
De: Aki Kaurismäki, Finlândia-Alemanha, 2023
(Disponível no Mubi em 3/2026.)
Folhas de Outono, que o fantástico finlandês Aki Kaurismäki lançou em 2023, é definido como comédia romântica. É um filme profundamente triste, que fala de coisas duras, pesadas: a pobreza, a solidão, o alcoolismo. Tem momentos e em especial frases muito engraçadas, sim – do tipo de humor bem estranho que o cineasta já mostrou em outras obras. Assim, melhor seria dizer que é uma comédia dramática, um drama cômico, uma dramédia.
Mas uma coisa é certa: Folhas de Outono é o filme sobre romance menos romântico que já foi feito nestes primeiros 130 anos de cinema!
E não vai aí uma reclamação, um ataque, uma crítica. De forma alguma. Folhas de Outono é uma beleza, uma maravilha de filme, uma pequena pérola.
O filme teve 12 prêmios e 60 indicações. Participou da mostra competitiva do Festival de Cannes e ganhou o Prêmio do Júri. Teve indicação ao César francês de melhor filme estrangeiro, e foi o escolhido pela Finlândia para concorrer a uma indicação ao Oscar nessa categoria, hoje chamada de melhor filme internacional.
No IMDb, tem a nota 7,3, média das avaliações de 36 mil leitores. No Rotten Tomatoes, tem a estrondosa aprovação de 97% no Tomatometer, considerando as avaliações de 169 críticas. O que o site agregador de opiniões chama de consenso da crítica é assim: “Uma história peculiar de amantes predestinados ao infortúnio, Fallen Leaves é uma gema do cineasta finlandês Kaurismäki que celebra a vida”.
Brilho de definição. É exatamente isso: uma pérola, um filmaço, uma celebração da vida – mesmo quando a vida é dura, duríssima, pobre de marré deci. Uma celebração da vida, e daquela que é uma das melhores invenções dos seres humanos, a solidariedade.
Um casal que não é belo – e vive em lugares feios
Em geral, os filmes românticos – sejam comédias, sejam comédias dramáticas, sejam dramas – têm algumas características básicas. A mocinha e o mocinho são belos, atraentes. De preferência, ricos, elegantes, bem vestidos. E o romance rola em lugares especialmente belos – tipo assim os mais belos lugares de Paris, Roma, Londres, Nova York, San Francisco. Praias deslumbrantes, ou locais de natureza esfuziante, como estações de esqui.
Estão aí, só para dar uns poucos exemplos, A Princesa e o Plebeu/Roman Holiday (1953), Tarde Demais para Esquecer/An Affair to Remember (1957), Amor na Tarde/Love in the Afternoon (1957), O Candelabro Italiano/Rome Adventure (1962), Beijos Perdidos/Baisers Volés (1968), Toda uma Vida/Toute une Vie (1974), Uma Linda Mulher/Pretty Woman (1990), Um Lugar Chamado Notting Hill/Notting Hill (1990).

Assim propriamente belos, atraentes, Ansa e Holappa, os protagonistas da história criada por Aki Kaurismäki, definitivamente não são. Tá legal, esses bons atores Alma Pöysti e Jussi Vatanen também não são feios de doer, como são muitos, muitos, muitos dos tipos que vemos na tela, ao longo dos rápidos 81 minutos que dura o filme. Mas estão ali cuidadosamente produzidos para não parecerem belos, atraentes.
Vi fotos de Alma Pöysti em outros filmes e também não caracterizada para papel algum – é uma mulher bonita, sem dúvida, embora não daquela beleza extraordinária, estupenda, de tantas estrelas do cinema ao longo das décadas. Mas ela foi preparada pelas equipes de maquiagem e cabelos para parecer menos bonita e atraente do que é de fato – e soube perfeitamente incorporar a personagem. Ansa é uma mulher tímida, insegura – e isso ajuda a compor uma pessoa que não irradia beleza.
E são pobres, bem pobres, os dois, Ansa e Holappa. Working class, diriam os britânicos. Proletários, diriam os marxistas. Trabalhadores braçais sem especialidade, diriam talvez os cientistas sociais.
E vivem e trabalham em lugares feios, na periferia da cidade.
O mocinho e a mocinha são seres muito, muito solitários
Ansa é quem ficamos conhecendo primeiro. Trabalha em um supermercado de Helsinque como funcionária que verifica o estoque, repõe nas prateleiras o que está faltando, retira delas o que está vencido para jogar no lixo. À noite, faz longa viagem de bonde até sua casa, no que dá para inferir que é uma periferia distante. É uma casa bem pequena, mínima, algo equivalente a uma quitinete. Uma residência muito pobre, ainda mais se levarmos em consideração – e, diacho, é preciso, é forçoso levar em consideração – que a Finlândia é o 14ª país com melhor IDH do mundo. Não tão absolutamente rico quanto seus vizinhos Suécia, Noruega e Dinamarca, mas, diabo, ali no topo do mundo.
Muito pobre, mas não miserável. Afinal, aquilo não é Burundi, Botsuana, Brasil – é a Escandinávia, diabo.

Holoppa – que o filme nos apresenta logo depois de mostrar alguns fatos básicos da vida de Ansa – parece mais preparado para o mercado de trabalho do que ela: é um operário de fundição. Tem, portanto, uma especialidade. Teoricamente, ao menos, deveria ganhar mais Ansa. No entanto, ela tem uma casa, ainda que pequena. Ele vive em um dormitório coletivo da empresa em que trabalha.
Não ficaremos sabendo muito sobre como foi a vida desses dois seres solitários, quase absolutamente solitários, e muito pobres, antes do momento focalizado na narrativa. Na verdade, ficaremos sabendo pouquíssimo sobre o passado de Ansa e de Holoppa.
Seremos informados, ao longo do curto filme, de que ele bebe muito. Inclusive durante o trabalho. Não tem família – ou simplesmente não convive com ninguém de sua família. O hábito da bebida, e o gasto com ela, talvez expliquem por que ele sequer tem uma casa, por menor que seja.
Ela herdou a pequenina casa da madrinha. O pai bebia muito – e morreu por causa da bebida. A mãe morreu de desgosto. Exatamente como Holappa, Ansa não tem parentes – ou não convive com eles.
Essas informações vão sendo dadas para o espectador aos poucos.
Antes de ouvir sobre elas, ficamos sabendo que Holappa tem um amigo no trabalho, Huotari (o papel de Janne Hyytiäinen), que um tanto cuida dele, faz companhia para ele quando têm condições de sair à noite, ir a um bar, a um karaokê.
Quando o filme está com 10 dos seus 81 minutos, Holappa e Huotari estão em um karaokê, para onde este último havia arrastado aquele, já que, afinal, era sexta-feira à noite.
Naquele karaokê está também Ansa, com sua grande amiga Liisa (o papel de Nuppu Koivu).
Ansa e Holappa vêem um ao outro pela primeira vez na vida, a uma certa distância, ali dentro do bar.
Depois de cantar uma música, Huotari até se senta perto das duas mulheres, e conversa rapidamente com elas. Liisa comenta que ele é velho demais.
Ansa e Holappa – os protagonistas da história, a mocinha e o mocinho – não se falam, não trocam sequer um “boa noite”. Uma olha para o outro, o outro olha para a uma, e é só.

Um encontro que não tem nada de maravilhoso. E outro. E outro
Ainda no início da narrativa tanto Ansa quanto Holappa perdem seus respectivos empregos.
A demissão de Ansa é chocante, um acinte, um absurdo.
Um guarda da segurança do supermercado em que ela trabalha resolve ficar de olho nela. Desconfia que ela está levando produtos para casa. Em um final de seu turno de trabalho, Ansa é abordada por um supervisor; ele exige que a funcionária mostre o que tem na bolsa. Ansa tinha na bolsa um alimento que estava vencido, e que, em vez de jogar no lixo, ela tinha decidido levar para casa, como já havia feito outras vezes.
O alimento estava vencido! Em vez de jogar no lixo, ela tinha botado na bolsa para consumir em casa – com poucos dias após o prazo de validade, os alimentos ainda podem ser comidos, a gente sabe.
Ansa é demitida.
Encontra trabalho pouco depois, em um pub, como lavadora de pratos, garçonete.
Holappa sofre um acidente de trabalho; é socorrido por enfermeiros do sistema de saúde, que, para seguir o regulamento, têm que aplicar nele o teste do bafômetro. O chefe o demite no ato.
Encontrará outro trabalho.
E, eventualmente, aquelas duas pobres pessoas vão se encontrar pela segunda vez.
Não será um encontro daqueles de sonhos, de filmes românticos. Nem o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro.
Não sei se era o propósito, a intenção, o objetivo de Aki Kaurismäki fazer o filme menos romântico de toda a História do cinema – mas ele fez.

O filme faz parte de uma tetralogia sobre o proletariado
Gente pobre, não propriamente bela. Gente que trabalha duríssimo para ganhar um salário mínimo – mesmo em um país rico.
Esses são os personagens de muitos dos filmes de Aki Kaurismäki – e, diacho, o sujeito é, para usar o termo que os Cahiers du Cinéma adoravam, um auteur. Tá na Wikipedia: “Um auteur é o artista que controla todos os aspectos de um trabalho criativo e colaborativo, uma pessoa equivalente ao criador de uma obra literária. O termo é comumente referenciado a cineastas ou diretores/realizadores de cinema, em geral com um estilo próprio ou preocupação temática.”
Aki Kaurismäki – assim como seu irmão mais velho Mika – é um auteur. Em uma forma de arte que é necessariamente industrial, que envolve dezenas, centenas, às vezes de milhares de pessoas no processo produtivo, ele faz exatamente isso que a Wikipedia tão bem define: com um estilo próprio, com a mesma preocupação temática.
Este Kuolleet lehdet, literalmente folhas mortas, Fallen Leaves no Reino Unido e EUA, Les Feuilles Mortes na França, como na canção, Folhas de Outono no Brasil, é o vigésimo longa-metragem do diretor, e o quarto do que foi originalmente idealizado como a Trilogia do Proletariado. A trilogia, que agora virou tetralogia, inclui Shadows in Paradise (1986), Ariel (1988) e The Match Factory Girl (1990).
Quatro filmes sobre o proletariado! Que coisa fantástica!
Infelizmente, não vi (ainda) nenhum dos três filmes anteriores. Este Folhas de Outono aqui é apenas a terceira obra dele que eu vejo. Mas é absolutamente impressionante como o estilo, o jeito, o traço de Aki Kaurismäki são fortes. Você viu um, você sabe qual é a dele.
Transcrevo aqui o que escrevi em 2012 quando vi seu O Porto/Le Havre (2011), porque tem tudo a ver com este Folhas de Outono:
“O finlandês Aki Kaurismäki é um sujeito de finíssimo senso de humor. Conheço pouquíssimo de Aki Kaurismäki. Acho que, dele, antes deste Le Havre, eu havia visto só O Homem Sem Passado, de 2002, um filme que achei bastante estranho. Bom, mas estranho. Interessante, mas estranho.
“De seu irmão, Mika Kaurismäki, vi Três Homens e uma Noite Fria, de 2008, e O Ciúme Mora ao Lado, de 2009. Filmes esquisitos, estranhos. Bons, interessantes, fascinantes mesmo – mas esquisitos, estranhos. De Mika sei que é mezzo finlandês, mezzo carioca: mora parte do ano no Rio de Janeiro, gosta de samba, fez os documentários Moro no Brasil e Brasileirinho – Grandes Encontros do Choro.
“Mika, o mais velho, de 1955, gosta de samba e choro. Aki, de 1957, gosta de rock. (…)
“Aki Kaurismäki fez, em 1989, quando tinha, portanto, apenas 32 anos, o filme Cowboys de Leningrado vão para a América. The Leningrad Cowboys são o grupo de rock ou pop mais absolutamente improvável não só da Terra, mas do universo.”
E mais adiante: “Pelo que mostra em O Porto, Aki Kaurismäki tem a ver com Jim Jarmusch, especialmente o Jim Jarmusch do início. São parecidos os estilos do finlandês Aki Kaurismäki, do americano Jim Jarmush e também do argentino Sebastián Borensztein, o autor de Um Conto Chinês.
“O Porto é um filme minimalista. É adepto da teoria de que quanto menos, mais. Por exemplo: a câmara de Aki Kaurismäki se mexe pouco.
Em O Porto, Aki Kaurismäki – como Jim Jarmusch, como o argentino Sebastián Borensztein – persegue os planos fixos. A câmara se fixa num rosto, e fica lá. Não mexe. Muitas vezes o rosto também não se mexe. Fica lá paradão. Não o kinema, movimento, mas o estático, o paradão.
“E como são belas as tomadas de O Porto. Me peguei pensando, ao fim do filme, que uma das muitas (diversas, plurais) qualidades do filme é o casting, a direção de elenco. O trabalho de casting de O Porto é de dar inveja a Federico Fellini, que os deuses o tenham.
“Fellini entrou definitivamente para a História como um gênio. Uma das maiores qualidades de todos os seus filmes era a escolha do elenco. Os camaradas do casting de Fellini descobriam os rostos mais esquisitos, mais esdrúxulos, mais estapafúrdios, mais marcantes, mais fascinantes.
“O casting de O Porto é felliniano.
“Num filme que se faz em boa parte pela sucessão de retratos de pessoas – em tomadas paradonas, sem kinema, como se fossem fotografias, retratos –, a escolha dos retratados é fundamental. E foi brilhante o trabalho da equipe de casting.”

A escolha dos extras é uma qualidade especial do filme
Todas, absolutamente todas as características que me chamaram a atenção em O Porto, de 2011, estão neste Folhas de Outono, que Aki Kaurismäki realizou 12 anos depois. É impressionante. É fantástica a coerência do autor.
Há um pequenino detalhe nesta característica de ele manter a câmara estática, paradona. Pequenino – mas perceptível. Há várias tomadas em que a ação termina, o personagem que estava ali sai do quadro – e a câmara continua filmando o lugar agora vazio, em que nada está acontecendo, por alguns fragmentos de segundo. Reparei que isso acontece várias vezes neste belo e triste Folhas de Outono. Pode até parecer um erro da montagem – o montador poderia ter cortado a tomada um pouquinho antes do momento em que de fato cortou. Como se repete, fica claro que não é um erro – é proposital. É para realçar a coisa de que a câmara não se movimenta, fica estática mesmo!
Agora, a característica de pegar tipos estranhos, esquisitos, muito marcantes – fellinianos – para aparecer em diversas tomadas, essa não é sutil, não é um detalhinho miúdo. É um trabalho fantástico da equipe de casting. A câmara do diretor de fotografia Timo Salminen como que procura as pessoas presentes nos ambientes em que os personagens estão – os bares, o karaokê, os pontos do transporte público –e são pessoas de um visual sempre pouco usual, impressionante, forte.
Há ainda outras características marcantes no filme. Uma é o óbvio amor do cineasta pelo cinema, pelos filmes.
Depois de algum tempo desde que se viram pela primeira vez, no karaokê, Holappa cria coragem e convida Ansa para irem ao cinema. Ela aceita, é claro – ela estava à espera de um gesto dele assim fazia tempo. Aí o sujeito leva a dama para ver… um filme de terror! Um filme de mortos-vivos, zumbis! E os trechos que Kaurismäki escolheu para mostrar para o espectador são tomadas violentas, feias, horrorosas, de cabeças sendo decepadas, esse tipo de coisa. Vemos o rosto assustado, quase apavorado, de Ansa.
Depois do filme, o mocinho pergunta à mocinha se ela havia gostado do filme. Ansa, numa evidente gozação, uma óbvia tiração de sarro, que todo mundo percebe, menos Holappa, diz que gostou, que foi muito divertido.
Eu não reconheci que filme era aquele. O IMDb conta que é Os Mortos Não Morrem/The Dead Don’t Die (2019) – de Jim Jarmusch! Não sabia nada sobre esse filme, que, pelo jeito, é uma imensa gozação do diretor de Flores Partidas (2005) do subgênero terror-com-zumbis.
A fachada do cinema é mostrada em várias sequências – porque, depois que Holappa perde o papelzinho em que Ansa havia anotado seu número de telefone, tanto ela quanto ele passeiam pela calçada na esperança de reencontrar o outro. E assim o espectador pode ver os cartazes dos filmes que estão ou estarão em cartaz no Cine Ritz de Helsinque. Entre eles, Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups (1959), de François Truffaut e Desencanto/Brief Encounter (1945), de David Lean – duas obras-primas que Kaurismäki, evidentemente, admira.

Um monte de canções. Inclusive “Les Feuilles Mortes”, claro
Outra característica marcante é que o cineasta usa seu filme para demonstra o amor ao rock e ao pop.
Os personagens cantam no karaokê, toca música nos bares que frequentam; Ansa ouve música no rádio da sua casa. E, assim, o espectador ouve trechos de bem mais de uma dúzia de canções ao longo dos curtos 81 minutos de filme.
Há diversas canções em finlandês – e as letras, segundo lemos nas legendas, são de deixar no chinelo os mais trágicos tangos e sambas-canções dor de cotovelo. A amostra de música pop finlandesa que o filme apresenta é uma grande tragédia!
Mas há canções que a gente conhece. Por exemplo, “Mambo Italiano”, de Bob Merrill, que Dean Martin gravou e ao som de que Sophia Loren dança enlouquecedoramente em Pão, Amor e…, de Dino Risi (1995). Há um Carlos Gardel, “Arrabal Amargo”, em mais uma prova que o cinema dá de que o tango é o melhor produto de exportação da Argentina. A Serenata de Franz Schubert, que é cantada no karaokê. Há, para minha total surpresa e alegria, “Early Morning Rain”, de Gordon Lightfoot, que adoro desde que estava entrando na adolescência, em Belo Horizonte – aqui cantada em versão finlandesa, como “Aamuöiseen sateeseen”.
E, finalmente, é claro, é óbvio, “Les Feuilles Mortes”, o maravilhoso clássico de Joseph Kosma com letra do poeta Jacques Prévert, lançada em 1946, que Yves Montand e um porrilhão de artistas gravaram. Johnny Mercer fez a versão para o inglês, com o título de “Autumn Leaves”, e não há grande cantor norte-americano que não tenha gravado a beleza.
É a música que dá o título do filme, uai!
E então ouvimos “Les Feuilles Mortes”, ou melhor, “Kuolleet Lehdet”, na versão finlandesa escrita por Tapio Lahtinen, na voz de Olavi Virta. (Não dá para segurar a curiosidade, e então qualquer um pode ficar sabendo que Olavi Virta, 1915-1972, foi um cantor de imensa fama na Finlândia. “Entre 1939 e 1966, gravou quase 600 canções, muitas das quais são clássicos da música popular finlandesa, e participou de diversos filmes e peças teatrais”, ensina a Wikipedia).

Um filme que é uma bela ode à solidariedade
Pelo rádio, tanto Ansa quanto Holappa – e portanto também o espectador – ouvem notícias da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Isso acontece diversas, diversas vezes ao longo de todo o filme, insistentemente. E as notícias são sempre de ataques das forças russas. Lá pelas tantas, Ansa exclama: – “Maldita guerra!”
É a maneira de Aki Kaurismäki demonstrar seu repúdio à guerra imperialista do carniceiro Vladimir Putin. E, afinal, os finlandeses têm mais motivos para odiar – e temer – o ímpeto imperialista russo do que outros povos: entre os dois países há uma fronteira de 1.300 quilômetros.
Bem. Deixei para o fim desses comentários sobre características do filme uma que me agrada em especial. Aki Kaurismäki volta a fazer, neste seu filme, o elogio da solidariedade, esta que é uma das coisas mais belas que a humanidade foi capaz de criar.
Ele já havia feito isso em O Porto/Le Havre, seu filme de 2011. Na verdade, toda a trama de O Porto – sobre a imigração, em especial a imigração ilegal de gente dos países miseráveis para os países ricos – é um hino, uma ode à solidariedade entre as pessoas.
Huotari, o colega de trabalho de Holappa interpretado por Janne Hyytiäinen, é um exemplo de pessoa solidária. Holappa não se mostra agradecido a ele, sequer conversa muito com ele – ele é mesmo um homem de poucas palavras. Mas isso não incomoda Huotari: ele está sempre disposto a ajudar o outro. Cuida de Holappa com dedicação, para que o sujeito não afunde de vez em sua solidão, em seu amargor.
A própria Ansa vai cuidar de Holappa, quando ele passa a precisar de ajuda muito mais que antes, hospitalizado. Tudo bem: ela tinha um interesse afetivo nele – embora ainda não tivesse acontecido nada íntimo entre eles, nem sequer um abraço, um beijo. Mas ela se dedica a cuidar dele não apenas porque estava interessada nele, mas também por pura e simples solidariedade humana.
E há uma outra personagem – uma enfermeira no hospital, Tonja (o papel de Alina Tomnikov, na foto acima), que parece um suco condensado de solidariedade. Tonja aparece bem pouco, em três ou quatro sequências, apenas, no final da narrativa, mas ela é em parte responsável por deixar o espectador terminar de ver este filme belo mas duro com um sorriso nos lábios e uma sensação gostosa, leve, suavemente esperançosa.
Anotação em março de 2026
Folhas de Outono/Kuolleet lehdet
De Aki Kaurismäki, Finlândia-Alemanha, 2023
Com Alma Pöysti (Ansa),
Jussi Vatanen (Holappa),
e Janne Hyytiäinen (Huotari, o amigo de Holappa), Nuppu Koivu (Liisa, a amiga de Ansa), Sherwan Haji (morador da barraca), Matti Onnismaa (o chefe na fundição de ferro), Simon Al-Bazoon (o funcionário do café com internet), Martti Suosalo (o chefe de Ansa no supermercado), Maria Heiskanen (enfermeira-chefe), Alina Tomnikov (Tonja, a enfermeira solidária)
Argumento e roteiro Aki Kaurismäki
Fotografia Timo Salminen
Montagem Samu Heikkilä
Desenho de produção Ville Grönroos
Figurinos Tiina Kaukanen
Produção Aki Kaurismäki, Sputnik, Bufo, Pandora Filmproduktion, Finnish Film Foundation, Film- und Medienstiftung NRW.
Cor, 81 min (1h21)
Fonte: 50 anos de filmes

