12 de junho de 2026
Carlos Leão

O inglês de Wilton e o português dos críticos

A aptidão aguçada para a crítica ferina parece dom do povo

Nós brasileiros temos uma habilidade impressionante: transformar qualquer assunto em uma oportunidade para uma crítica ferina.

Comentar o comportamento contemporâneo é uma arte. Eu faço isso toda hora. Mas transformar comentário em ataque gratuito, chacota, gozação chula e humilhação é outra coisa.

Pra quem não assistiu, na abertura da Copa, o árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio precisou explicar em inglês uma decisão do VAR. Expulsou corretamente um jogador africano após uma falta grave.

E aí aconteceu o mais brasileiro dos fenômenos: em vez de discutirem a arbitragem, discutiram o inglês.

As redes foram tomadas pelos especialistas em pronúncia. Uma multidão de professores de Oxford e membros titulares da Academia Internacional da Pronúncia apareceram de repente. Os mestres da fonética. Os imperadores da entonação. Os cardeais dos sotaques nativos. Até o papa da dicção resolveu dar sua bênção.

Tudo porque o inglês de Wilton não era perfeito.

Não era mesmo. Mas era compreensível. E isso bastou.

Bilhões de pessoas, mundo afora, entenderam. Quem estava no estádio entendeu. A comunicação aconteceu.

E aí eu lembrei do nosso querido Joel Santana, que virou personagem justamente pelas entrevistas em inglês quando treinava fora do Brasil.

O inglês dele também não era de Shakespeare.

Mas ele se comunicava.

E comunicação é isso: ser entendido.

Pouco importa que Wilton tenha tropeçado, errado uma palavra ou carregado o sotaque brasileiro. O homem estava ali apitando a abertura de uma Copa do Mundo. Uma honra reservada a pouquíssimos árbitros na história. Em 100 anos, 25 árbitros tiveram essa ventura profissional.

Ele chegou lá pelo trabalho dele.

Pelos méritos dele.

Mas uma parte do Brasil preferiu analisar a pronúncia.

E geralmente essa crítica vem de quem sabe falar um “yes”, um “no” e um “good morning” com sotaque de novela.

Os verdadeiros poliglotas, aqueles do “I have a book”, estavam ocupadíssimos julgando o inglês alheio.

Chacrinha, um dos grandes filósofos da humanidade, já avisava: “Quem não se comunica se trumbica.”

Wilton se comunicou. Chacrinha, onde estiver, está orgulhoso dele.

E talvez o problema não seja o inglês do cara.

Talvez seja o nosso velho complexo de vira-lata.

Certamente, você não foi criticado por brasileiros, Wilton.

Foi criticado por moradores do Brasil.

Carlos Eduardo Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

Cirurgião Plástico em BH e Cronista do Blog do Leão

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