2 de agosto de 2026
Carlos Leão

Xuxa no seu último voo

Quando a biografia deixa de combinar com quem a escreve

Toda rainha corre um risco.

Não o de envelhecer.

Mas o de esquecer por que recebeu a coroa.

Porque beleza muda.

A moda muda.

O corpo muda.

Mas a coerência… essa deveria envelhecer junto com a biografia.

Foi impossível assistir ao último voo da nave da Xuxa sem pensar nisso.

A internet passou os últimos dias discutindo o figurino da Xuxa. Uns chamaram de ousado. Outros de libertador. Muitos disseram que era vulgar.

Mas talvez estejamos discutindo a pergunta errada.

O problema não é quando uma mulher mostra o corpo.

O problema é quando uma figura pública deixa de ser coerente com a história que ela mesma construiu.

Existe uma diferença enorme entre ousadia e vulgaridade.

Elegância nunca significou esconder o corpo por vergonha. Significa entender que nem tudo precisa ser mostrado. Nem toda liberdade precisa ser exibida. Nem toda provocação acrescenta alguma coisa.

E isso vale aos vinte, aos quarenta ou aos sessenta e três anos.

Xuxa continua linda. Tem um corpo invejável e uma vitalidade admirável.

A idade definitivamente não é o assunto.

A questão é outra.

Há alguns anos ela passou a defender causas, adotar posicionamentos e fazer discursos que parecem caminhar numa direção diferente daquela imagem que construiu durante décadas.

Quem hoje condena a sexualização precoce das crianças precisa compreender que a coerência também comunica.

Porque figurino também fala.

E às vezes fala mais alto que o microfone.

A antiga Rainha dos Baixinhos sempre foi muito mais do que uma apresentadora. Foi referência para gerações inteiras. E quem ocupa esse lugar carrega um peso que não desaparece quando as luzes do palco se apagam.

Talento coloca alguém no trono.

Mas só a confiança mantém a coroa na cabeça.

Talvez seja por isso que eu olhe para Bruna Lombardi e veja um caminho completamente diferente.

Aos setenta e cinco anos, continua linda.

Mas o que impressiona não é a beleza.

É a inteligência.

É a discrição.

É a elegância.

É aquela rara capacidade de ocupar qualquer ambiente sem precisar chocar ninguém para ser notada.

No fim das contas, a diferença entre as duas não está na idade.

Está nas escolhas.

O tempo envelhece o rosto de qualquer rainha. O que derruba uma coroa nunca é a idade, mas a incoerência. O tempo leva a juventude de todas elas. Mas nenhuma ruga é tão profunda quanto aquela que aparece quando uma biografia deixa de combinar com quem a escreve.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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