29 de abril de 2026
Adriano de Aquino

Charlie Kirk 2

Minhas reflexões que sucederam o covarde assassinato de Charlie Kirk, podem parecer aleatórias mas, para mim, elas se orientam um diagnóstico particular, baseado nos eventos precursores do que hoje convencionou-se chamar de ‘novo normal’.

Um dos marcos dessa vertente é o famoso romance não ficção “A sangue Frio” de Truman Capote. O livro foi publicado em 1965, no mesmo ano em que Perry Smith e Dick Hikcok, os ‘frios’ assassinos, foram executados.

Eles foram presos, julgados e condenados pelo cruel assassinato da família do fazendeiro Herbert/Bonnie Clutter e seus dois filhos, residentes Holcomb, Kansas.

No romance, Capote traça o perfil de Perry, um dos assassinos, como um sujeito “sonhador” que teve uma criação conturbada e violenta que acreditava que a vida lhe golpeava dura e injustamente (sic) e de Dick, considerado o ‘cérebro’ da dupla, um sujeito violento que queria apenas saquear a familia, pular fora da cena e desaparecer.

O estilo aprimorado e a precisão factual desse romance não ficção fez de – A sangue frio – um marco do jornalismo e da literatura dos Estados Unidos. As sutis reflexões do autor sobre as ambiguidades do sistema judicial do país se desdobrou em indagações sobre o lado obscuro do sonho americano.

Por que faço ilações desse romance com os desdobramentos posteriores do que hoje se tornou o ‘novo normal’, supostamente humanizado, colocado em prática nas audiências de custódia?

Quando penso nesse instrumento da sociologia do direito, logo me vem à mente o pavoroso assassinato da Iryna Zarutska, ferida e morta num vagão de metro e a estranha ‘frieza’ dos passageiros.

Perry e Dick, foram sentenciados à morte e a pena foi cumprida. Hoje, sem o talento literário de Truman Capote, mas com a crueldade somada de Perry e Dick, o que vemos são psicopatas ‘virtuais’ comemorando a morte de vítimas indefesas e elogiando assassinos covardes.

A ‘lógica do assalto’, conceito de um simplismo inacreditável defendido por uma pretensa filósofa tabajara, acaba de escalar status para ‘lógica do assassinato’.

Não se trata aqui de abordar os motivos do atormentado Perry – um escravo das suas frustrações – e de Dick, criminoso pragmático que visava apenas saquear uma família e depois desaparecer. Não!

A internet, ainda bem, trouxe para a superfície, e deu visibilidade, a uma malta de energúmenos cruéis, abrigados nos coletivos digitais que se orgulham em mostrar as próprias caras, injuriar as vítimas e reencarnar em êxtase o perfil do público nas plateias do antigo circo romano.

Assim sabemos quem eles são!

Eles torcem, comemoram e incentivam a morte de pessoas por suas ideias e opiniões.

Nesse ambiente hostil, a liberdade e a vida humana não têm valor.

Prevejo o destino de Tyler Robinson nesse quadro obscurantista.

Logo veremos um jornalista medíocre tentar vestir o figurino Capote, despejando textos de baixa qualidade nas redações dos jornalões em busca de audiência.

Um escritor mercenário já deve estar preparando um argumento literário visando um prêmio e que logo se converterá em roteiro cinematográfico sensacionalista.

Anotem como eventos mais previsíveis: milhares de cartas de fãs serão enviadas a Tyler no cárcere. Bandos de meninas, mulheres e trans irão fazer vigília nos portões da penitenciária. Algumas fãs o pedirão em casamento etc etc e etc…

Tyler Robinson foi indiciado na terça feira (16). Em breve estará depondo na Corte.

Em Utah vigora a pena de morte.

Ainda que eu seja contra a pena de morte, o fato é que essa possibilidade gera grande frisson popular e a imprensa surfa na onda das audiências para shows de tribunais.

Sabemos a tendeêcia da grande imprensa.

Tyler assassinou um ativista conservador.

Kirk, a pessoa admirável que, na prática, se desviou do método ‘influenciador virtual’, comparecendo e debatendo, presencialmente, suas ideias nos campus universitários, colégios e centros culturais, revigorou a prática fundadora da Ágora, um dos pilares da democracia grega.

Ora, Charlie Kirk, um conservador cristão ascendente, exercendo atração na juventude no celeiro da militância woke, identitária e progressista, se tornou uma ameaça para o ativismo acadêmico, hoje dominante nas universidades, no jornalismo e nos círculos da justiça mundo afora.

O julgamento e a decisão judicial que condenará Tyler, seja a pena que for, oxigena não apenas o debate público sobre a ostensiva violência na política.

Não apenas o julgamento. As reações públicas, no plano real e virtual, poderão dar consistência, crítica, concreta e determinante, sobre as perspectivas e o futuro dos valores e princípios da civilização ocidental.

Sobretudo, porque, no sentido oposto ao do senso comum, não há retorno à barbárie arcaica, fronteiriça aos princípios republicanos civilizatórios das antigas Grécia e Roma.

Não sei que nome dar a um devastador fenômeno social pós civilizatório.

Nas minhas divagações antevejo algo mais violento, cruel e desumano do que todos os antecedentes históricos.

Ilustração de um pesadelo:

‘Laranja mecânica’, romance ficcional de Anthony Burguess, clássico do cinema de Stanley Kubrick, que aborda a recuperação e reinserção social de um psicopata. Hoje, naturalizado no ‘novo normal’.

Adriano de Aquino

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

Artista visual. Participou da exposição Opinião 65 MAM/RJ. Propostas 66 São Paulo, sala especial "Em Busca da Essência" Bienal de São Paulo e diversas exposições individuais no Brasil e no exterior. Foi diretor dos Museus da FUNARJ, Secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas /FUNARTE e outras atividades de gestão pública em política cultural.

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