
A campanha eleitoral ainda nem atingiu seu momento mais intenso e já surgem as primeiras declarações que desanimam quem acredita na democracia. Lula diz que ainda não sabe se participará dos debates. Flávio Bolsonaro responde que, se Lula não for, ele também não irá. A impressão é de que os candidatos discutem entre si as regras de um jogo que, na verdade, pertence ao eleitor
Lula afirma que ainda não sabe se participará dos debates. Flávio Bolsonaro responde que, se Lula não for, ele também não irá. E o eleitor? Esse, como sempre, parece ser o último a ser consultado.
Fugir do debate pode ser uma estratégia eleitoral. Mas também é uma forma de empobrecer a democracia.
Os debates eleitorais não existem para satisfazer o ego dos candidatos nem para atender à conveniência das campanhas. Existem para servir ao eleitor. São um dos poucos momentos em que os postulantes aos cargos públicos são confrontados diretamente por adversários, jornalistas e, sobretudo, pelas próprias contradições.
Certamente não são um favor prestado pelas emissoras de televisão, nem um espetáculo para elevar a audiência. O debate é um dos mais importantes instrumentos de informação do eleitor. É nele que o marketing perde força, o teleprompter desaparece, os discursos cuidadosamente editados cedem espaço ao improviso e os candidatos precisam demonstrar conhecimento, equilíbrio e capacidade de responder a questionamentos inesperados.
Em uma democracia, não basta fazer comícios para plateias simpáticas, gravar vídeos cuidadosamente editados ou conceder entrevistas previamente negociadas. Governar exige responder a perguntas difíceis, explicar propostas, justificar decisões passadas e demonstrar preparo para enfrentar críticas.
Quando um candidato decide não comparecer a um debate, não está apenas recusando um convite de uma emissora. Está privando milhões de brasileiros do direito de comparar ideias, avaliar argumentos e conhecer, sob pressão, quem pretende administrar o país.
Fugir do debate é sim uma covardia institucional e um crime contra a informação. O eleitor fica refém de pílulas de redes sociais, cortes editados pelo marketing e horários eleitorais plastificados. É no debate sem filtro, no imprevisto da réplica, que a máscara cai, a oratória se providencia e o candidato mostra se tem estofo ou se é apenas um produto de estúdio.
É curioso que a Justiça Eleitoral imponha uma infinidade de regras às campanhas — limites de propaganda, prestação de contas, prazos, documentos e obrigações de toda natureza —, mas trate a presença em debates como mera faculdade. Talvez seja hora de discutir se isso faz sentido.
Não seria exagero exigir a participação dos candidatos em um número mínimo de debates oficiais. Quem pretende exercer o cargo mais importante da República deveria estar disposto, obrigatoriamente, a defender suas ideias diante dos adversários e da população. A recusa injustificada poderia, ao menos, acarretar alguma sanção eleitoral proporcional.
É evidente que essa proposta suscita questões constitucionais e de liberdade política. Qualquer mudança teria de respeitar os direitos fundamentais e o princípio da igualdade entre os candidatos. Ainda assim, vale o debate: até que ponto é aceitável que alguém peça o voto de milhões de brasileiros sem se submeter ao principal instrumento público de confronto de ideias?
Nada mais natural, portanto, que quem deseja receber esse poder tenha a obrigação moral — e talvez um dia também legal — de comparecer ao principal palco democrático para responder perguntas, explicar propostas e defender suas ideias.
Se o TSE não pode obrigar a presença por falta de previsão legal, a conta deveria vir direto da urna. Candidato que corre do debate deveria ser punido pelo próprio eleitor com o desdém e a perda de voto. Mas, enquanto a polarização cega continuar perdoando a omissão dos seus estimações, a fuga do palco principal vai continuar sendo tratada pelas mentes brilhantes do marketing como “estratégia inteligente”. Inteligente para eles; um acinte para nós.
Porque quem foge do debate não demonstra apenas cautela eleitoral. Demonstra, sobretudo, desprezo pelo direito que o eleitor tem de conhecer, comparar e escolher.

