no Brasil e lá fora, com a indicação (aproximada) do período em que foram produzidas.

É curioso (e se alguém souber o motivo, por favor, me diga) é que boa parte dessas séries especiais foi criada por montadoras francesas. E a parceria entre marcas do segmento do Surf, como Quiksilver e Rip Curl, com modelos Peugeot, Citroën e Renault chegou mesmo a ser uma tendência na Europa durante a primeira década dos anos 2000.

Remando a prancha para trás, para contextualizar

Pode parecer pouco para quem está acostumado a ler nos noticiários quanto ganham astros do futebol, do tênis ou da NBA, mas para mim, que trabalhei entre 1988 e 1994 no Alternativa Surf, a etapa brasileira do circuito mundial que era disputada na praia da Barra, no Rio de Janeiro, é um valor de (como diria o jogador Bruno Henrique) outro patamar.

Até a entrada da Mesbla (dona da marca Alternativa) como patrocinadora de uma etapa do circuito mundial, as etapas levavam o nome de marcas de surfwear, de nicho, como Hang Loose, Quiksilver, Billabong, Rip Curl e por aí vai. Alternativa também era uma marca de surfwear, mas uma marca de uma loja de departamentos.

A Mesbla subverteu a ordem global, pois nessa época, nas boas lojas de departamentos dos EUA, as Macy’s da vida, havia seções que vendiam as grandes marcas de surfwear, mas não marcas próprias. A influência do way of life do surfe até para quem morava a centenas de quilômetros do litoral – e não havia piscinas de ondas – era muito evidente e tinha que ser (com o perdão do trocadilho) surfada pelo mainstream.

O pessoal do surfe, mais até os brasileiros que os australianos, que mandavam na ASP (que depois veio a se chamar WSL) olhavam enviesado para nós, os haoles (ou pregos, como o carioca gostava de falar). As pautas que a gente, da In Press Assessoria de Imprensa, propunha, eram risíveis para a comunidade então fechada do surfe, mas eles não entendiam – ou não se importavam – que a gente estava levando o surfe para o espectador comum, que muitos anos depois a Globo passou a chamar internamente de Homer Simpson.O autor veste a camisa, um troféu da época em que cobria os campeonatos de surf no Rio

O Alternativa Surf tinha cobertura (paga) do Esporte Espetacular, que acabava gerando matérias ‘espontâneas’ no Jornal Nacional e Fantástico. O patrocinador convidava Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de Minas, enfim, os principais jornais do Brasil. Vale lembrar que não havia internet e o SporTV tem esse nome desde 1994.

Dezenas de milhares de pessoas se aglomeravam para ver astros do surfe, como Tom Curren Tom Carroll e depois Kelly Slater – que conquistou durante a etapa do Rio, em 1992, o primeiro dos seus 11 títulos mundiais – competirem contra os heróis locais Fábio Gouveia, Teco Padaratz e Victor Ribas.

A multidão estava na praia do Arpoador em 1975, quando o Rio sediou um dos eventos internacionais que serviram como teste para a criação do circuito mundial, mas era olhada – pela mídia e pelo mercado – como uma tribo exótica. Hoje, milhares se deslocam de todo o país para Saquarema, onde o público ao longo dos dias de evento chega as 400 mil pessoas. Mas o surfe é esporte olímpico, e o Brasil tem cinco campeões mundiais (Gabriel Medina, Adriano de Souza, Ítalo Ferreira, Felipe Toledo e Yago Dora), que venceram oito das últimas onze edições do circuito. A etapa brasileira se chama Vivo Rio Pro, e a Vivo não vende parafina.

A Mesbla, apesar da sua visão de futuro na área do surfe, quebrou ainda no século passado; a streetwear do skate superou em muito o surfwear na indústria da moda. E o surfe definitivamente é um esporte mainstream, com piscinas de ondas em condomínios premium-master-plus, onde pegar uma onda custa o mesmo que um transatlântico de sushi, e executivos C-Level postam suas surftrips com orgulho.+

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