19 de maio de 2026
Fernando Gabeira

A direita e seu longo deserto

Na semana do inferno astral de Flávio Bolsonaro, com opiniões abundantes no ar, meus pensamentos me levaram ao passado, às primeiras eleições que acompanhei. Lembro-me do Brigadeiro Eduardo Gomes e de como era mencionado: brigadeiro, bonito e solteiro.

Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes, fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas. Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase meteórica, pois não se reelegeu.

Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os sentimentos que Bolsonaro mobilizou.

A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.

A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos. Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale, pois será seu último mandato.

Movimentos como a transição energética podem ser continuados em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das mudanças climáticas.

Uma aceitação maior da revolução digital na prática do governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.

É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.

Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.

A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.

Fonte: Blog do Gabeira

Fernando Gabeira

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

Jornalista e escritor. Escreve atualmente para O Globo e para o Estadão.

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