
Hoje, apareceu aqui em casa uma amiga para quem dei uma das caixas de morangos que comprei. Como ela se ofereceu para vir buscar, e sua casa é quase vizinha, aceitei que viesse. Trata-se de uma amiga carioca, com quem não tenho muitas coisas em comum, embora se trate de uma ótima pessoa.
Meu normal é a extrema franqueza e, sendo ela bastante “não-me-toques”, tento sempre evitar fazer comentários ou dar minha opinião, antes de conhecer a dela, para não dar chance a conflitos. “Você gosta disso?” E, logo em seguida: “Ah, eu detesto, me dá alergia, acho salgado demais, deixa um cheiro ruim…”
Mas hoje foi, no mínimo, inusitado o acontecido. Quando ela chegou, dei-lhe um beijo e senti um perfume muito gostoso, comentei e ela me explicou:
“Quando eu podia comprar, eu usava um perfume chamado “Mademoiselle Chanel” – agora que não estou podendo, comprei este, cujo cheiro é exatamente igual ao do perfume importado, mas se chama “Mademoiselle Isabel”; que eu comprei nas lojas X – e citou o nome de uma casa bem popular e que tem coisas muito bonitas e variadas.
E ela fez graça, como se fosse absurdo justamente ela ir comprar nessa loja, ou ir fuçar perfumes por lá; eu não fiz qualquer comentário, a não ser que o cheiro era mesmo muito bom e, depois que ela foi embora, fiquei pensando que eu, em seu lugar, jamais teria aberto a boca; receberia o elogio e, se ela não perguntasse o nome do perfume, eu ficaria quieta. O que é certo é que eu jamais diria que estive na tal loja popular e que lá comprei esse “fake” cheiroso.
Entre as muitas coisas que me espantam, nos dias de hoje, é a quantidade de gente usando os mesmos cheiros, que me lembram groselha ou chicletes de bola, um pior do que o outro, tenebrosamente doces.
Ter cheiro de comida, algo perfeitamente identificável ou, como digo sempre, “acho simplesmente terrível cheirar à sobremesa” – sou caótica, mas, nisso, gosto de cada coisa no seu devido lugar.
Além do que, sempre usei perfume importado por achá-los muito melhores do que os nossos – hoje, que não conseguiria gastar o que custam, opto por não usar perfume; um bom sabonete, um bom desodorante, mas “Mademoiselle Isabel”?! Delicioso, só que me falta a ousadia de ir garimpá-lo na tal loja popular.
Tenho preguiça e, devo confessar o pecado: sou metida demais para isso – e para contar a história verdadeira também!

