18 de setembro de 2026
Professor Taciano

Reminiscência do STF: o decano Gilmar Mendes e o histórico de discórdia, ataques e ofensas contra colegas do STF . Confira!

Olá, caríssimos leitores!

Não foi apenas o mais recente imbróglio envolvendo os ataques do decano Gilmar Mendes contra um dos seus pares, em plena sessão do Supremo Tribunal Federal, desta vez o ministro André Mendonça.

As reminiscências dos fatos mostram que não estamos diante de um episódio completamente isolado.

Reminiscências

CENA 1 – Gilmar Mendes x Joaquim Barbosa – 2009

Quem não se lembra do histórico bate-boca entre Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes, ocorrido em 22 de abril de 2009, durante uma sessão plenária do STF?

Naquele episódio, os ministros discutiam recursos relacionados à previdência de servidores de cartórios do Paraná e regras de foro privilegiado. Segundo registro da Folha de São Paulo, o confronto chegou ao ponto de Barbosa acusar Gilmar
Mendes, então presidente da Corte, de estar “destruindo a credibilidade da Justiça brasileira”.

A discussão foi subindo de tom

Barbosa pediu respeito, acusou Mendes de destruir a Justiça e o desafiou a “sair à rua”. Mendes respondeu que já estava nela. Barbosa rebateu dizendo que o colega estava “na mídia destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro”.

Em outro momento, Barbosa afirmou que não estava falando com os “capangas de Mato Grosso” de Mendes.

O episódio precisou da intervenção de outros ministros, que tentaram colocar fim ao confronto. O próprio ministro Marco Aurélio Mello advertiu que a discussão estava descambando para um campo incompatível com a disciplina do Supremo.
CENA 2 – Gilmar Mendes x Luiz Roberto Barroso – 2016.

Em 2016, a vítima do destempero e da deselegância de Gilmar Mendes foi o Ministro Luiz Roberto Barroso quando ambos voltaram a se ofender no plenário do Supremo Tribunal Federal. O bate-boca foi durante a votação sobre o financiamento eleitoral por meio de pessoas físicas.

A discussão teve até referência a um voto em julgamento. Na época, o voto de Barroso foi decisivo para revogar a prisão preventiva de cinco médicos e funcionários de uma clínica de aborto.

Dez anos depois, a história parece ganhar um novo capítulo.

CENA 3 – Gilmar Mendes x André Mendonça – 2026

Em 15 de setembro de 2026, o plenário do STF voltou a testemunhar um confronto público envolvendo Gilmar Mendes. Desta vez, o adversário no plenário foi o ministro André Mendonça.

Durante a sessão que discutia questões relacionadas aos casos envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça, Gilmar interrompeu uma manifestação do colega e classificou sua intervenção como “leviandade”, falando ainda em “desfaçatez”. Mendonça reagiu exigindo respeito. Gilmar respondeu: “Pode chorar.”

O episódio não terminou apenas em um bate-boca.

O ministro Flávio Dino pediu vista do julgamento e afirmou que o ambiente havia chegado a termos que, segundo suas próprias palavras, “degradam” a imagem do tribunal, criticando a condução da sessão. A ministra Cármen Lúcia também manifestou constrangimento diante do ambiente registrado no plenário.

E aqui está o ponto central deste editorial. Estamos falando do Supremo Tribunal Federal. Não de um programa de televisão.
Não de uma mesa de bar, não de uma disputa partidária. Não de um palanque eleitoral.

Estamos falando da instituição que ocupa o topo da estrutura do Poder Judiciário brasileiro. É justamente por isso que o comportamento de seus integrantes importa. O problema não é discordar. É como se discorda.

Ministros do Supremo têm, e devem ter, liberdade para divergir.

O voto vencido faz parte da democracia constitucional. A divergência jurídica é saudável. O debate de ideias é indispensável.
Mas existe uma fronteira entre divergência jurídica e confronto pessoal.

Quando essa fronteira é ultrapassada diante das câmeras, a consequência não fica restrita aos ministros envolvidos.

A imagem da própria instituição é colocada em xeque.

E quando o protagonista de episódios dessa natureza é justamente o decano da Corte, a responsabilidade institucional ganha uma dimensão ainda maior.

Gilmar Mendes está no Supremo há mais de duas décadas. Em razão de sua experiência e longevidade, conhece como poucos os ritos, as responsabilidades e o peso institucional de uma sessão plenária.

Por isso, é legítimo perguntar: o decano deveria ser aquele que aumenta a temperatura do ambiente ou aquele que ajuda a reduzi-la? A pergunta não é uma acusação. É uma reflexão institucional.

Porque, quando olhamos para o episódio de 2009 e o comparamos com o que ocorreu agora, em 2026, surge inevitavelmente uma inquietação.

Será que o tempo mudou alguma coisa na forma como certas divergências são conduzidas dentro da Suprema Corte?

A história registra o episódio entre Barbosa e Mendes. O presente registra o confronto entre Mendes e Mendonça.
E o cidadão brasileiro assiste.

Assiste às interrupções. Assiste aos gritos. Assiste às provocações. Assiste aos ministros trocando acusações.E depois se pergunta:

É essa a imagem que a mais alta Corte do país deseja transmitir à sociedade?

O Supremo precisa ser respeitado — e também precisa respeitar a si próprio.

Não se trata de defender André Mendonça contra Gilmar Mendes.

Nem Gilmar Mendes contra André Mendonça. Trata-se de defender a instituição.

O Supremo não pode depender da personalidade de seus ministros para preservar a solenidade de seus julgamentos.

O tribunal precisa estar acima das individualidades.

Ministros passam. A Constituição permanece.

Os ministros passam. A instituição permanece.

E é justamente por isso que aqueles que ocupam temporariamente uma cadeira na Suprema Corte precisam compreender que suas palavras e atitudes ultrapassam os limites daquele plenário.

Elas chegam à casa do cidadão.

Chegam ao trabalhador. Chegam ao empresário. Chegam ao estudante. Chegam ao aposentado. Chegam a milhões de brasileiros que esperam da Justiça aquilo que o próprio Estado deve oferecer: segurança, equilíbrio e serenidade.

Não se espera que ministros sejam amigos. Não se espera unanimidade. Não se espera silêncio diante de uma divergência.
Espera-se respeito institucional. Porque uma coisa é um ministro dizer: Discordo de Vossa Excelência”.

Outra, completamente diferente, é transformar a sessão em um confronto pessoal.

O decano e o peso da responsabilidade

Gilmar Mendes tem uma trajetória relevante na história do STF. Seus críticos, porém, também apontam episódios de forte confronto verbal ao longo dos anos.
Não cabe a este editorial transformar essa percepção em diagnóstico definitivo sobre sua personalidade ou suas intenções.
Mas cabe fazer uma pergunta.

Quando um ministro com mais de duas décadas de experiência no Supremo entra novamente em um confronto público com outro integrante da Corte, quem deveria puxar o freio?

A resposta, sob a ótica institucional, parece evidente: quem possui maior experiência deveria ser também um dos primeiros a
preservar a serenidade. Não porque deva abrir mão de suas convicções. Mas porque autoridade não se mede pelo volume da voz.

Mede-se pela capacidade de sustentar uma posição firme sem precisar transformar o adversário em inimigo.

Precisa de uma Suprema Corte onde todos possam discordar sem perder o respeito pelo outro e pela própria instituição.
E talvez seja exatamente por isso que o episódio de 15 de setembro de 2026 não deva ser tratado apenas como mais um bate-boca.

Ele deveria servir como oportunidade para uma reflexão muito maior: até onde pode ir a divergência dentro da Suprema Corte sem que a própria Corte seja a principal prejudicada?

Essa é uma pergunta que não pertence a Gilmar Mendes.

Não pertence a André Mendonça. Não pertence a Flávio Dino. Pertence à sociedade brasileira.

Porque o Supremo Tribunal Federal não é propriedade de seus ministros. É uma instituição da República.

E a República merece uma Suprema Corte cuja força venha dos argumentos, das decisões e da Constituição — não da capacidade de um ministro falar mais alto que o outro.

Professor Taciano Medrado

Possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade do Estado da Bahia (1987)-UNEB e graduação em bacharelado em administração de empresa - FACAPE pela FACULDADE DE CIÊNCIAS APLICADAS DE PETROLINA (1985). Pós-Graduado em PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL. Licenciatura em Matemática pela UNIVASF - Universidade Federal do São Francisco . Atualmente é proprietário e redator - chefe do blog o ProfessorTM

Possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade do Estado da Bahia (1987)-UNEB e graduação em bacharelado em administração de empresa - FACAPE pela FACULDADE DE CIÊNCIAS APLICADAS DE PETROLINA (1985). Pós-Graduado em PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL. Licenciatura em Matemática pela UNIVASF - Universidade Federal do São Francisco . Atualmente é proprietário e redator - chefe do blog o ProfessorTM

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