17 de abril de 2026
Ricardo Noblat

Ramagem entrega o roteiro de mártir para anestesiar seus fãs

Como a encenação do martírio converte o carimbo de foragido em “medalha de herói”

Gustavo Moreno/STF – Primeira Turma 1 do Supremo Tribunal Federal STF começou a interrogar os réus do núcleo 1 por participação na suposta trama golpista ALEXANDRE RAMAGEM – Metrópoles

A vida como ela é, nesse asfalto selvagem da política, não admite o improviso. Exige a luz baixa, o figurino de domingo e, sobretudo, uma trilha sonora que faça soluçar até os paralelepípedos.

O vídeo de Alexandre Ramagem, reaparecendo após o susto da custódia americana, é uma peça de um virtuosismo impressionante. Não se busca ali dar nenhuma explicação ou assumir consequências, pelo contrário, o que se oferece é o método do sentimentalismo planejado – uma espécie de santidade de conveniência que cheira a heroismo fajuto e oportunismo.

O objetivo é colocar em prática a anestesia coletiva através de um “pudor de fachada”. Afinal, na política até a raiva é ensaiada.

Vemos em cena a “vítima de uma perseguição cruel”. Há o abraço na esposa, o afago nas filhas e o nome de Deus invocado com a urgência de quem acaba de descobrir a fé no guichê da imigração. Utiliza-se o valor sagrado da família como um escudo humano para esconder o incômodo de quem evita o acerto de contas com o próprio país.

No teatro montado, o foragido deixa de ser um problema jurídico para se tornar um personagem injustiçado que agradece aos que se dizem patriotas enquanto apunhala pelas costas a polícia que um dia serviu. Agradeceu, entre outros, a Eduardo Bolsonaro, Allan dos Santos e Paulo Figueiredo.

Dispensa comentários. Pesquisem.

É preciso que os mais atentos não se deixem converter em público de uma estética do martírio. O lema a que tanto se apegam “Deus, Pátria e Família” parece não ter atuação prática quando vira apenas peça de marketing – afinal, quem prioriza os seus, pensa antes de agir, não utiliza da religião para ganhar votos e não dá as costas para o próprio país. O cinismo é total: entre uma fuga e uma fake news, tenta vender ao público a ideia de que a lei é apenas uma “obsessão” alheia.

O que é importante de acompanhar: ele não está regular, pois tem em suas costas o status de foragido. E, em algum momento, os Estados Unidos terão que resolver essa situação.

Contra ou a favor de Ramagem. Mas como está, não fica.

Fonte: Blog do Noblat

Ricardo Noblat

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

Jornalista, atualmente colunista de O Globo e do Estadão.

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