
Perdi a conta da última vez que segurei a camisa da seleção com alguma paixão
A apresentação da convocação da Seleção Brasileira foi tão teatral que, em alguns momentos, eu achei que tinha errado o canal e entrado na estreia de uma novela mexicana produzida pela CBF.
Luzes. Suspense. Cantoria. Entrada triunfal. Uma cafonalha. Convidados internacionais. Ex-jogadores. Apresentadores daquela conhecida emissora. Quatorze países representados. Um evento tão cinematográfico que faltou só alguém anunciar: “em instantes, cenas dos próximos capítulos…”
E no centro de tudo, a cara do Ancelotti, tadinho. Um italiano experiente, vencedor de tudo, olhando aquela produção com a expressão de quem pensava: “Madonna mia… mas eu vim aqui treinar futebol ou apresentar o Oscar?”
Mas Confesso uma coisa: fazia muito tempo que eu não assistia uma convocação da Seleção com ansiedade.
Não pela convocação.
Mas Pelo Neymar.
Hoje no café da manhã perguntei à Thaïs, minha mulher e à minha filha Flávia : “Citem um jogador da Seleção.” Resposta imediata: Neymar.
Só.
E talvez aí esteja o problema.
Porque nossa Seleção hoje parece uma franquia internacional. A maioria joga fora, um técnico italiano — competente, claro — e um monte de jogadores que o brasileiro conhece pelo tradicional “ouvi dizer”.
Cadê o DNA? Cadê a identificação? Cadê o sujeito que a gente xinga, ama, perdoa e volta a amar?
A verdade é que a convocação não era da Seleção.
Era do Neymar.
E Ancelotti e a CBF entenderam isso. Fizeram um teatro digno de última semana de novela. Deixaram o suspense pro capítulo final porque sabiam: o país não queria saber dos 26 convocados.
Queria saber de um.
Neymar.
E o mais impressionante: eles conseguiram algo raro. Reacenderam uma coisa que eu achei que tinha acabado.
Esperança.
Aliás, eu não aguento mais ouvir “hexa”. Há vinte e quatro anos é hexa, hexa, hexa… Se dependesse de mim, pulava direto pro hepta.
Mas confesso uma coisa: hoje essa camisa amarela voltou pro meu ombro.
E talvez tenha sido esse o verdadeiro efeito Neymar. Ancelotti não convocou só um jogador.
Convocou o Brasil.

