Não fale com o motorista


Em um desses dilúvios que aconteceram em São Paulo, eu estava num ônibus, espremida ao lado do cobrador e, provavelmente por ser por volta das 18H00, em pé, dado que ninguém conseguia se mexer – e claro, que se aproveitando dessa desculpa, vários caras de pau iam lugares reservados a pessoas idosas…
Tenho notado que, dentro dos coletivos, todos os desconhecidos ficam mais descontraídos e conversam muito: entre si, com o motorista e com o cobrador. Bem à vontade, surgem todos os assuntos, de política a trânsito.
Há pelo menos 30 anos havia uma placa em letras garrafais na parte dianteira do ônibus, que dizia: ‘É PROIBIDO FALAR COM O MOTORISTA”. E, um conhecido meu  cinicamente perguntava: “Sabe por que?Porque não vale a pena!”
Continuo no ônibus, ouvindo a conversa do cobrador com uma “sem teto” atrás de mim. Ela conta que está na rua há 10 anos, que voltou algumas vezes para a casa do pai, mas que não conseguia ficar lá. Trabalhou por 17 anos em uma casa em que as pessoas eram muito boas, mas que não a registraram… E o cobrador dando apartes pertinentes.
Depois de algum tempo, acaba o assunto com a sem teto e ele começa a cantar. É afinado, não comete erros de português em letras com rimas bem feitas e ritmo, que lembravam músicas de Luiz Gonzaga. Aí, começamos a conversar, eu e Adeílson, que tira de uma mochila um caderno e me mostra as letras de música que tinha escrito, numa letra caprichada e regular…
Descubro que ele é do norte da Bahia, tem 34 anos, uma filha de 15 e um filho que deveria nascer em dois meses. A moça se chama Isis e o menino vai se chamar… Ícaro! Fico entusiasmada com o bom gosto da escolha; comento que sua professora devia ser excelente. “Era ótima sim” diz ele. “Mas, tive outra depois dessa que, vendo que eu gostava de ler, passou a não mais me chamar para ler os textos na classe”. Pergunto o porquê e ele diz que ela percebeu que ele gostava de ler e, como era para ser um castigo, deixou de chamá-lo!
Quero saber dele se alguma vez mostrou aquelas músicas – na verdade, poesias musicadas – para alguém: um professor ou algum desses artistas recém-reconhecidos. Ele, animado com meu interesse – legítimo, diga-se de passagem – conta que sim, uma vez. Mas, o sujeito queria que ele vendesse a autoria de suas músicas por dois tostões. Adeílson não quis – para ele, era como vender um filho – e o papo acabou ali.
Insisto, dizendo que ele já deveria ter gravado algumas com algum amigo que tocasse violão, ou sanfona e colocado na Internet. E ele me diz “Sim, eu, na Internet, tenho um blog, me chamo Guru Silva”.
O ponto em que eu deveria descer chegou – sem perceber, ainda que estivesse em pé, fiquei por uma hora e quinze minutos conversando com um verdadeiro artista, um poeta. Um caso raro de amor aos livros ainda que desacorçoado por uma pseudo professora…
Ao descer me despedindo e lhe desejando muito boa sorte, recomendo: “leia muito para seus filhos; faça isso por eles. Você é um artista de verdade!”
Debaixo do guarda-chuva, ando os três quarteirões até minha casa, com um misto de tristeza por não poder fazer nada para revelar Adeílson ao mundo, e de alegria de ver que algo que eu diria impensável nos dias de hoje, se materializou diante dos meus olhos, agora marejados…
Pode ser que falar com o motorista não valha a pena, mas com o cobrador… Você poderá ouvir coisas inesquecíveis!

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