Roupas novas rasgadas, furos e tatuagens


Numa tarde, inesperadamente livre e chuvosa, fui até um shopping próximo, fazer algo que não fazia há tempos, olhar vitrines: roupas rasgadas, furadas, manchadas e desfiadas, propositalmente tortas, esbeiçadas com pontas de todos os lados, usualmente beges, branco encardido ou pretas, à venda por preços estapafúrdios…
Quando éramos jovens – e esse introito me dá uma sensação de “matusaleneidade” – comprávamos jeans e o prazer de usá-los era tamanho que viravam… uniforme! Quando iam lavar, deixavam um “vazio” em nossas opções – por isso mesmo, raramente éramos nós a colocá-los para lavar… As mães acabavam por surrupiá-los e jogar na máquina, porque, como dizia meu pai, se assobiássemos, a roupa vinha sozinha para ser vestida! Usá-las desbotadas, puídas e eventualmente manchadas (ou sujas…) era um prazer, como se fora uma segunda pele! Mas também gostávamos de uma roupa bonita, chamativa, que muitas vezes eram tudo, menos confortáveis, e que usávamos para dar inveja às amigas…
Comprar uma roupa que já venha rasgada e manchada é, provavelmente, produto da rapidez com que tudo acontece hoje: não há tempo suficiente para usar a ponto de puir, rasgar, manchar…
Em contrapartida, o gosto por buracos permanentes recrudesceu: nas orelhas, 5, 6 brincos em cada, alargadores de furos no lóbulo para que, ao serem retirados, se transformem em “brincos naturais”, um fio de carne pendurado, balançando… No nariz, furos nas laterais ou mesmo entre uma narina e outra e, em alguns mais ousados, furos nos lábios ou na língua…
E tatuagens, necessariamente definitivas: jovens tatuados nos mais estranhos lugares  com os mais motivos mais bizarros, coloridos ou não, frases inteiras à guisa de “instruções para uso”, e cortes de cabelo à La Neymar, estilo “cocô de vaca” ou “moicanos crespos”, platinados, verdes, eventualmente, cor de rosa…
Há uma incongruência na rapidez das mudanças e o tempo que essa geração deverá durar. Nós, representantes de geração mais velha, certamente não imaginávamos durar 100 anos; portanto, essa nova geração, em princípio, deverá durar até os 140… pelo menos! Ou talvez não. Não temos como saber: o mundo e os hábitos são outros e o efeito dessas mudanças a longo prazo ninguém conhece…
Ainda me causa estranheza pensar em um médico qualquer, digamos, um obstetra fazendo um parto estando todo tatuado como um jogador de futebol, um juiz num tribunal, ou ainda, o professor de um curso de pós-graduação. Numa expressão antiguinha: “não orna”…
Mas, o provável é que o celular venha a determinar quando devemos “passar por revisão”, o que será feito ali mesmo, simplesmente baixando um aplicativo. Não teremos mais contato com o dentista, o médico, que não serão recomendados por um amigo – nada de elos ou vínculos, só um celular de última geração: o do mês passado, já está defasado…

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