O descentrado centro

Baixo nível do debate político

CONTRABANDO – Plenário da Câmara: o texto que abre uma janela para os fichas-sujas ainda será analisado no Congresso Wilson Dias/Agência Brasil

Lideranças populistas, partidos sem qualquer identidade, desigualdades extremas, educação precária são algumas das explicações para a rasura em que o debate político nacional se desenvolve. Os que se dizem de direita demonizam os de esquerda que satanizam os de direita. Os extremos sovam-se com braveza e baixarias para fermentar seus mitos, não raro sem saber o significado histórico-politico da direita e da esquerda no mundo e no Brasil. Ao centro cabe a impopular tarefa de arrumação.

O primeiro ano do governo Bolsonaro está aí para provar. Se andou um pouco foi por mérito do Congresso – em especial das forças de centro -, que colocou em pé a nova Previdência, expurgando dela coisas catastróficas como o sistema de capitalização defendido pelo ministro Paulo Guedes. Impôs limites à loucura pró-armas e à desregulamentação sem precedentes nas leis de trânsito. Não topou o excludente de ilicitude e muito menos permitirá taxação do seguro-desemprego. E o centrismo da sociedade impediu a ressuscitação da CPMF.

O centro desembaraça novelos, arranja alternativas, faz. Mas não sabe mostrar o que faz, portanto, não é reconhecido. Muito menos consegue encarnar os feitos em um líder eleitoralmente viável.

Diluídos em vários partidos e com espectro amplo à direita e à esquerda, os centristas têm enormes dificuldades de se enxergarem juntos. À direita, nem passa pela cabeça do governador paulista João Doria sentar à mesa com Rodrigo Maia do DEM ou com o também tucano Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul. O que dirá de abrir mão da candidatura presidencial para fora de seu partido, considerando alternativas como a de Luciano Huck. Viúvos do PT e sem chances nas disputas à esquerda, PSB e PDT nem consideram a hipótese de caminhar ao lado do PSDB, do DEM ou do Novo de João Amoedo. Arrepiam-se com Huck.

No Brasil de hoje se dizer de direita é fácil. É só seguir, ser ativo e brigão nas redes, dar um like e compartilhar as lives e os Twitts do presidente Jair Bolsonaro, aclamar o guru Olavo de Carvalho, reproduzir e não criar encrenca com os filhos do chefe. Ser de esquerda, mais simples ainda: basta louvar Lula todos os dias.

Profetas do atraso, os dois líderes, interessados apenas em se manter à frente um do outro, inibem as conexões dos neurônios de seus adeptos. Tudo gira em torno deles.

Já no centro, a encrenca começa na falta de estofo de muitos de se assumirem como tal. Temem ser confundidos com o Centrão, que carrega a pecha da política do toma lá dá cá e de negociações espúrias. Envergonhada, a maioria se diz de centro-esquerda ou centro-direita. Até se unem em votações parlamentares, mas tratam de expor diferenças irreconciliáveis sempre que o papo é eleição.

Na sexta-feira, em reunião da Roda Democrática, grupo de discussão suprapartidário que busca saídas para essas armadilhas, o ex-deputado Roberto Freire, presidente nacional do Cidadania, apontou o exemplo de vitórias centristas em ambientes considerados pouco afetos a elas. Na Europa, que vive o drama da dissidência do Reino Unido, a união continental está sendo mantida pelas forças de centro contra o euroceticismo dos extremos de direita e esquerda.
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No Brasil, embora sem reconhecimento da patente, o centro tem cumprido o papel de avalista da democracia. No Congresso e fora dele.

É o campo que dignifica as instituições, rejeitando, por exemplo, o perigosíssimo fora STF, que já esteve na boca do petismo e, agora, no pós Lula-livre, ocupa os bolsonaristas. Que defende a imprensa livre, igualmente rechaçada por ambos com agressividade e sordidez. Que repudia os abusos de Bolsonaro, mas também não tolera os de Lula.

Se as pontas podem arregimentar até o teto de 30%, sejam elas a de Bolsonaro ou do preposto lulista – Lula está impedido de ser candidatar pela lei da Ficha Limpa -, o potencial do centro seria, matematicamente, de 40%.

Mas política passa longe de ser ciência exata.

No ano que vem, os extremos tentarão nacionalizar as eleições de natureza local. Farão de tudo para que o embate ideológico encubra o debate sobre transporte, saneamento, buracos de rua, coleta de lixo, educação e saúde básicas. A preocupação continuará sendo a de manter Bolsonaro e Lula no topo da onda, pouco se lixando para as questões municipais.

Ainda que faltem três anos para a disputa presidencial e isso possa parecer uma eternidade, convém aos centristas se coçarem. Do contrário serão novamente tragados pelos mesmos erros.

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