
Chega uma certa idade em que não amadurecemos mais. Ficamos seletivos. Críticos. Reclamões? Talvez.
Confesso que escrever sobre comportamento contemporâneo é uma prática literária fascinante mas, ao mesmo tempo, um ofício perigoso.
Porque a fronteira entre cronista e reclamão é estreita. Muito estreita. Confundem-se, diria, em algumas circunstâncias.
Você começa observando pequenos hábitos humanos e, quando percebe, já está incomodado com gente que diz ‘zap-zap’ ao invés de WhatsApp, segura seu braço para conversar, mastiga um indefectível chiclete por horas com a boca entreaberta ou leva garrafinha d’água até para ir ao correio.
E aí mora o perigo.
Porque toda crítica em primeira pessoa parece confissão.
O leitor não pensa: ‘que interessante observação social’.
Ele pensa:
‘Meu Deus… esse homem implica com tudo.’
E talvez pense com certa razão.
Porque o cronista é aquele sujeito que começa observando os outros… e, de repente, percebe que virou objeto da própria observação.
O problema é que tudo começa com boas intenções.
O cronista diz a si mesmo que pretende apenas observar a vida, registrar costumes, entender seu tempo. Uma atividade quase científica.
Mas a convivência humana é traiçoeira.
Você passa anos anotando pequenas manias alheias e, sem perceber, desenvolve sintomas.
Quando se dá conta, já está incomodado com quem responde ‘imagina!’ ao ‘muito obrigado’, com quem manda ‘um beijo no seu coração’ e, nos casos mais graves, já começa a analisar o caráter das pessoas que prendem a ponta da gravata dentro da calça.
E é aí que surge a dúvida:
Será que virei um reclamão?
Porque o romancista tem uma vantagem. Ele se esconde atrás dos personagens.
Já o cronista assina a própria cara embaixo da implicância.
Mas existe uma diferença importante:
o reclamão quer encerrar a conversa.
O cronista quer abri-la.
Ou pelo menos é isso que eu repito para mim mesmo.
Porque, com certa inquietação, começo a suspeitar que talvez todo cronista carregue dentro de si… um pequeno ranzinza metodológico.”
Será? Mas sigo firme!

