
Polícia Federal desmarca depoimento do senador petista, Jacques Wagner, sobre caso Master
O adiamento do depoimento do senador Jaques Wagner (PT-BA) à Polícia Federal reacende uma pergunta que se tornou recorrente na política brasileira: mais uma investigação de grande repercussão caminha para um desfecho inconclusivo?
A oitiva, inicialmente marcada para o dia 7 de agosto, foi desmarcada após a defesa do parlamentar alegar que não teve acesso integral aos autos da investigação. O pedido é um direito assegurado pela ampla defesa e pelo contraditório, princípios fundamentais do Estado de Direito.
No entanto, o episódio também expõe um problema maior: a lentidão e a sucessão de adiamentos em investigações envolvendo figuras de destaque do cenário político nacional.
A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de fraudes relacionadas ao Banco Master e apura a possível existência de vantagens indevidas e vínculos entre o senador e pessoas investigadas. As diligências foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, o que demonstra que o caso está inserido em um contexto de elevada relevância institucional.
Jaques Wagner nega qualquer irregularidade, afirma ser inocente e diz que prestará os esclarecimentos necessários no momento oportuno. Esse posicionamento deve ser respeitado, assim como a presunção de inocência. Contudo, o interesse público exige que os fatos sejam esclarecidos com rapidez, transparência e profundidade.
O problema não está apenas no adiamento em si. O que alimenta a desconfiança da sociedade é a repetição de um roteiro conhecido: investigações que começam com grande impacto, produzem manchetes, geram expectativa de responsabilização e, com o passar do tempo, acabam perdendo força, sendo proteladas ou encerradas sem respostas convincentes para a população.
A percepção de seletividade ou de impunidade é corrosiva para as instituições.
Quando processos envolvendo autoridades se arrastam indefinidamente, a confiança na Justiça e nos órgãos de investigação sofre desgaste. A democracia depende não apenas de garantias individuais, mas também da efetividade das instituições no combate a eventuais ilícitos.
É preciso cautela para não transformar suspeitas em condenações antecipadas. Mas também é necessário evitar que procedimentos investigativos se convertam em labirintos processuais sem prazo, sem conclusão e sem responsabilização,
caso existam provas suficientes.
O Brasil já assistiu a inúmeros escândalos terminarem em prescrições, nulidades, acordos controversos ou simples esquecimento coletivo. Por isso, a pergunta que dá título a este editorial não é uma acusação, mas um alerta.
A sociedade tem o direito de saber se houve irregularidades. E, se não houve, tem o direito de ver essa conclusão apresentada de forma clara e fundamentada. O que o país menos precisa é de mais um caso que termine com a sensação de que tudo começou com estrondo e terminou em silêncio.

