3 de julho de 2022
Colunistas Sylvia Belinky

Minha nova turma nova

Atividades da ação do Ano do Tamanduá, que tem como slogan ‘Levante essa bandeira’, no Zoológico. Na foto, Kellen Oliveira, com a filha Laura e os pais Maria Lorete e Isac. Curitiba, 27/04/2018. Foto: Pedro Ribas/SMCS

Meu marido e eu passeamos sempre com meu cachorro pelo condomínio e, também, jogamos bolinha com ele.

Dividimos a saída dele entre nós: as três diurnas são minhas e as três noturnas são dele. Nas minhas, usualmente, levo a bolinha, sua paixão absoluta.

Graças a essas minhas saídas, conheço muitos dos moradores do pedaço, em especial aqueles que também têm cães, com quem trocamos impressões e, também, com as crianças, que se encantam com o nosso vira-latas, sem dúvida alguma um charme ambulante.

Dentre meus amiguinhos, tenho um novo, o Gabriel. Um moreninho fofo, de aproximadamente seis anos, que morre de medo dele.

Acontece que o meu outro amigo, o Miguel, também meu vizinho, outro moreno queimado do sol e de cabelos loiros, apaixonado pelo Scoobi – cujo nome era para ser Banzé e que faria muito mais jus à figurinha – também se relaciona com o Gabriel (andam de bicicleta juntos).

O Miguel larga literalmente tudo para passar a mão no Scoobi e jogar bolinha com ele.

Já, o Gabriel gostaria de fazer a mesma coisa, mas, cadê a coragem…?

O Miguel que, por uma boa conversa abandona os amigos mais novos – e nossas conversas são sempre ótimas: bichos, seus hábitos, a escola, sendo que ele também tem dois cachorros lindos que, por causa do tamanho, moram na casa da avó, na praia.

Na semana passada, como o Miguel estivesse na praia, visitando a vó, e os outros amigos estivessem na escola, Gabriel parou para falar comigo.

Encantado com meus gatos que, vez por outra coloco lá fora com coleira, para “tomar a fresca” – e também sem coragem de enfrentá-los,

  • Gabriel, se eles fossem arranhar, você acha que eu deixaria? Ele desconversa, olhando a porta de entrada da casa aberta: – E o Scoobi? Por que não sai aqui para fora?
  • Porque ensinei que não é para sair quando a porta estiver aberta.
  • Eu queria jogar bolinha com ele. Se eu pegar na bolinha, ele me morde?
    Essa seria uma demonstração de coragem e bravura, já que ele “se pela” de medo dos bichos.
  • Com certeza ele não vai morder. Ele já sabe que você é amigo. Quando eu for jogar bolinha com ele, eu te chamo.
  • Tá bom, diz ele, se afastando de bicicleta e vai gritando no caminho:
  • Eu moro nesta casa aqui, ó!
  • Que número é, pergunto.
  • Tem um seis e tem um oito, diz ele.

    Devo dizer que essa turminha me espanta com suas perguntas absolutamente ingênuas, não do ponto de vista infantil, mas do ponto de vista “ignorância”.

    Assim, perguntar se o cachorro morde para o dono que está dizendo que pode por a mão é ingênuo, mas perguntar se cachorros comem formigas, ou se cachorros fazem cocô é ignorância…

    Quando perguntada se cachorros comem formigas, digo que não, que não comem, mas que existe um bicho que come e que se chama tamanduá; olhada com incredulidade, pergunto se eles nunca foram ao zoológico e a resposta é “não”.

    Tenho a impressão de que os pais de hoje não tem tempo a perder com uma ida ao zoológico e que, infelizmente, também não conhecem o tamanduá…

    Mas, certamente conhecem aquela brincadeira de matar quem se mexer e que se chama “batatinha frita um, dois, três” – e seus pimpolhos também…
Tradutora do inglês, do francês (juramentada), do italiano e do espanhol. Pelas origens, deveria ser também do russo e do alemão. Sou conciliadora no fórum de Pinheiros há mais de 12 anos e ajudo as pessoas a "falarem a mesma língua", traduzindo o que querem dizer: estranhamente, depois de se separarem ou brigarem, deixam de falar o mesmo idioma... Adoro essa atividade, que me transformou em uma pessoa muito melhor! Curto muito escrever: acho que isso é herança familiar... De resto, para mim, as pessoas sempre valem a pena - só não tenho a menor contemplação com a burrice!

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