28 de setembro de 2026
Carlos Leão

Bet’s proibidas: quem para a conta?

As BETS nunca deveriam ter sido regulamentadas. Deveriam ter sido banidas.

Eu escrevi aqui, há alguns meses, que o problema do jogo começa quando ele vira esperança de vida.

E continuo pensando exatamente assim.

As BETS trouxeram um problema social sério: gente se endividando, famílias sofrendo e pessoas apostando dinheiro que não têm na esperança de mudar de vida.

Isso precisa ser enfrentado.

Mas uma coisa é combater o vício.

Outra é simplesmente puxar a tomada.

Em dezembro de 2023, o Brasil, ao invés de bani-las, regulamentou as BETS pela Lei 14.790.

Criou regras, fiscalização e um mercado legal.

E agora, quase três anos depois, uma Medida Provisória praticamente vira a mesa.

De uma hora para outra.

Sem transição. Sem tempo para contratos serem reorganizados. Sem que toda uma cadeia econômica consiga respirar.

E aqui aparece uma pergunta incômoda.

A medida foi anunciada apenas nove dias antes do primeiro turno das eleições.

Isso, naturalmente, permite pensar — ainda que apenas como hipótese — em uma medida de caráter eleitoreiro.

Afinal, proteger os endividados, os viciados e suas famílias é uma bandeira socialmente irresistível.

Mas será que uma boa causa justifica qualquer maneira de executá-la?

E aí aparece o futebol.

Em 2026, 14 dos 20 clubes da Série A tinham uma BET como patrocinadora máster, em contratos que movimentam centenas de milhões de reais.

Dinheiro que chega aos jogadores, funcionários, fornecedores, publicidade, material esportivo e a uma enorme cadeia de serviços que, do dia pra noite, ficaram impiedosamente no ora veja.

Não estou dizendo que o futebol precisa das BETS.

Estou dizendo que, quando você retira centenas de milhões de reais de uma cadeia econômica de uma hora para outra, alguém paga essa conta.

E geralmente não é quem assina a canetada.

É o clube. É o funcionário. É o fornecedor. É o pequeno empresário.

E existe uma ironia nisso tudo.

O mesmo Estado que ontem disse:

“Pode, desde que seja regulamentado.”

Hoje diz:

“Não pode mais.”

Talvez o problema não esteja em combater as Bet’s. Talvez esteja na maneira de fazer isso.

Porque combater um vício é uma coisa. Desorganizar um mercado inteiro, de repente, é outra.

E existe ainda uma possibilidade: esse tiro pode sair pela culatra.

Não estou falando apenas de eleição. Estou falando de futebol.

A reação dos clubes já começou.

Porque entre a permissividade irresponsável e a proibição abrupta existe uma palavra pouco popular nos tempos atuais:

Equilíbrio.

E esse, infelizmente, não dá para apostar.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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