31 de agosto de 2026
Editorial

A diferença entre perguntar e interrogar

É impressionante como o jornalismo pode mudar de comportamento dependendo de quem está sentado diante das câmeras.

As recentes entrevistas dos principais presidenciáveis no Jornal Nacional deixaram transparecer, de forma nítida, dois pesos e duas medidas por parte da bancada do telejornal. Que surpresa, não? A condução das conversas pelos apresentadores Renata Vasconcellos e César Tralli escancarou um tratamento nitidamente desigual entre o atual presidente, Lula e o senador Flávio Bolsonaro.

Há entrevistas em que o jornalista pergunta. Há outras em que parece estar apenas cumprindo tabela. E, quando se assiste às entrevistas de Lula e Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional, a sensação deixada por muitos espectadores é a de que os critérios de cobrança não foram exatamente os mesmos.

Com Lula, prevaleceu um ambiente quase protocolar. Perguntas previsíveis, tom civilizado, pouca insistência quando as respostas escapavam do que havia sido perguntado e uma condução que, em vários momentos, pareceu mais preocupada em preservar a entrevista do que em confrontar o entrevistado. As perguntas foram feitas, respostas foram dadas — nem sempre exatamente respondidas — e a conversa seguiu seu curso com uma placidez que faria inveja a um chá das cinco.

Com Flávio Bolsonaro, a atmosfera foi outra. O tom subiu, as interrupções apareceram com maior frequência e os entrevistadores demonstraram muito mais disposição para contestar respostas, exigir esclarecimentos e colocar o candidato diante de assuntos incômodos. O jornalismo de confronto, que alguns consideram indispensável, apareceu com intensidade e uma disposição muito maior para não aceitar determinadas respostas como definitivas.

A questão não é defender que Flávio devesse receber tratamento privilegiado. Muito pelo contrário: candidato a presidente deve ser questionado, confrontado e cobrado. O problema surge quando a mesma régua não é aplicada ao outro candidato. O jornalismo pode ser duro. O que não pode é ser seletivo na dureza.

O espectador ficou com uma pergunta inevitável: por que o rigor não apareceu com a mesma intensidade nos dois casos? Não há problema algum em pressionar Flávio Bolsonaro. O problema foi não pressionar Lula da mesma maneira. Afinal, jornalismo não deveria funcionar com dois controles diferentes: um para candidatos amigos e outro para candidatos adversários.

E houve ainda um momento particularmente desagradável na entrevista de Lula. Ao ser questionado por Renata Vasconcellos, Lula resolveu partir para cima da própria entrevistadora. Poderia ter discordado da pergunta. Poderia ter considerado a premissa equivocada. Poderia simplesmente ter respondido que não concordava. Mas preferiu criticar diretamente Renata. Na íntegra:

“Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente”. Você poderia dizer: Presidente Lula, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superávit primário durante oito anos do seu primeiro mandato. A imprensa nunca me pediu desculpas pelas mentiras”, afirmou Lula para, em seguida, elevar o tom: “A imprensa brasileira sabe que produziu um monstro (sic) que é o Moro e o Dallagnol”.

A deselegância não está em Lula discordar da pergunta. Isso seria absolutamente legítimo. O problema está no “uma jornalista da tua qualidade, da tua competência”, seguido da explicação de como ela deveria ter formulado a pergunta. A frase tem uma aparência de elogio, mas funciona, no contexto, como uma reprimenda pública: “você é competente, portanto deveria ter perguntado de outra maneira”.

E há um detalhe ainda mais interessante: Renata não perguntou sobre o passado econômico de Lula; perguntou sobre o futuro da dívida pública. A resposta de Lula, portanto, começou contestando a forma da pergunta e deslocando a discussão para aquilo que ele gostaria que fosse perguntado. Não por acaso, a jornalista Natuza Nery – da própria Globo – classificou o episódio como “mansplaining”(*), justamente porque, na avaliação dela, Lula tentou ensinar Renata a fazer o próprio trabalho.

Lula, que possui décadas de experiência política e sabe perfeitamente o peso de uma palavra dita diante de milhões de brasileiros, poderia ter respondido à pergunta sem transformar a entrevistadora em alvo. A discordância fazia parte do jogo. A deselegância, não!

Há uma diferença importante entre ser firme e ser grosseiro. Entre contestar uma pergunta e desqualificar quem a formulou. Entre responder à jornalista e tentar colocá-la na condição de acusada. Renata Vasconcellos, registre-se, estava ali para fazer perguntas. Não para ser julgada pelo entrevistado. Discordar do jornalista faz parte da democracia. Desrespeitá-lo, não! E existe uma diferença considerável entre firmeza e falta de educação.

Flávio, por outro lado, recebeu uma entrevista muito mais agressiva. E, goste-se ou não dele, é preciso reconhecer quando alguém consegue permanecer relativamente firme diante de uma bateria de perguntas e interrupções. É aí que aparece a questão central.

De novo, não estou defendendo que Flávio seja tratado com delicadeza. Estou defendendo que Lula não seja tratado com delicadeza como foi. É diferente!

A imprensa não precisa ser simpática com candidato algum. Precisa ser imparcial na cobrança. Se Flávio merece dez perguntas difíceis, Lula as merece também. Se uma resposta de Flávio precisa ser interrompida para ser esclarecida, a de Lula também precisa. Se o jornalista pode insistir com um, pode insistir com o outro. Caso contrário, estamos diante de dois pesos e duas medidas.

O eleitor brasileiro não precisa de entrevistadores que tenham candidatos preferidos. Precisa de entrevistadores que tenham perguntas que incomodam todos os candidatos igualmente. Porque, no fim das contas, a melhor entrevista não é aquela em que o jornalista demonstra que gosta ou não gosta do entrevistado. É aquela em que o telespectador termina a entrevista sabendo mais sobre o candidato do que sabia antes.

E, nesse quesito, a comparação entre Lula e Flávio deixou uma impressão difícil de ignorar. Com um, o Jornal Nacional pareceu entrevistar. Com o outro, pareceu interrogar. E talvez seja justamente essa a pergunta que deveria ser feita ao próprio Jornal Nacional: por que a régua do jornalismo pareceu ter mudado de tom de uma entrevista para outra?

N.E.: Mansplaining é uma expressão em inglês formada por man (homem) + explaining (explicando). É usada para descrever uma situação em que um homem explica algo a uma mulher de maneira condescendente, presumindo que ela não entende o assunto — inclusive quando ela é mais qualificada ou já domina o tema.

Valter Bernat

Advogado, analista de TI e editor do site.

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Advogado, analista de TI e editor do site.

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