
De: De Steven Soderbergh, EUA, 2025
(Disponível no Amazon Prime Video em 11/2025.)
Os grandes filmes de espionagem se passam na Europa, e então os americaníssimos David Koepp, autor da história e do roteiro, e Steven Soderbergh, o incansável, diretor, fotógrafo e montador, foram a Londres e a Zurique para fazer Black Bag, no Brasil Código Preto – uma trama tão complexa quanto fascinante.
Complexa, fascinante – e atual, contemporânea. Lançado em março de 2025, o filme tem como pano de fundo, bem lá no fundo, a guerra imperialista da Rússia de Vladimir Putin contra a Ucrânia.
Código Preto tem excelentes interpretações – o que seria mesmo de se esperar, sendo o diretor esse fenômeno que é Steven Soderbergh – de um elenco encabeçado pelos grandes Michael Fassbender e Cate Blanchett, com uma participação especial do ex-007 Pierce Brosnan.
É um filme de espionagem, inteligência e contrainteligência – mas não tem aquelas bobagens de cenas de ação. Também não tem apelativas cenas de sexo – embora os personagens falem de sexo e façam sexo bastante, demais da conta. Não precisa nem uma coisa nem de outra – a trama envolvente, esperta, e danada de intricada, as atuações, os cenários, a fotografia, a música já são mais do que suficientes para satisfazer o respeitável público.
Fiquei imaginando, depois que vimos o filme, o que acharia dele o mestre dos livros de espionagem, John le Carré (1931-2020), que conhecia muitíssimo bem os temas que abordava – durante os anos 50 e 60, ele trabalhou nas duas grandes organizações de segurança e inteligência do Reino Unido, o MI5 e o MI6.
Muito diferentemente de Le Carré, David Koepp, natural de Pewaukee, no interiorzão de Wisconsin, da classe de 1963, nunca foi espião. Mas não se pode dizer que não foi dotado de uma imaginação extraordinária, que o ajudou a criar ou participar da criação dos roteiros de, só para dar alguns poucos exemplos, A Morte lhe Cai Bem (1992), Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, o primeirão (1993), O Pagamento Final (1993), O Jornal (1994), Missão: Impossível, o primeirão (1996), Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008), Indiana Jones e a Relíquia do Destino (2023).

Uma dura missão: descobrir qual colega é um traidor
Na primeira sequência de Código Preto – longa, cuidadosa, caprichadíssima, que começa com um fascinante plano-sequência –, George T. Woodhouse (o papel de Michael Fassbender, na foto abaixo) recebe de um sujeito que evidentemente é seu superior hierárquico, Philip Meacham (Gustaf Skarsgård) uma relação de cinco nomes e uma missão: descobrir qual daquelas pessoas é um traidor. Um daqueles cinco, diz o chefe para George, vazou informações sobre um programa absolutamente secreto, chamado Severus.
Não me parece que o filme deixa muito claro para que órgão do governo britânico George e seu superior Philip trabalham; eu pensei que fosso o MI6, a agência de informações, inteligência e espionagem, o equivalente no Reino Unido à CIA, Central Intelligence Agency. Não, não é o Mi6. É um órgão mais recente, criado para este novo mundo cibernético, o NCSC, National Cyber Security Centre, destinado a ajudar o setor público, as empresas e os indivíduos a proteger seus serviços online. O filme não se preocupa em explicar isso, nem é sua função, mas o NCSC é uma parte de um órgão maior, o GCHQ, Government Communications Headquarters, a terceira agência de inteligência do Reino Unido, que veio se somar às que já existiam antes, M15 (que cuida de informações internas, algo semelhante ao FBI americano) e o MI6.
Posso ter me alongado um pouco nisso, mas acho essas informações muito importantes para a compreensão da trama.
Todas as cinco pessoas da lista de suspeitos de terem passado informações ultrassecretas sobre o programa Severus para algum outro país são, exatamente como George, funcionários importantes do NCSC. Uma delas é sua própria mulher, Kathryn St. Jean (o papel de Cate Blanchett, com cabelos mais escuros e mais longos do que o usual).
George, que na vida fora do trabalho é um daqueles gourmets que se metem eles próprios a cozinhar pratos finos, convida os quatro colegas suspeitos para um jantar especial em sua casa.
Temos, então, que, com uns 10, 12 minutos de filme, George Woodhouse, o protagonista da história, tem dentro de sua casa todos os cinco suspeitos de alta traição à pátria.

George tem que investigar a própria mulher e dois casais
Kathryn, a suspeita que é dona da casa, é uma agente de inteligência; não vi isso ser mencionado no filme, mas, segundo a ótima página da Wikipedia em inglês sobre o filme, ela é a chefe das Operações de Sinais do NCSC.
Os visitantes são dois casais de namorados, amantes:
* Clarissa Dubose (o papel de Marisa Abela) é a mais jovem do grupo, uma especialista em imagens de satélites;
* Freddie Smalls (Tom Burke) é um agente, já veterano. Mostra-se de cara que é um sujeito que bebe bastante. E seu namoro com a jovem e bela Clarissa é bastante tempestuoso; ao final do jantar, ao saber de uma infidelidade de Freddie, a moça vai enfiar uma faca na mão esquerda dele;
* James Stokes (Regé-Jean Page), apesar de jovem, já é coronel do Exército, e trabalha como agente de contrainteligência no NCSC;
* Zoe Vaughan (o papel de Naomie Harris, na foto abaixo) é psiquiatra do NCSC – e, portanto, conhece os segredos mais íntimos de todas aquelas pessoas; vinha namorando James Stokes fazia um tempinho – e, saberemos bem adiante, teve também um caso com Freddie Smalls.

Aqui, me aproprio de trecho do texto da Wikipedia sobre a trama; vai sem aspas, para me desobrigar a ser literal e poder acrescentar ou tirar coisas.
Philip Meacham, o superior de George, morre de repente, enquanto estava bebendo em sua casa. Parece ter tido um ataque cardíaco fulminante, mas veremos depois que não, não foi. E creio que há aí uma falha no roteiro, porque uma agência de inteligência teria que ter mandado fazer a autópsia de seu agente importante – e a autópsia teria mostrado que ele foi envenenado, como se revela mais para o fim da narrativa.
George encontra, numa lata de lixo do quarto do casal, um tíquete de bilheteria de um cinema que exibia o filme Dark Windows. Como não quer nada, ele perguntará a Kathryn se ela gostaria de ir com ele ver o filme Dark Windows, e ela topa, e dá a entender que não sabia sobre o que era o filme.
(Detalhinho: Dark Windows existe; está no IMDb sem título em português, o que indica que não foi lançado no Brasil; é uma co-produção EUA-Noruega de 2023, sobre quatro adolescentes que se envolvem em um acidente de carro.)
Kathryn informa o marido que vai fazer uma rápida viagem a Zurique – mas não explica o motivo.
James conta para George que Kathryn teve acesso a uma conta bancária na Suíça com saldo de 7 milhões de libras.
George pressiona Clarissa para redirecionar um satélite espião para Zurique – e os dois observam Kathryn se encontrando com um sujeito que logo identificam como o tenente-coronel russo Andrei Kulikov (Orli Shuka), um opositor do governo Vladimir Putin.

Mais tarde, revela-se que outro dissidente russo, o general Vadim Pavlichuk, (Daniel Dow), havia desaparecido de um esconderijo em Liechtenstein com uma cópia do tal programa Severus – e estava para viajar com Kulikov através da Polônia, rumo à Rússia, o que parecia um plano de causar uma explosão nuclear contra o regime de Putin.
Uma história fascinante, mas um tanto inverossímil
O que relatei aí acima não chega a ser spoiler. São acontecimentos mostrados na primeira metade do filme – que aliás não é longo, com apenas 93 minutos.
John le Carré, o ex-espião e autor das maravilhas que deram origem a filmes como O Espião Que Saiu do Frio (1965), O Alfaiate do Panamá (2001) e O Espião Que Sabia Demais (2011), teria gostado deste Código Preto?
Não dá para saber, é claro. O que se sabe é que John le Carré criava histórias factíveis. Tramas complexas, intrincadas, como é tudo o que se refere a espionagem, agências de inteligência e contrainteligência – mas histórias factíveis. Com personagens com poderes e emoções parecidas com as pessoas “normais”, comuns, seres humanos como o eventual leitor e eu mesmo – não super-heróis, à la Bond, James Bond.
Não há super-heróis à la Bond, James Bond, na história bolada por esse criativo, imaginativo David Koepp – mas, ao fim e ao cabo, este Código Preto, apesar de ser imaculadamente bem realizado, com a maestria de Steven Soderbergh, conta uma história um tanto inverossímil, um tanto fantasiosa demais;
Bem, mas… Ao mesmo tempo… Espionagem, contrainteligência, programas destinados a criar explosões nucelares, tudo isso não é algo fora da verossimilhança, da racionalidade, da objetividade, das coisas pão, pão, queijo, queijo?

Para Steven Soderberhh, o dia tem 40 horas, e ele trabalha 32…
Os créditos finais de Black Bag informam que o diretor de fotografia é Peter Andrews, e que o editor, o montador, é Mary Ann Bernerd. É uma mentirinha. Tanto Peter Andrews quanto Mary Ann Bernerd são pseudônimos de Steven Soderbergh. O próprio cineasta se encarregou tanto da direção de fotografia quanto da montagem. Ele é assim mesmo, o cara. Parece que, para Steven Soderbergh, o dia tem umas 40 horas, das quais ele trabalha durante umas 32.
É quase inacreditável.
Nos 36 anos que separam o ótimo sexo, mentiras e videotape, de 1989 (assim, em minúsculas), deste Black Bag, de 2025, o sujeito dirigiu 54 títulos, produziu 65, foi diretor de fotografia de 37, editor de 32, roteirista de 10,. Nas horas de folga, casou-se com a atriz Betsy Brantley, que lhe deu uma filha, divorciou-se dela e se casou de novo, com Jules Asner, diretora, roteirista e produtora.
Um rápido registro: Pierce Brosnan, o ator que foi Bond, James Bond entre 1997 e 2002, aqui faz o papel de Arthur Stieglitz, o diretor do NCSC. É um papel muito importante na trama – mas ele aparece bem pouco tempo na tela, em não mais que três ou quatro sequências.

Foi o autor e roteirista que inventou a expressão do título
A expressão Black Bag, saco preto, do título – assim como Código Preto, escolhida pelos exibidores brasileiros – pode parecer uma gíria usada por espiões, para definir algo proibido, secreto. Não é. David Koepp, o criador da história, explicou em uma entrevista:
“Eu meio que inventei isso porque achei que soava legal. Tinha um produtor de cinema que eu conhecia em Nova York que costumava dizer ‘isso vai pro saco preto’ sempre que havia alguma coisa ruim ou negativa de que ele não gostava. Você joga a coisa no saco preto, depois joga o saco no rio e nunca mais vê. Gostei disso como uma metáfora para coisas que nunca deveriam ser discutidas. Eu reinventei isso como uma gíria de espião que na verdade não existe – mas talvez devesse existir.”.
Essa explicação dada pelo autor e roteirista é um dos itens da página de Trivia do IMDb sobre o filme – e, meu Deus do céu e também da Terra, que coisa absolutamente fantástica a quantidade de itens de informações, curiosidades, bobagenzinhas saborosas no IMDb sobre Código Preto/Black Bag! São mais de 260 itens! Cerca de 2 mil linhas de texto!
https://www.imdb.com/pt/title/tt30988739/trivia/?ref_=ttrel_ov_ql_3
Faz tempo que eu acho que o número de itens de Trivia no IMDb sobre um filme define, em boa parte, a popularidade dele. Filmes pouco conhecidos, pouco badalados têm um número pequeno de itens em suas páginas de Trivia do IMDb. Filmes importantes, ou então badalados, incensados, cult, esses têm um porrilhão de informações. Fiquei absolutamente surpreso com a quantidade de itens que tem a página deste filme, porque, diacho, ele é bem recente – foi lançado, como já foi dito, em março de 2025; nós o vimos no final de novembro. Em menos de dez meses, o filme conseguiu amealhar mais de 260 itens de curiosidades, informações úteis ou inúteis mas saborosas!
Confesso que não tenho paciência para ler tudo. Mas pesco algumas para botar aqui.

Todos traem seus cônjuges, contou uma agente para o roteirista
* Um dos primeiros itens tem uma informação óbvia demais, mas importante: o criador e roteirista David Koepp conversou com diversos espiões, agentes, operadores do mundo das agências de inteligência antes de escrever a história e o roteiro.
* De David Koepp sobre as pesquisas para se informar sobre a vida de espiões e agentes: “Todas as coisas de espionagem eram legais, mas eu aprendi mais do que poderia esperar sobre as pessoas. Uma mulher me disse que o trabalho dela tornava impossível que ela mantivesse uma relação. Uma fala do filme foi inspirada nessas conversas com ela. Era: ‘Quando você pode mentir sobre tudo, como você diz a verdade sobre alguma coisa?’ Pense nisso. Se você quiser ter um caso, não poderia ser mais fácil. Você apenas diz: ‘Vou estar fora por três dias e você não pode me perguntar onde estou indo porque você não tem autorização’. Você não pode confiar nas pessoas e as pessoas não podem confiar em você. Para George e Kathryn (os papéis de Michael Fassbender e Cate Blanchett), as informações confidenciais que eles não podem compartilhar vai para o que eles chamam de saco preto.”
Não dá para saber, é claro, se vida real todos os espiões traem seus cônjuges, mas os personagens que David Koepp criou, ah, esses traem. Todos traem. Bem, na verdade quase todos. Há uma exceção – mas revelar isso seria um spoiler brutal.
* De Soderbergh sobre a escolha do alemão Michael Fassbender para interpretar o inglesérrimo George Woodhouse: “Eu sabia que ele não teria medo de interpretar o que ia na cabeça de George. Ele criou uma superfície calma que mascara uma grande turbulência. Michael consegue transmitir muita coisa sem ser óbvio.”
* Cate Blanchett, uma das mais requisitadas atrizes de língua inglesa em atuação, aceitou trabalhar no filme antes mesmo de ler o roteiro. Em entrevistas, ela disse: “Eu apenas perguntei: ‘Quem eu vou interpretar?’” E explicou: ‘Era escrito pelo David e dirigido pelo Steven. Era tudo o que eu precisava saber’,”
Pô, meu. Isso é que é…
Anotação em dezembro de 2025
Código Preto/Black Bag
De Steven Soderbergh, EUA, 2025
Com Michael Fassbender (George T. Woodhouse, agente de contra-inteligência do NCSC, marido de Kathryn),
Cate Blanchett (Kathryn St. Jean, chefe das Operações de Sinais do NCSC, mulher de George),
Marisa Abela (Clarissa Beatrice Dubose, especialista em imagens de satélites da NCSC, namorada de Tom Burke), Tom Burke (Freddie Alan Smalls, agente do NCSC, namorado de Clarissa), Naomie Harris (dra. Zoe Vaughan, psiquiatra do NCSC), Regé-Jean Page (coronel James Stokes, agente de contrainteligência do NCSC), Gustaf Skarsgård (Philip Meacham, funcionário graduado do NCSC, a quem George responde), Kae Alexander (Anna Ko, a mulher de Philip Meacham), Ambika Mod (Angela Childs, agente de inteligência do NCSC), Orli Shuka (tenente coronel Andrei Kulikov), Daniel Dow (general Vadim Pavlichuk)
e, em participação especial, Pierce Brosnan (Arthur Stieglitz, diretor do NCSC)
Argumento e roteiro David Koepp
Fotografia Stephen Soderbergh (sob o pseudônimo de Peter Andrews)
Música David Holmes
Montagem, Stephen Soderbergh (sob o pseudônimo de Mary Ann Bernerd)
Casting Carmen Cuba
Desenho de produção Philip Messina
Figurinos Sarah Bosshard, Ellen Mirojnick
Produção Gregory Jacobs, Casey Silver, Focus Features, Casey Silver Productions.
Cor, 93 min (1h33)
Fonte: 50 anos de filmes

