
De: Marie Deshaires e Catherine Touzet, criadoras, roteiristas, França, 2026
(Disponível na Netflix em 8/2026.)
A Última Flor do Lácio, tão inculta e tão bela, não tem uma palavra para expressar exatamente o que é um thriller – uma história policial de mistério e suspense. Os franceses têm – e O Verão de 1936, no original L’Été 36, é um perfeito polar. No primeiro dos seis episódios da minissérie há um assassinato – e, como em Assassinato no Expresso Oriente, de Agatha Christie, duas vezes transformado em belos filmes, suspeito é o que não falta.
No final do terceiro episódio, ou seja, exatamente no meio da minissérie, surge um novo morto. Mais um presunto, como se diz, com muito mal gosto, na gíria policial; mais um corpse, a palavra que Alfred Hitchcock adorava pronunciar com seu vozeirão soturno, a coisa que ele adorava espalhar por seus thillers, seus polars.
É impossível o espectador não se ver fisgado pela trama, não ficar fissurado para saber quem foi/foram o(s) criminoso(s), chegar ao fim da história.
Mas L’Été 36 tem muitas outras características importantes – e interessantes.
* Usa um fato histórico importante como ponto de partida: 1936 foi o ano em que a legislação garantiu aos trabalhadores franceses um período anual de férias remuneradas. Hordas de famílias de trabalhadores invadiram as praias antes privativas da classe média alta para cima. Toda a ação da minissérie se passa em Nice, na Riviera, um dos Guarujás mais chiques do mundo.
* A trama é um espanto, um estupor. É uma teia impressionante, fantástica, envolvendo um grande número de personagens – são duas dúzias de pessoas com diversos tipos de conexões, formando um novelo extraordinariamente rico.
* Duas dúzias de personagens – mas as quatro mais importantes são mulheres. Dois pares de irmãs – e cada irmã não poderia ser mais diferente da outra.
* É um thriller, um polar em que as protagonistas são mulheres – e tudo foi escrito por mulheres. Marie Deshaires e Catherine Touzet são as autoras do argumento e do roteiro da minissérie. E a produtora e uma mulher, Iris Bucher. Uma minissérie feminina, graças ao bom Deus – e a todas as musas.
* Tudo bem, é um thriller, um polar, mas é também, e talvez sobretudo, um perfeito exemplar dessa coisa que é tão presente no cinema francês, assim como no vizinho e sócio cinema italiano – uma obra sobre a diferença entre as classes sociais. A luta de classes. Os muito ricos, os que têm tudo, e os que são explorados, humilhados, ofendidos pela grande burguesia. Que trabalham duro para ganhar um salário mínimo e encher de fortuna os patrões cruéis, avaros, que sempre querem mais e mais e mais.
Eita!

Um visual em tudo por tudo suntuoso
E ainda há mais duas características muito interessantes nesta minissérie.
* Tudo no visual é suntuoso, especialmente suntuoso, opulento, esplendoroso. A direção de arte, a cenografia, os figurinos, tudo é soberbo. Tudo bem: o cinema tem feito trabalhos impressionantes de reconstituição de época – mas o desta série aqui me impressionou demais.
E as roteiristas, o diretor Frédéric Garson e a diretora de fotografia Virginie Saint-Martin abusaram dos planos gerais, da paisagem vasta, o que na pintura seria o afresco, onde cabem dezenas e dezenas de pessoas.
É impressionante o número de figurantes, de extras, que a produção reuniu para as amplas tomadas das praias, das ruas, dos grandes salões do magnífico hotel Palace Riviera.
Em especial nos dois primeiros dos seis episódios (de 50 minutos cada), fiquei muito impressionado com isso, com a quantidade de planos gerais com dezenas de figurantes. Quase que dava para ouvir os realizadores berrando no meu ouvido: – “Meu, tá vendo que produção caprichada, ambiciosa, cara pra cacete? Tá vendo que não economizamos em nada? Tá vendo que luxo?”
A ostentação do luxo da produção é tanta que cheguei até a ficar meio cansado dela nos dois episódios iniciais. Mas a beleza visual toda, e, sobretudo, sobretudo, a trama tão bem urdida, tão bem bolada, as ligações intrincadas entre aquelas duas dúzias de personagens são tão interessantes, que logo deixei de lado aquele fastio com a exibição de riqueza da produção.
* Pois é: uma produção extremamente bem cuidada, que com toda a certeza teve um orçamento bastante, bastante confortável – e, no entanto, não tem gigantescas estrelas de projeção internacional.
Essa é mais uma de tantas características interessantes deste L’Été 36.
Bem, posso estar defasado, desatualizado, absolutamente por fora do panorama atual du cinéma français. Pode ser, sim, é óbvio – afinal, sou do tempo de Jean Gabin (1904-1976), Danielle Darrieux (1917-2017), Gérard Philipe (1922-1959), e por aí vai. Mas o fato é que, de todo o imenso elenco, duas dúzias de atores, o único nome que eu conhecia bem era o de Miou-Miou, a atriz de mais de 110 títulos, entre eles Corações Loucos/Les Valseuses (1974), O Sexo Oculto/La Dérobade (1979), Entre Nós/Coup de Foudre (1983), Casos e Casamentos/Mariages!(2004), Sejam Muito Bem-Vindos/Bienvenue Parmi Nous (2012), dez indicações ao César de melhor atriz, ex-mulher do ator fetiche Patrick Dewaere e do cantor e compositor de extraordinário sucesso Julien Clerc.
Miou-Miou faz uma personagem importante na trama, mas que não aparece muito tempo na tela – a riquíssima Marthe Pontavice-Caron, mãe das irmãs Blanche e Eugénie.
As quatro atrizes que fazem as personagens mais importantes da trama, as irmãs Blanche e Eugénie e as meia-irmãs Giulia e Léonie, são interpretadas, respectivamente, por Julie de Bona, Sofia Essaïdi, Nolwenn Leroy e Constance Gay.
Julie de Bona, Sofia Essaïdi, Nolwenn Leroy e Constace Gay, mesdames et messieurs, ladies and gentlemen.

Insisto: posso estar errado, defasado, desatualizado, mas acho que não são assim propriamente grandes estrelas de projeção internacional…
Fui atrás de alguns fatos básicos sobre essas quatro atrizes – que tinham entre 34 e 46 anos em 2026, ano de lançamento da série –, e até fiz uma pequena tabela com essas informações. Mas isso fica para mais adiante. É preciso, diacho, falar da trama.
Uma mulher que havia se deserdado. E uma irmã adúltera
É preciso, é forçoso, é obrigatório haver uma sinopse, um resumo da trama, cacete!
Eis a sinopse do IMDb: “Nice, 1936. A elite na Côte d’Azur é perturbada por trabalhadores que desfrutam suas primeiras férias pagas. Quatro mulheres de diferentes classes acabam envolvidas em um assassinato no luxuoso hotel Palace Riviera.”
O da Wikipedia en français é parecido: “Durante o verão de 1936, pela primeira vez em suas vidas, assalariados, aproveitando suas férias remuneradas, chegam à Riviera Francesa. Misturam-se com a alta sociedade e, nesse contexto, quatro mulheres de origens diferentes se vêem ligadas a um assassinato ocorrido em um hotel de luxo.”
Bem, basicamente é isso aí.
Mas creio que a melhor maneira de relatar sem necessidade de síntese a trama muitíssimo bem elaborada desta minissérie é apresentar os personagens principais.
A pessoa que aparece morta em seu quarto no chiquetérrimo Palace Riviera é Adrien Jacquart (o papel de Arnaud Binard), um procurador de Justiça, hóspede habitual do hotel. Ele é encontrado morto no chão de seu quarto, no meio de uma poça de sangue, com um grande corte no pescoço.
Cada uma das quatro mulheres que são as protagonistas da história tinha algum tipo de relação com o procurador.

Eugénie (o papel de Sofia Essaïdi, na foto acima) havia sido noiva Jacquart quando era muito, muito jovem. Sua irmã Blanche (Julia de Bona) sempre havia sido apaixonada por ele, e já fazia algum tempo que era amante do procurador. Naquele verão de 1936, hospedada com o marido e a filha adolescente, de férias também com o pai, a mãe e a tia, Blanche corre assim que pode para o quarto de Jacquart.
A história da família das duas mulheres, Eugénie e Blanche, é intrincada, fascinante.
O pai delas, Henri Pontavice-Caron (Sam Karman) é um riquíssimo, poderoso industrial, presidente da confederação das indústrias da França. Hospeda-se sempre naquele hotel, é paparicado por todos os funcionários. Está com a mulher, Marthe (o papel de Miou-Miou, à direita na foto abaixo), e a irmã dela, Anne Marie Meunier-Dauphin (Camille Japy, à esquerda na foto abaixo). Em outro dos belos apartamentos do hotel estão Blanche, o marido dela, o banqueiro Édouard Ackerman (Clément Aubert, ao centro na foto abaixo) e a filha Angèle (Victoria Eber), adolescente de 16 anos, uma garota inteligente, cheia de vigor e curiosidade.
Lá no passado, uns 12 anos antes, Eugénie havia rompido o noivado com Adrien Jacquart e se apaixonado por Jean Berthier, um operário da empresa do pai dela, um jovem ativista que viria a ser líder sindical. Haviam se casado e pouco depois nascia Louis. Eugénie abraçara a causa sindical – e se distanciara completamente da família milionária.
Naquele verão de 1936, o primeiro em que os trabalhadores franceses podiam desfrutar de férias pagas, Eugénie, o marido Jean, o filho Louis e mais Gabriel Berthier, o irmão mais jovem de Jean, foram todos para Nice, onde se hospedaram na Pensão Mina.
(Jean, o marido, é o papel de Simon Ehrlacher; Louis, o filho, de Jean-Baptiste Blanc; Gabriel, rapagão aí de uns 18, talvez 20 anos, é interpretado por Antoine Simony. Mina, a simpática dona da pensão, por Laure Rivaud-Pearce.)

Uma irmã que havia se deserdado ao se casar com um trabalhador sindicalista. A outra irmã que se casara com um banqueiro mas o traía com um procurador de Justiça – que é encontrado morto, assassinado. Já há bastante material para uma história. Pois é, mas tem muito mais.
Passeando pelas avenidas próximas à praia, o procurador Jacquart bate o olho no garoto Louis Berthier – e nele se vê a si mesmo quando tinha aquela idade, uns 12 anos. E vai procurar a ex-noiva. Exige saber de Eugénie se Louis é filho dele.
Jean, o marido, flagra os dois na conversa. E fica sabendo que seu filho não é seu filho biológico.
Uma policial que quer inocentar o pai. E uma irmã que tem dívidas
Blanche e Eugénie são filhas de industrial poderoso, milionário. Já Léoni Morel e Giulia Vincent são filhas de um trabalhador que, naquele momento em que se passa a ação, está preso, condenado à morte pelo assassinato do dono de uma gráfica ali de Nice.

(Léoni é interpretada por Constance Gay, na foto acima); Giulia, por Nolwenn Leroy, na foto.)
Do mesmo modo que Blanche e Eugénie, Léoni e Giulia também estavam bastante afastadas, não se viam fazia um bom tempo. Léoni havia ido para Paris; lá, havia feito concurso para auxiliar de Polícia, e passado em primeiro lugar. Naquele verão de 1936, apresentou-se para o comissário de Polícia de Nice, Alphonse Raven (o papel de François-Xavier Demaison), e começou a trabalhar sob as ordens dele, ao lado de uma auxiliar veterana e caninamente fiel ao comissário, Madeleine Dormoy (Constance Dollé, uma coadjuvante tão interessante quanto a personagem que interpreta).
O comissário Raven vai demorar bastante a saber, mas o espectador é informado desde o início da série o motivo pelo qual Léoni, primeiro lugar no concurso, quis trabalhar exatamente ali em Nice, e não em uma delegacia importante de Paris. O objetivo da moça era tentar provar a inocência do pai – e tinha interesse em vasculhar os arquivos da Polícia de Nice, encontrar os papéis sobre a investigação do crime atribuído ao pai, e, se possível, convencer o procurador de que não havia provas suficientes.
O procurador do caso havia sido exatamente Adrien Jacquart.
Léoni procura a meia-irmã Giulia em busca de ajuda – mas Giulia diz que não pretende mover uma palha sequer em defesa do pai. Giulia havia passado a odiar o pai depois que ele, quando ela ainda era criança, abandonara sua mãe e se casara com outra mulher, com a qual teve Léoni.
Meu, quanto drama! Quantos fios unindo e desunindo os personagens!
Ah, mas tem muito mais.
Giulia tinha uma boa posição, um bom emprego. Era a camareira-chefe do Palace Riviera, e tinha toda a confiança do gerente-geral do hotel, Edgar Girault (Patrick Ridremont). Mas tinha também dois problemas. Talvez por conviver com tantos milionários que se hospedavam no hotel, havia colocado a filha que criava sozinha, Suzanne (Gabrielle Bazin), uma adolescente inteligente, brilhante, de 16 anos, em um colégio interno carésimo, de filhos de gente muito rica. O segundo problema de Giulia era diretamente ligado ao primeiro: para poder pagar as mensalidades da escola, jogava nos cassinos da cidade. Às vezes ganhava fortunas; às vezes, como sempre acontece com todos os jogadores, perdia.
Havia pedido – e obtido – um grande empréstimo ao procurador Jacquart.

Há um vilão na história – e a gente logo passa a detestá-lo
Meu Deus, quantos personagens já foram citados neste relato!
Ainda há outros que não foram mencionados. E vão surgir novos laços entre eles: Angèle, a filha de Blanche e do banqueiro Édouard Ackerman, neta do industrial Henri Gabrielle Bazin, vai se apaixonar pelo jovem operário Gabriel Berthier, o cunhado de sua tia Eugénie. O garoto Louis, o filho de Eugénie, vai se aproximar do avô milionário, que não conhecia, para o pavor do pai sindicalista Jean. A assistente de Polícia Léoni vai se engraçar por um barman do Palace Riviera, Félix (o papel de Ken Eind). Surge em cena o neto do proprietário do hotel, que herdou a propriedade, Joseph Neuville (Assaâd Bouab). É um médico simpático, afável, e, apesar de neto e herdeiro de ricaço, boa gente – e vai se encantar com a bela camareira-chefe do hotel.
E por aí vai.
Falta falar de um personagem que tem grande importância na trama. A gente vê logo que o cara é o vilão, o mau caráter – e o ator Pascal Elbé (na foto abaixo) está bem no papel. O espectador é levado de cara a desprezar o sujeito. Chama-se Raoul Delaunay, e, evidentemente – esta é uma série francesa! -, não é pobre, trabalhador. É um empresário, rico – mas quer ser mais rico ainda. Quer porque quer se tornar sócio de Henri Pontavice-Caron. De preferência na boa, mas, não for possível, então na base da chantagem.
Raoul Delaunay paga para o procurador Adrien Jacquart a pequena fortuna que Giulia devia a ele, e, com a letra de crédito assinada por ela, exige que a camareira-chefe roube do cofre do apartamento de Henri uma determinada cadernetinha que – o vilão sabe – contém segredos terríveis.
Como já foi dito, no final do terceiro dos seis episódios, há mais uma morte. A vítima é Edgar Girault, o gerente-geral do Palace Riviera. Mais adiante, haverá ainda um terceiro assassinato.
Afe! Em trocentas e tantas linhas, relatei um monte de fatos da excelente trama de L’Été 36 – mas tenho a certeza de que não cometi spoiler algum. Depois de tudo isso aí que contei, ainda há um monte, mas um monte de novos fatos.

As duas criadoras e roteiristas são experientes
É, sem dúvida, uma beleza de trama. À medida em que ia escrevendo aqui, ia me dando conta mais e mais da riqueza da história que essas moças Marie Deshaires e Catherine Touzet criaram.
Moças? Senhoras? Não saberia dizer. A Wikipedia em francês não tem verbete sobre elas. O IMDb informa apenas que elas são conhecidas por Marie Deshaires é conhecida por Les toqués (2009), uma série cômica, e Disparue (2015), minissérie policial de nove episódios que foi também exibida pela BBC. De onde se vê que não são iniciantes – muito antes ao contrário. E são um time. Catherine tem seu nome como roteirista em 24 títulos; Marie, em 17.
Tiro meu chapéu para essas duas mulheres.
E aqui vai a tabela com informações básicas sobre as quatro atrizes que fazem os principais papéis da minissérie


Fonte: 50 anos de filmes

