
“Contra o Lula, voto até no capeta”, disse um leitor na semana passada. A hipérbole me pegou, confesso. Esse é o espírito do nosso tempo. E que tempo! Exagerado para além da lógica. Obcecado por um sucesso que sai por aí atropelando valores. Um tempo em que até mesmo a melhor das intenções está contaminada pelo ressentimento e medo. No qual a esperança ganha contornos diabólicos. Tudo consequência do fomento a uma indignação que, me parece, fugiu ao controle. E virou raiva cega.
Irracional. Instinto.
Condenar o leitor indignado e seduzido por uns ares de Maquiavel é tentador. Dá vontade de passar sermão. Mas quem sou eu? Para se ter uma ideia, quase vim aqui hoje falar de “Os Demônios”, de Dostoievski. Dá vontade de fazer associações históricas, de provocar e de comer pipoca no alto de uma torre de marfim daquelas bem altas e proverbiais. De rir de tantas e tão coloridas contradições. De gritar. Eu tinha até uma frase bonita para usar no texto. Um aforismo que me ocorreu mas que, no segundo seguinte, ao me dar conta de que quem está sob o encanto da raiva se perde no caminho estreito da virtude, esqueci. Ou será que era esse?
Sertão
Uma coisa é certa: quem ainda se interessa pelo ser humano neste Brasil de 2026 vai ter que tentar entender, não sei como, de algum jeito, se vira, cara!, vai ter que tentar entender como chegamos a este ponto em que a filiação política do lado que defendia a liberdade individual contra a tirania coletivista virou também ela uma forma de tirania. E coletivista, ainda por cima! De tal modo que, fora da política, é como se o sujeito tivesse morrido ou no mínimo perdido todas as suas referências numa realidade maniqueísta em que a esquerda é o mal absoluto e a direita é o bem também absoluto.
E aguenta o tranco! Porque é um mundo duro, esse em que vivem os que transformaram a política em identidade. É solitário, apesar da multidão. Ensimesmado. É uma realidade própria, impermeável à verdade. É um sertão que tem lá seus encantos, mas também suas ameaças. Tem paixão e tem neblina. Legião. E, no final disso tudo, tem a dúvida, quando não o arrependimento e o remorso pelo mal que se comete na certeza diabólica de que um líder político, mesmo que ele seja o capeta, conseguirá libertar a nação desse jugo que a cada dia que passa me parece mais e mais voluntário.
Fonte: Gazeta do Povo

