21 de maio de 2022
Walter Navarro

Seixos, pizza e Rock’n’roll


Porque sexo virou gênero, agora só falo de seixos. Palavra bonita que ainda lembra mar, conchas, ondas, algas, piratas e sereias de vida fácil.
Seixos também habitam os rios. Aliás, seixo é coisa tão interessante que qualquer pedregulho, arredondado pela ação de águas, pode virar seixo. Até cacos de vidro e pingos de tijolo. Seixos rolantes, Rolling Stones…
Agora faltam a pizza e o Rock.
Bom, era sábado, como hoje é domingo.
Como no poema do Vinicius de Moraes, “O Dia da Criação”.
“Hoje é sábado, amanhã é domingo… Impossível fugir a essa dura realidade. Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios. Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas. Todos os maridos estão funcionando regularmente. Todas as mulheres estão atentas. Porque hoje é sábado…”.
E ontem, sábado, dia 19 de outubro, foi aniversário do mesmo Vinicius.
Como comemorar esta data querida?
Como ele gostava, entre amigos, claro.
Amigos falando das boas coisas da vida: mulheres impossíveis, possíveis na medida do possível, incríveis, ingratas; futebol de nossos pernas de pau; política de nossos caras de pau. Falamos da chuva e do bom tempo, como querem os franceses.
A chuva ameaçava, tomava um susto e voltava para as nuvens.
E nós, na cerveja e no pastel de camarão, outra indireta homenagem a Vinicius, que me ensinou:
“Para viver um grande amor… Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?”.
Infelizmente a vida é um esvaziar de mesas. E neste sábado de calor e chuva assustada, tímida; sobramos eu e Alexandre Bonatto, chegado meu, “brother”, figuraça, um dos melhores papos do Velho Oeste.
Alexandre convidou-me para singela lasanha, em sua propriedade, com vista para o mar………….de montanhas de Barbacena.
Convite irresistível, para cerveja e orquestra.
A conversa boa voltou a boiar com inveja das folhas mortas na piscina ao lado. O céu fechando, a chuva querida pedindo passagem para molhar as palmeiras selvagens e imperiais do grande jardim de filme italiano.
E a trilha sonora, da melhor qualidade, girava em torno dos clássicos do Rock.
O bicho pegou, a seguir, com o DVD do Supertramp, ao vivo, em Paris, 1979.
Que maravilha! Mesmo sem Jorge Ben.
Era só o que faltava para rodar os seixos da memória e chuva perder os modos, os noves e a vergonha na cara.
Voltei ao longínquo ano de 1974 ou 1975.
O Supertramp acabara de lançar seu planetário sucesso, “The Crime of the Century”.
Quem me aplicou este disco, vinil, evidentemente; foi primo Robinson, mais velho que eu, na varanda de sua casa, em Juiz de Fora, terra de Adélio.
Aos 12 ou 13 anos, convenhamos, foi uma bela descoberta. Ainda mais para mim, bobo que só ouvia “disco de novela”. Trilhas sonoras da Globo.
Gostei muito, gosto até hoje, mas não comprei o disco. Ficou em uma de minhas gavetas mentais, lá no fundo.
Um ano depois, dezembro de 1976, de novo em Minas, mais uma vez passando férias, outro primo querido e também mais velho, Oyama, escancarou outras janelas.
A grande diferença é que ele não se contentou em me apresentar Chico Buarque, ele praticamente me obrigou a comprar seu novo disco, “Meus Caros Amigos”.
Depois dessa e desse, realmente, minha vida ficou bem mais rica, interessante e perigosa. Devorei a melhor música do mundo daquela época. Chico me apresentou a Milton, Caetano, Gil, Tom Jobim e claro, Vinicius de Moraes.
O Clube da Esquina, o Jazz e a música francesa demoraram um pouco mais, mas estava de ótimo tamanho.
O Rock, praticamente perdeu-se no espaço, como aquela capa do mesmo “The Crime of the Century”.
E olha que, enquanto eu mergulhava em Cartola, Pixinguinha, Toquinho, Edu Lobo, Francis Hime, etc; meu irmão já curtia The Doors e David Bowie, que eu achava meio “esquisitão”…
O que tem que acontecer acontece e aconteceu, de novo, no convívio sem par com a vida inteligente e alheia.
Claro que Beatles e Stones já frequentavam meu toca discos. Mas a MPB era prepotente, onipotente e onipresente.
Até que um dia, desta feita em Campinas, onde eu vivia, lá pelos idos de 1977, amigo Fábio Osse me injetou Genesis e Yes na veia…
Fui ficando como o diabo gosta e aproximando velozmente o violão das guitarras elétricas.
O tiro de misericórdia aconteceu com o saudoso Marcelo Furtado, conhecido pela alcunha de Chamberléu… Em seu apartamento, ele advertiu: “Walt, escuta isso, olha como este cara grita ‘… Cause she is my girl’”.
O cara era Robert Plant e seu Led Zeppelin, em “I’m Gonna Crawl”.
Pronto, entreguei as armas.
Pronto, acabo de entregar minha promíscua, prolixa e profícua relação incestuosa com o Rock.
Ops! Uma namorada, Claudia, arquiteta, deu outra deliciosa contribuição. De mãos dadas, dedos bobos, cometas percorrendo o céu da boca, no escurinho do cinema: “The Wall”, o filme, Pink Floyd.
Os anos seguintes, os de faculdade, foram também generosos: The Cure, The Smiths, REM, etc.
E 20 anos depois do primeiro Supertramp, em Paris, vi alguns, ao vivo: Stones, Paul McCartney – e toda a plateia cantando parabéns para mim, porque dia 9 de outubro também é aniversário de John Lennon – The Cure, Morrissey, Morphine e David Bowie, este, duas vezes.
Enquanto fazia esta viagem, Alexandre confessou ter esquecido o principal: o queijo para salpicar a lasanha.
A solução foi assassinar um resto de metade de pizza irmãmente.
PS: E foi assim que Vinicius comemorou seu aniversário com Elvis Presley; como do jeito mais natural, dois carinhos se procuram.
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Jornalista, escritor, escreveu no Jornal O Tempo e já publicou dois livros.

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