
De: Hernán Goldfrid, Argentina, 2026
(Disponível na Netflix em 10/2026.)
Lo Dejamos Acá, no Brasil A Terapia Certa, produção argentina que teve estréia mundial no Festival de San Sebastian/Donostia em setembro de 2026, é um filme impressionante – com toda a força que o adjetivo carrega. Formidável, admirável, alarmante, comovente, marcante, perturbador – para usar os sinônimos registrados nos dicionários.
É um drama cômico, uma comédia dramática sobre um psicólogo absolutamente sui generis, que não tem semelhança alguma com qualquer um dos milhares e milhares de psicólogos da Argentina, o país que – como é dito quando estamos com apenas 2 minutos de filme – tem a maior concentração de psicanalistas do mundo. Um psicólogo que não tem igual em qualquer país do mundo, seja a Suíça ou o Zimbábue. Na verdade, um psicólogo que só poderia mesmo sair da cabeça de um ficcionista de extrema, louca, insana criatividade.
Nem mesmo Deus – ou a natureza e a evolução das espécies, para quem não acredita em Deus – seria tão irresponsável a ponto de criar um psicólogo como esse Ulises Verón.
Lo Dejamos Acá é um filme em que tudo por tudo é extraordinariamente bem feito – e impressiona demais o trabalho de quatro homens. O diretor Hernán Goldfrid, o autor da história e do roteiro Emanuel Diez, Ricardo Darín, que faz Ulises Verón, e Diego Peretti, o ator que interpreta o famoso escritor Martin Bouchard, que vai se consultar com o psicólogo que não se parece com absolutamente nenhum outro deste mundo, vasto mundo.
Esses quatro sujeitos apresentam para o espectador um tour de force, uma chose de lóki. Cada um deles excede, e muito.
Gostaria de insistir, de enfatizar, já aqui, no início deste comentário: Lo Dejamos Acá é um daqueles filmes que não tem absolutamente nada a ver com o mundo real, com a vida tal como ela é. Passa tão longe da realidade, e do realismo, quanto o diabo da cruz, o vampiro do crucifixo feito de alho, o fanático da razão, do bom senso.
É um exercício ficcional, uma brincadeira, uma provocação, uma boutade.

Há psicólogos demais – e o número de pacientes dobrou
O filme abre em uma cerimônia em que uma respeitável institução, a Fundación Baumann, está para entregar a Ulises Verón o Prêmio de Excelência em Psicologia, em sua 24ª edição.
Ulises Verón-Ricardo Darín está na coxia do anfiteatro, ouvindo a mestre de cerimônias fazer o discurso de introdução. Quando ela diz o seu nome, ele entra no palco.
Há aí uma tomada belíssima. A câmara do diretor de fotografia Rodrigo Pulpeiro focaliza em primeiro plano o homenageado pelas costas, da cintura para cima, cercado por uma auréola da luz forte que o ilumina, e, ao fundo, em segundo plano, o público que o aplaude de pé.
Ele começa agradecendo à Fundación Baumann e à sua filha, Paula, que a câmara, é claro, focaliza.
(Paula é o papel de Antonia Bengoecha. E… ahnnn… Ao que parece, não existe uma Fundación Baumann na Argentina. Há uma Baumann Foundation, um think-tank fundado em 2009 em San Francisco pelo músico Peter Baumann, ex-integrante da famosa banda alemã de música eletrônica Tangerine Dream.)
Enquanto o homenageado discursa, a câmara focaliza mais de uma vez um homem na platéia. Vai demorar um pouquinho para o espectador ficar sabendo que aquele ali é Martin Bouchard (o papel, repito, de Diego Peretti), escritor famoso, best-seller, que irá depois se apresentar no consultório do psicólogo pedindo para ser paciente dele.

– “Gostaria de dizer que temos um problema – e é um problema sério”, diz Ulises Verón para a platéia que lota o anfiteatro. “A Argentina é o país com maior concentração de psicanalistas do mundo. No entanto, nos últimos 30 anos, a porcentagem da população com algum transtorno, seja mental ou de comportamento, praticamente dobrou.”
Após uma rápida pausa, ele continua: – “Até há pouco, tive um paciente que muitos de vocês devem ter conhecido. Era um psicólogo renomado. No último verão, esse colega abandonou seu consultório, abandonou seus pacientes e sua família, para radicar-se na província de Córdoba, em companhia de um grupo que se autodenomina A Irmandade da Verdade Suprema. E digo que ele foi meu paciente não porque deixou de ser depois de entrar no grupo. Ao contrário, continuamos tendo sessões por telefone duas vezes por semana. Digo isso porque ele foi encontrado morto há três meses, em Cuesta de la Totora, na província de Córdoba, onde ele tinha ido para uma de suas trocas de energia com o plano superior. A autópsia revelou que a causa da morte foi hipotermia acidental. Eu me pergunto: como terapeuta, eu poderia ter feito algo para evitar essa tragédia? Não sei. Eu deveria ter me aproximado mais dele? E o que podemos pensar de todos os pacientes que colocaram sua saúde mental nas mãos desse colega? Podemos ter certeza de que foram bem tratados? Sinceramente, não me atrevo… O que quero dizer com tudo isso? Que eu não me sinto em condições de aceitar este prêmio. Também não espero resposta para todas essas perguntas. porque a verdade é que não acho mais que as palavras sejam úteis. Preciso de atos. Precisamos de atos. Assim que vou deixar este prêmio aqui com uma última pergunta: o que caralho pensamos em fazer?”
O psicólogo passa a agir na vida de seus pacientes!
O discurso de Ulises Verón tem lógica. “Tiene sentido, entendimiento y razón”, como dizia a canção na bela voz de Isabel Parra. Um psicólogo tem todo o direito de se questionar diante de um caso como esse que ele relata. De se questionar, de questionar os princípios da sua própria profissão, da ciência que pratica.
Mas o que ele vai fazer a partir daí é que é a mais absoluta loucura.
Ulises Verón passa a achar que tem o dever de interferir na vida de seus pacientes. De se imiscuir na vida deles, e determinar como eles deveriam agir. Na verdade, ele passa a agir, ele mesmo, para – teoricamente – melhorar a vida de seus pacientes.

O espectador acompanhará a insana decisão do psicólogo de agir na vida de dois de seus pacientes – uma mulher que está infeliz com o marido que a trai e uma outra que se sente sufocada, oprimida pela mãe.
E o que ele depois vai fazer na vida do escritor Martin Bouchard, que está sofrendo de um severíssimo caso de bloqueio criativo, é a coisa mais absurdamente louca que se poderia imaginar. E, repito, é uma loucura de ficção, de cinema. Não existiria nada parecido na vida real.
Título que afirma o contrário do que o filme mostra
“Lo Dejamos Acá.” Literalissimamente, o deixamos aqui.
Não conhecia essa expressão que é o título original do filme. Só fui compreendê-la quando, começando a escrever esta anotação, vi que na França os exibidores foram de On va s’arrêter là, e, em Portugal, os exibidores, que muitas vezes seguem as opções dos franceses, deram ao filme o título de Hoje Ficamos por Aqui.
“On va s’arrêter là.” “Hoje ficamos por aqui.” Segundo o tradutor do Google, “Lo dejamos acá” é exatamente isso – “vamos parar por aqui”. É a frase que Ulises Verón usa para terminar de repente, inopidadamente, a consulta com cada um dos seus pacientes. Ele não respeita o horário – de repente ele toma uma decisão, fala dela com o paciente, e diz “lo dejamos acá”.
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, inventaram para o filme o título de Therapy Done Right, terapia feita de maneira certa. O Brasil seguiu a onda e foi de A Terapia Certa. O tal do título irônico. Que nem tantos, tantos outros títulos irônicos, que afirmam o contrário daquilo que mostram.
Como a série O Casal Perfeito/The Perfect Couple (2024), em que o casal interpretado por Nicole Kidman e Liev Schreiber está mais longe da perfeição do que fanático do bom senso. Como A Cidade Está Tranquila/La Ville est Tranquille (2009), do grande Robert Guédiguian. Estamos Todos Bem/Stanno Tutti Bene (1990), de Giuseppe Tornatore, e sua refilmagem americana, Estão Todos Bem/Everybody’s Fine (2009), de Kirk Jones. Tudo Vai Ficar Bem/Every Thing Will Be Fine (2015), feito por Wim Wenders no Canadá. A série sueca Uma Família Quase Perfeita/En Helt Vanlig Familj (2023), de Per Hanefjord. Bem-Vindos ao Paraíso/Come See the Paradise (1990), de Alan Parker, sobre o inferno dos campos de concentração criados pelos Estados Unidos para descendentes de japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. E por aí vai…

Um filme em que as personagens femininas importam pouco
Uma característica me chamou a atenção neste filme muitíssimo bem elaborado: em toda a trama, ao longo de toda a narrativa, as mulheres não são muito importantes.
Nem o psicólogo nem o escritor têm uma mulher em suas vidas. Não têm namorada, amiga, amante.
Não se faz referência em momento algum à ex de Ulises, a mãe de sua filha – se simplesmente se separaram, se está morta.
Sim, há as duas pacientes de Ulises, a esposa infeliz e a filha angustiada – mas não são personagens importantes. Servem para mostrar para o espectador como o psicólogo se mete na vida dos pacientes, passa a ter uma atuação direta na vida deles.

E a personagem da filha de Ulises, Paula, o papel da bela Antonia Bengoechea, não chega a ser forte, firme, poderosa. Vive à sombra do pai, que é também seu chefe no consultório. Na hora de apresentar o namorado ao pai, tem medo de qual vai ser a reação dele. Antonia é simpática, é inteligente, percebe o que está acontecendo ao seu redor, e, lá pelo fim da narrativa, chega a questionar o pai, a dizer na cara dele que o que ele está fazendo é um absurdo. É o único momento em que demonstra força.
Achei essa característica importante, relevante. Até porque, na vida real, as mulheres são sempre fortes, poderosas – fundamentais.
Dois grandes atores, um diretor tipo ourives
De Ricardo Darín – que, aliás, é também um dos produtores do filme, juntamente com seu filho Chino e Federico Posternak – não é necessário falar. O sujeito é a cara, a marca registrada do cinema argentino das últimas quatro décadas – uma bela cara de um belo cinema. Diego Peretti é bem menos conhecido fora de seu país, creio.
Nascido em Buenos Aires em 1963, seis anos depois de Darín, que é de 1957, Diego Peretti é ator, roteirista, diretor e – olha só! – formado em psiquiatria. Começou a carreira de ator no teatro, nos anos 1980, passou pela televisão e, no cinema, venceu os prêmios Konex, Martín Fierro e Cóndor de Plata. De 2012 a 2014, fez o papel do psicólogo Guillermo Montes na série En Terapia (que teve versões em mais de 30 países inclusive o Brasil).
De 2021 a 2023, fez o papel de um famoso pastor evangélico que concorreria às eleições presidenciais argentinas como vice de um empresário que é assassinado em um comício em um ginásio de esportes, na série El Reino, no Brasil Vosso Reino. A série, excelente, é uma criação do grande realizador Marcelo Piñeyro e da escritora Claudia Piñeiro. O tema não poderia ser mais atual: a mistura de política com pastores evangélicos, a imposição de uma pauta reacionária, retrógrada, um atentado a faca que ajuda a eleger um sujeito que se diz diferente da velha política.
Não me lembrava desse ótimo ator, mas ele está também em dois filmes já comentados neste site, Não é Você, Sou Eu/No Sos Vos, Soy Yo (2004) e A Reconstrução/La Reconstrucción (2013).

Hernán Goldfrid, nascido em Buenos Aires em 1979, é daquele tipo de diretor que faz poucas obras. Do tipo ourives, que dedica muito tempo a lapidar o que faz. É o oposto de realizadores tipo Woody Allen, Ingmar Bergman, Pedro Almodóvar, que produzem sem parar, sem parar, um filme por ano, ano após ano.
Ele estreou em um curta-metragem, Torino, em 2001, e fez seu primeiro longa em 2009, Música en Espera, uma comédia romântica com a grande dama Norma Aleandro e Diego Peretti. Ao longo destes últimos 27 anos, dirigiu três minisséries de TV e apenas dois filmes – Tese Sobre um Homicídio (2013) e este Lo Dejamos Acá, de 2026.
Tese sobre um Homicídio me encantou. É um daqueles thrillers cerebrais, lógicos, e nada hard-boiled, mais próximos de Sherlock Holmes ou Hercule Poirot do que dos detetives que sofrem, apanham, levam porrada, tipo Sam Spade e Philip Marlowe. O personagem principal, Roberto Bermúdez – interpretado por Ricardo Darín – não é um detetive, e sim um ex-advogado criminal, que se transformou num especialista em criminologia, e dá cursos de pós-graduação na Faculdade de Direito de Buenos Aires.
Um escritor jovem, de muitos feitos e imaginação fantástica
E, at last but not at least, Emanuel Diez – o cara que, afinal de contas, bolou toda essa história incrível, fabulosa – no sentido mais estrito desses adjetivos. Que não dá para crer, que parece fábula, história, ficção.
A Wikipedia en español ainda não se dignou a fazer um verbete para o escritor e roteirista. O IMDb tem uma biografia até longa dele, assinada por L. Zimmer. Eis aqui alguns trechos:
Emanuel Diez nasceu em 1989 em Buenos Aires. Desde 2013 tem trabalhado como roteirista para produtoras da Argentina, outros países da América Latina e Espanha. Em 2018, foi encenada sua primeira peça de teatro, ¿Qué hacemos con Walter?, que ganhou o Prêmio ACE (da Asociación de Cronistas del Espectáculo) para Melhor Comédia, e ficou em cartaz por três anos.
Em 2021 criou e escreveu a série Los Enviados, da Netflix/ SkyShowtime), que ganhou os prêmios de Ouro para Melhor Drama e Prata para melhor roteiro no New York Festivals TV & Film Awards.
Em 2023, o filme La Extorsión, dirigido por Martino Zaidelis e produzido pela Warner Bros. Pictures foi um gigantesco sucesso de público, com a maior bilheteria do ano para um filme argentino.
Foi o autor do roteiro da série Coppola: El Representante (Disney+ /Hulu), produzida pela Walt Disney Company, baseada na vida do administrador da carreira de Diego Armando Maradona. A série estreou em 2024 e recebeu nove indicações aos prêmios da Associação Argentina de Críticos de Cinema, incluindo Melhor Minissérie e Melhor Roteiro Adaptado.
É. O cara é jovem, já tem uma grande filmografia – e, pelo que se vê por este Lo Dejamos Acá, tem uma imaginação fantástica.

É um filme bom de se ver – basta abrir mão do realismo
O jornal La Nación deu ao filme 3 estrelas em 4. Em sua crítica, Gullermo Curau escreveu:
“Verón se sente quase onisciente, alguém que acredita ter descoberto os mecanismos mais ocultos de sua profissão, capaz de resolver qualquer problema por qualquer meio necessário, mesmo se envolvendo mais do que o aconselhável na vida de seus pacientes. Portanto, a consulta de Martín Bouchard (Diego Peretti), um escritor de sucesso com bloqueio criativo que só o álcool consegue superar, não lhe interessa muito. Afinal, ele pode fazer qualquer coisa… Ou será que não?
“O novo filme de Hernán Goldfrid (Tesis sobre un homicidio, Música en Espera, Atrapados) se desenrola a partir de um mecanismo centrado na manipulação que, de uma forma ou de outra, permeia todos os personagens. O terapeuta, seu paciente, aqueles ao seu redor — todos fazem parte de um jogo complexo que visa diretamente a essência da natureza humana, bem como suas inseguranças e contradições.”
Euzinho aqui gostei bastante de ver o filme. É, repito, extremamente bem realizado, em todos os quesitos. Para gostar dele, basta o espectador não exigir realismo.
Anotação em novembro de 2026
A Terapia Certa/Lo Dejamos Acá
De Hernán Goldfrid, Argentina, 2026
Com Ricardo Darín (Ulises Verón, o psicólogo),
Diego Peretti (Martín Bouchard, o escritor),
Antonia Bengoechea (Paula Verón, filha e secretária de Ulises), Inés Efron (Florencia), Andrea Politti (a apresentadora da TV), Patricia Echegoyen (Mónica), Carlos Santamaría (Eugenio Tirabosco), Miriam Odorico (Norma), Tomás Limansky (Thiago), Paula Rubinsztein (Gladys), Andrés Granier (Claudio Iturbide), Adrián Suar (o ator do filme baseado no livro assinado por Martín Bouchard)
Fotografia Rodrigo Pulpeiro
Música Roque Baños
Montagem Andrés Quaranta
Direção de arte Daniel Gimelberg
Casting Mariana Mitre, Katia Szechtman
Figurinos Jam Monti
Na Netflix. Produção Kenia Films, Chino Darín, Ricardo Darín, Federico Posternak.
Cor, 98 min (1h38)
Fonte: 50 anos de filmes

