
O Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa um momento de forte tensão interna provocado pelos desdobramentos do caso Banco Master. Diante das divergências que vieram à tona nas últimas semanas, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, passou a adotar uma postura de maior articulação interna, com reuniões individuais com ministros e mudanças na condução de processos relacionados ao caso.
A movimentação ocorre após a sessão extraordinária de 15 de setembro, marcada por divergências entre integrantes do Supremo sobre a tramitação de
procedimentos envolvendo o Banco Master e informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono da instituição financeira.
Fachin assume relatório da petição 16.662
Uma das principais mudanças ocorreu no início de setembro, quando Fachin assumiu a relatoria da Petição 16.662, procedimento relacionado a um relatório produzido pela Polícia Federal a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro.
O documento contém informações que mencionam o ministro Alexandre de Moraes.
A Petição 16.662 foi apresentada ao presidente do STF pelo ministro André Mendonça. Posteriormente, Fachin também concentrou na Presidência procedimentos relacionados às investigações do Banco Master.
A mudança de condução dos processos, entretanto, não representa o encerramento das investigações. Ao contrário: questões envolvendo relatoria, competência, tramitação e eventual reunião de procedimentos passaram a ocupar o centro da discussão no Supremo.
Sessão de 15 de setembro terminou sem conclusão
Na sessão do dia 15, o plenário analisou uma questão de ordem apresentada pelo ministro Gilmar Mendes que propunha a reunião da Petição 16.662 com a Petição 16.704, para tramitação conjunta.
Fachin e André Mendonça votaram contra a reunião dos processos. Luiz Fux e Cármen Lúcia anteciparam seus votos acompanhando o presidente da Corte. Do outro lado, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes defenderam
a reunião dos procedimentos.
O ministro Flávio Dino pediu vista dos autos e interrompeu a análise. Segundo o próprio STF, o mérito da Petição 16.662 não chegou a ser julgado naquela sessão.
Com isso, permanece pendente a definição sobre a forma de tramitação dos procedimentos relacionados ao caso.
Fachin busca reduzir a temperatura interna
Em meio às divergências, Fachin passou a realizar reuniões individuais com ministros da Corte. Segundo informações divulgadas nesta terça-feira (22), o objetivo é ouvir os integrantes do Supremo sobre a condução dos trabalhos e discutir os próximos passos diante do ambiente criado pelos desdobramentos do caso Banco Master.
A iniciativa pode ser interpretada como uma tentativa de reduzir a exposição pública das divergências e buscar uma solução institucional para os conflitos que passaram a envolver diretamente ministros do próprio STF.
O movimento ocorre justamente depois de uma sessão marcada por divergências sobre a reunião ou separação dos procedimentos relacionados a Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Mendonça reage e pede arquivo de representação
Outro capítulo da crise envolve o ministro André Mendonça. Em manifestação apresentada nesta terça-feira (22), Mendonça pediu o arquivamento da representação apresentada contra ele por Alexandre de Moraes. Na mesma manifestação, segundo informações divulgadas pela imprensa, Mendonça solicitou que fossem analisadas possíveis condutas atribuídas a Moraes.
Entre os pontos levantados estão questionamentos sobre a utilização de relatórios de inteligência produzidos pela Polícia Federal e sobre a forma como determinadas informações teriam sido utilizadas nos procedimentos.
É importante destacar que as acusações e alegações apresentadas pelos ministros fazem parte de processos ainda em andamento e não representam conclusões definitivas sobre eventual responsabilidade de qualquer dos envolvidos.
Uma crise que expõe as divisões externas
O episódio evidencia uma situação pouco comum: ministros da mais alta Corte do país passaram a divergir publicamente sobre a condução de procedimentos que envolvem integrantes do próprio tribunal.
Além disso, o caso Banco Master colocou em discussão temas como impedimentos, suspeições, relatoria, competência, utilização de informações produzidas pela Polícia Federal e eventual abertura de procedimentos envolvendo ministros do Supremo.
O próprio andamento processual demonstra que ainda não existe uma definição definitiva sobre a forma como os diferentes procedimentos serão reunidos ou distribuídos. “Panos quentes” ou reorganização institucional?
A estratégia adotada por Fachin — concentrar procedimentos na Presidência, conversar individualmente com os ministros e buscar organizar a tramitação dos processos — pode ser vista como uma tentativa de baixar a temperatura da crise interna.
Mas o fato é que as divergências permanecem.
O pedido de vista de Flávio Dino adiou a conclusão da discussão sobre a tramitação conjunta dos processos, enquanto novas manifestações dos ministros ampliam o debate sobre os procedimentos relacionados ao Banco Master.
Por enquanto, o Supremo precisa definir como os processos serão conduzidos, quem deverá atuar em cada procedimento e quais questões deverão ser analisadas pelo plenário.
A crise, portanto, ainda está longe de uma solução definitiva. Fachin tenta reorganizar a casa e evitar que as divergências internas ganhem proporções ainda maiores. Resta saber se a estratégia de diálogo será suficiente para colocar “panos quentes” em um dos momentos de maior tensão interna da atual composição do STF.

